O BRASIL, A CORRUPÇÃO, E EU

By: Michaell Lange.

London, 28/09/16 –

A sociedade Brasileira é inteiramente corrompida. Dos 25 anos que eu morei no Brasil, a quantidade de pessoas honestas que eu encontrei foram tão poucas que eu poderia contar usando os dedos de uma única mão, e nem eu me incluiria nessa lista. De fato, uma das maiores lições que a sociedade Britânica me ensinou ao longo dos últimos 14 anos, foi que a corrupção tem cura. É possível acabar com a corrupção! Mas é preciso um exercício intenso que vai muito além da simples vontade de ser e fazer as coisas da forma correta. Mudar o que somos e seguir contra tudo aquilo que é aceitável e que dita as regras sociais a que fomos introduzidos e condicionados desde o primeiro dia de vida, é um desafio árduo e custoso. É preciso antes de mais nada, compreender e entender o que é corrupção antes de iniciarmos o processo de nos distanciarmos dessa prática. É como passar a vida inteira nadando contra a correnteza de um rio tentando convencer as pessoas de que apesar das dificuldades de nadar contra a corrente, se todo mundo passar a nadar para o lado certo, nós conseguiremos mudar o curso do rio. A minha experiência em Londres me deu maior clareza desse processo que antes eu nem conseguia reconhecer, por isso eu critico, mas não condeno o povo Brasileiro. Eu só enxerguei o que estava errado depois que eu sai, porque até então, eu era apenas parte do problema.

Logo que cheguei a Londres em 2002, me deparei com um desafio tão imenso que por vários dias cheguei a pensar que na verdade eu estava ali porque havia morrido, e que todas as pessoas a minha volta também estavam mortas. Em Londres, as pessoas costumam andar em silêncio, com a cabeça ligeiramente baixa. O Brasileiro caminha como um carro alegórico, falando alto, gesticulando, rebolando, olhando para os lados, cumprimentando quem passa, tirando onda. Para quem esta acostumado com essas alegorias do comportamento Brasileiro, não é tão difícil assim achar o silêncio dos Londrinos meio sem vida. Me lembro claramente de caminhar no centro de Londres e não sentir o chão. Por vezes toquei as pessoas nas ruas de propósito só para ter a certeza de que elas estavam realmente vivas. É uma experiência muito louca, especialmente quando você é meio “bicho do mato” como eu.  Foi um choque cultural muito grande.Eu reconhecia os valores, mas nunca havia visto em prática. No Brasil, o que conhecemos como valores quase nunca são aplicados. Valores no Brasil são como teorias que aprendemos na escola e ouvimos falar em casa, mas nunca praticamos de verdade. Assistir a estes conceitos serem praticados no dia-a-dia era uma novidade para mim. Acho que o desafio foi especialmente difícil no meu caso porque cresci numa vila de pescadores praticamente isolada do resto do planeta. Uma vila de pescadores que desenvolveu seus próprios códigos de conduta moral, facilmente questionáveis por conta do conservadorismo religioso, machista, preconceituoso e corrupto. A sociedade Britânica me introduziu um processo de renovação de conceitos, virtudes e valores que eu ainda não havia experimentado, e que acabou me transformando quase que literalmente em outra pessoa. Pela primeira vez na vida a palavra corrupção passou a ser mais do que uma simples palavra usada para atacar e acusar os políticos de um crime que eu também praticava. A primeira vez que você tem a clara percepção de que você também é corrupto, não é apenas um momento que revela uma verdade sobre você que você até então desconhecia. Esse é um momento que choca muito, porque você acreditava ser honesto e descobre por si mesmo que você não é. O choque de reconhecer que você é corrupto só é menor do que a percepção de que a base fundamental que sustenta a sociedade que você nasceu, e que é responsável por todas as relações humanas, sociais e comerciais do dia-a-dia de todos os cidadãos, são ditadas e operadas pela corrupção. Reconhecer a corrupção em suas próprias atitudes ja é um desafio por si só. Combate-la dentro de si mesmo é uma guerra diária que dura a vida inteira e precisa ser vencida batalha por batalha.

Na minha primeira semana em Londres, um amigo meu (Brasileiro) que trabalhava em um Pub, me deu um telefone usado de presente. Ele me contou que achou o telefone no chão do Pub e que eu precisava desbloquea-lo para poder usa-lo. Segundo ele, qualquer lojinha de telefone faria o trabalho. Fiquei muito feliz de não precisar gastar meu dinheiro (contado), com essa necessidade. Na manhã seguinte, tomei um café e fui direto para o centrinho de Wimbledon para desbloquear o telefone. Entrei na primeira loja que eu vi (Vodafone) e fui direto no balcão onde o atendente, com olhar desconfiado, me disse que eles não faziam esse serviço. Fiquei surpreso porque meu amigo havia dito que eu poderia desbloquea-lo em qualquer lojinha. Resolvi perguntar porque eles não desbloqueavam. O atendente foi direto ao assunto; “não desbloqueamos telefones porque isso é ilegal senhor “. Foi meu primeiro tapa na cara, e foi também a primeira vez na minha vida que alguém havia me dito que tal coisa era ilegal. A palavra ilegal para mim ja era algo raro. Ver um comerciante falar isso olhando nos meus olhos, foi literalmente algo inédito na minha vida. No caminho de volta para casa fui pensando na situação e na vergonha que eu acabara de passar. Quando cheguei em casa, olhei para aquele telefone e pensei: Esse telefone não é meu. Só porque meu amigo o achou, não significa que agora o telefone seja dele. Aquele telefone tinha um dono, e esse dono não era eu nem meu amigo. Foi nesse momento que a ficha caiu. Foi nesse momento que eu percebi que eu também era corrupto, e que no meu país, essa prática era normal. Eu não conhecia nada diferente disso e por isso, era normal também para mim. Resolvi deixar o telefone ligado na esperança que o dono ligasse, e de fato ele ligou. Combinamos um horário e ele passaria na casa que eu estava morando para pegar o seu telefone de volta. O prazer de devolve-lo ao dono e de ver a felicidade da pessoa ao reaver um bem importante que ele havia perdido, me transmitiu um sentimento de felicidade muito maior que aquele que eu havia sentido quando ganhei o telefone que não era meu. O prazer de promover o bem é muito melhor do que o prazer da vantagem de receber algo que na verdade não lhe pertence. De lá pra cá, encontrei outros cinco telefones e consegui devolver todos! No Brasil, quando alguém devolve alguma coisa, a atitude é tão incrível que ganha espaço no Jornal Nacional. É algo tão surpreendente e raro quanto ver um político corrupto ser preso por corrupção. Em outra ocasião, danifiquei a roda de uma bicicleta velha que estava acorrentada no poste com a roda na rua. Deixei um bilhete e no dia seguinte uma menina da Alemanha me ligou. Tive que pagar uma roda nova, mas ganhei uma amiga e fiz ela mudar o conceito errado de ela tinha sobre os Brasileiros que moravam em Londres.

Aquela primeira lição do telefone em Londres, abriu tremendamente a minha cabeça para esse problema tão grave que é a corrupção na sociedade Brasileira. Resolvi fazer uma espécie de regressão para lembrar meus possíveis atos de corrupção que havia praticado durante os 25 anos que estive no Brasil. Pela primeira vez, ao invés do prazer da vantagem fácil, senti vergonha. Eu havia acabado de ser introduzido a sociedade Britânica, mas seus valores ja causavam uma revolução na minha cabeça. Eu copiei trabalho de amigo da escola, fiz cola de todos os tipos, e na faculdade comprei prova da menina que trabalhava no xerox. Quando comecei a trabalhar, saía para almoçar com meus colegas de trabalho e pedia uma nota fiscal com o valor bem acima do que realmente era. Quando terminávamos uma obra, chamávamos o senhor do ferro-velho local e vendíamos todo o ferro e o cobre que havia sobrado e repartíamos o dinheiro. Aceitei vale gasolina de candidato nas eleições e francamente, se você também ja fez isso, você não tem nada de cidadão do bem, você é apenas mais um corrupto hipócrita que ajuda a afundar o próprio país nesse mar de lama que nos encontramos hoje. Mas não se ofendam meus caros amigo, ja dizia Bob Marley: “A verdade é uma ofensa, mas não é um pecado”. Eu fui corrupto também! Mas hoje sou a prova de que é possível acabar com a corrupção. Se todos nadarem para o mesmo lado, é possível mudar o curso desse rio.

A nota fiscal com o valor adulterado para roubar seu patrão é um crime clássico não é mesmo? Você passa o almoço inteiro chamando o Lula e o Aécio de ladrão e corrupto, e na saída do restaurante faz exatamente a mesma coisa sem a menor culpa. Ja imaginou o que você faria se fosse Deputado ou Senador?

A sociedade Brasileira é tão corrupta que se a dona do restaurante se negar a fornecer nota fiscal com valor adulterado, as pessoas vão para outro restaurante, e a comerciante honesta corre o risco de ir a falência. Falência por honestidade! Esse é o nosso Brasil, cheio de cidadãos do bem. Os corruptos devem ser importados de algum país distante não é mesmo? Eu fui corrupto! O primeiro passo para acabar com a corrupção é reconhecer que você é corrupto. No dia que você conseguir mudar suas atitudes e deixar de ser corrupto, você terá acabado com a corrupção. E lembre-se que se todos nadarem para o mesmo lado, podemos mudar o curso desse rio.

A corrupção não esta ligada ao montante que você consegue roubar. A corrupção é uma atitude, e assim como o ladrão, se você entrar em um banco armado e roubar 1 Real ou 1 milhão de reais, você é ladrão de banco nos dois casos. Se você altera a nota fiscal do almoço para roubar seu patrão, você não é cidadão de bem, você é ladrão! Para finalizar, gostaria de deixar essa pergunta para vocês; Quantos de vocês praticam corrupção como as citadas acima, e se consideram um cidadão de bem ou trabalhador de bem? Seja sincero com você e comesse agora a nadar contra a correnteza e ajude a mudar o curso do Brasil.

 

ELEIÇÕES MUNICIPAIS: A SUA CHANCE DE DIZER BASTA!

By: Michaell Lange,
 London, 26/09/16 –
A uma semana das eleições municipais no Brasil, o cenário da política nacional, apesar dos escândalos,  parece continuar sendo o mesmo. De Norte a Sul do Brasil, são incontáveis os candidatos envolvidos ou sendo investigados por envolvimento em esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro. Se a venda e a compra de votos fosse uma pratica legal, as bolsas de valores bateriam todos os records esta semana.
A partir de hoje, os financiadores de campanhas eleitorais (compradores de eleições), entram em estado de frenesi, numa desesperada e corrompida busca por votos. Os valores pagos por cada voto são inflacionados seguindo a mesma Lei de marcado da oferta e procura. O cidadão (de bem) passa a cobrar mais pelo favor. Os preços variam de acordo com algumas referências “de mercado” como o tamanho da família, o status social e a disposição do cidadão em participar da campanha eleitoral e claro, colar os adesivo dos candidatos no vidro do carro e da casa como um selo de garantia.
Ticket gasolina, tijolo, caixa d’agua, emprego, pneu, telha, tratamento médico, cancelamento de multas, CNH, dentaduras, etc. Tudo vira moeda de troca nessa ultima semana que antecipa o dia das eleições. É a maior prova de que o mensalão e o petrolão nunca foram de verdade os maiores escândalos de corrupção do Brasil. As eleições sim, são! A diferença é que o povo, obviamente, não irá denunciar um escândalo de corrupção na qual ele próprio faz parte. Isso é fato! Em nenhum outro período a atividade de corrupção é tão intensa e frenética do que no período que antecipa uma eleição no Brasil. Fato! Fato! Fato!
A gigantesca “feira popular” faz parte do maior esquema de corrupção do Brasil e atinge todos níveis sociais incluindo todas as esferas do poder governamental e econômico. Empresas, grandes e pequenas, principalmente aquelas que ja ganharam grandes e superfaturados contratos do estado através de pagamento de propinas, financiam a campanha de diferentes partidos e candidatos para garantir o apoio de quem quer que vença as eleições. É como jogar no preto e no vermelho na roleta do cassino. A vitória é certa! O dinheiro dos financiamentos é o mesmo dinheiro pago pelo governo em obras que custaram o dobro ou mais do valor real. Dessa forma os partidos ganham seus “padrinhos” e os “padrinhos” ganham o apoio dos candidatos eleitos. A verba pública, ja lavada nas obras superfaturadas, são usadas para “financiar as campanhas” que envolve novamente, a compra superfaturada de bandeirinhas, santinhos, cartazes e obviamente os votos daqueles que ainda são eleitores indecisos. Estão na mira todos aqueles que ainda não colaram os adesivos de algum candidato na janela do carro e da casa. As gráficas fazem dinheiro fácil em épocas de eleições.
Nesse sistema é importante ser amigo dos candidatos. Quanto maior a amizade e a “fidelidade” maiores os benefícios em época de campanhas. Os benefícios para os mais chegados podem variar de um emprego de motorista até um cargo de secretário do município. A regra vale para todos os níveis da política nacional e é quase uma Lei do mercado negro do voto. Sem fazer parte desse jogo é praticamente impossível ser eleito a alguma coisa no Brasil. Mas há esperanças!
Há candidatos honestos que infelizmente fazem parte de um seleto grupo de exceção. Pessoalmente, conheço alguns a nível municipal e não é muito difícil identificá-los. Eles ja eram referencias sociais e ja trabalhavam em prol da sociedade muito antes de serem candidatos a qualquer cargo público. Eles cresceram promovendo o desenvolvimento e o bem social das comunidades em que nasceram sem esperar nada em troca por isso. Vivem uma vida simples e sabem reconhecer as necessidades e os problemas de suas comunidades, e são acima de tudo, altruístas naturais ou seja, promovem o bem em suas comunidades de forma voluntária, e realmente se preocupam com o bem estar das pessoas que vivem a sua volta. Conheço e reconheço alguns cidadãos com esse perfil que resolveram colocar seus nomes a disposição do governo local. Alguns outros preferem continuar seu trabalho voluntário de forma modesta e anônima e não são menos importantes por isso. Fazem muito por suas comunidades e nada mais justo aos que saíram candidatos, que sejam eleitos e reconhecidos por tudo que ja fizeram. Estes sim, são verdadeiros candidatos. É importante que não sejam confundidos, muito menos esquecidos.
Aos eleitores que assistiram ao espetáculo de absurdos promovidos pelo teatro da vergonha em Brasilia, fica a responsabilidade de responder a estes absurdos através das urnas. É fundamental que o eleitor vote consciente e direcionado para eleger uma nova geração de cidadãos que ja fizeram mais por suas respectivas comunidades do que muitos “políticos de profissão” que apenas arregaçam as mangas em épocas de eleição. O combate a corrupção começa em casa com a rejeição do sistema de compra e venda de votos que tem ditado os resultados das eleições a décadas. O voto não é uma mercadoria, o voto é uma arma de defesa social. O voto é um botão de ejetar político corrupto. Use essa arma com sabedoria e não eleja políticos corruptos! Isso deve ficar claro a cada visita de candidato. Seja cordial e educado com todos eles, mas não aceite proposta que não seja em favor do benefício comum da sua sociedade. Não importa quão amigo ou simpatico ele seja, a proposta de comprar o seu voto, além de ilegal, é uma declaração de corrupção que deve ser tratado com cartão vermelho e denuncia no TSE.
Em poucos dias, os Brasileiros terão a oportunidade de provar que todos os protestos anti-corrupção não foram em vão. A rejeição da atual situação política e econômica do Brasil pode ser demonstrado nas urnas das eleições municipais da próxima semana. Se falharmos, a mensagem aos políticos será a de que tudo pode ser aceito pelo povo Brasileiro, e a perpetuação do sistema corrompido seguirá eternizado pelo seu voto. O povo Brasileiro terá, nestas eleições municipais, a oportunidade imperdível de dizer basta! Pense nisso, a escolha será sua!

O BRASIL, A DEMOCRACIA E NOSSOS PECADOS POLÍTICOS

BY: Michaell Lange,

London, 05/09/16 –

Esse artigo é quase uma carta aberta aos meus amigos e colegas com quem venho debatendo desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff. É normal que haja desentendimentos e erros de interpretação. Mas é fundamental que possamos entender a posição política de quem esta debatendo com você. Nós Brasileiros, temos muitos defeitos, sobretudo na facilidade como somos induzidos ao erro e influenciados a aceitar opiniões prontas sem questionamentos. Mas é verdade dizer também que ao longo dos anos o Brasileiro vem se tornando mais politizado e mais envolvido com as questões políticas do nosso país. Essa mudança se deve principalmente (ao meu ver) a introdução das redes sociais. Deixamos de ser 100% comandados pela mídia. Boa parte dos jovens se comunica via redes sociais numa comunicação de duas vias. Você opina e critica uma idéia e não apenas ouve sem direito de resposta como costumava ser nos tempos em que havia apenas o radio, a tv e a mídia impressa. Apesar dessa evolução, ainda estamos longe do ideal. Aquela vinheta do plantão da globo ainda tem o poder de fazer nossos corações dispararem causando um choque de ansiedade e preocupação. O jornal nacional continua sendo o ser supremo de informação, mesmo sabendo da sua parcialidade jornalística. Mas estamos melhorando gradativamente, isso é fato. Ha outros problemas mais sérios com relação a política que é de vital importância para o nosso futuro social. Nós Brasileiros, não entendemos quase nada sobre o que é política e como ela funciona. Nos limitamos ao debate sobre corrupção e partidos politicos, e acabamos perdendo os pontos importantes. Nada disso é nossa culpa. As escolas públicas não nos ensinam sobre política, e ha sempre uma suspeita de parcialidade quando alguns professores tentam ensinar política nas escolas. É certo dizer que na maioria dos casos que eu presenciei, os professores sempre foram parciais. Fui conhecer a imparcialidade política apenas na faculdade em Londres onde estudei Relações Internacionais e Política na London Metropolitan University. Meus professores, Mestres e Doutores, nunca se posicionaram de um lado ou de outro, com exceção de um ou dois que tinham dificuldades em controlar sua paixão por Margaret Thatcher e Karl Marx, mas ninguém é perfeito. Tirando as exceções, o incentivo ao debate sempre foi o objetivo maior. Para minha vantagem, na minha sala haviam Americanos, Iraquianos, Nigerianos, Chineses, Franceses, Italianos, Colombianos, Árabes, Russos, Ingleses, Brasileiros e até um aluno da Mongólia com o inglês mais bizarro que eu ja vi. Meus Mestres usavam essa diversidade cultural para verdadeiros confrontos políticos, sempre no campo das idéias, que as vezes não terminavam com o fim da aula. Seguíamos por horas e continuávamos pelos corredores e elevadores do Campus. Juntando toda essa bagagem aos meus 25 anos de Brasil, é importante que meus amigos e colegas não discriminem minha opinião apenas porque não moro no Brasil hoje. Não faço essa observação porque me ofendo.  Em primeiro lugar eu só me permito ser ofendido por pessoas que eu amo muito. Segundo, porque se você entra num debate político com a fragilidade de ofender ou ser ofendido, você não esta buscando conhecimento, você esta buscando apenas por meios para descarregar suas frustrações, e nesse tipo de debate não existe ganho intelectual. Porém, eu tenho lido e ouvido tanto esse argumento de que “eu não estou no Brasil por isso, não sei o que se passa la”, que acaba atrapalhando. É chato ouvir isso o tempo todo. É frustrante, principalmente quando vem de alguém que você sabe que tem potencial para ir além. O que eu gostaria de dizer para estas pessoas, sem precisar fazer “testão” no Face, é que: Eu não sinto o medo da insegurança que você sente morando no Brasil, mas eu sei que você sente medo. Eu sei que você sente medo porque eu ja senti esse medo também, e continuo sentindo cada vez que visito o Brasil. Eu não sinto a frustração de que você sente com a burocracia Brasileira, mas eu sei que você sente, porque eu ja senti também. Eu não julgo os Brasileiros que criticam Cuba, EUA, Russia ou Israel sem nunca terem morado ou visitado o lugar. O Diogo Mainardi da revista Veja mora na Italia mas ninguém questiona isso só porque o cara é famoso. Nós não sentimos na pele o que eles sentem, mas nós sabemos o que eles sentem. Por tanto pessoal, esse argumento de que é muito fácil falar morando aqui, é totalmente infundado e raso. A informação é global. Não sentir na pele o drama local não impede ninguém de falar sobre os problemas estando do outro lado do mundo. O Correspondente do jornal Britânico The Guardian, Glenn Greenwald vive no Brasil mas escreve sobre problemas do mundo inteiro. É importante reconhecer a legitimidade de opinião independente do local de onde vem a opinião. Toda opinião construtiva é valida para o debate não importando a sua origem.

DILMA E O IMPEACHMENT

Nós Brasileiros, estamos tão acostumados a pertencer a alguma coisa, um grupo, uma associação, um clube, um partido político, um time de futebol, uma igreja etc, que não nos damos conta que temos um conjunto de bens que deve ser apoiado e defendido por todos os Brasileiros sem distinção de qualquer natureza. Estou falando da Constituição Federal, a Democracia e nossa liberdade. Este conjunto de bens deve ser apoiado e defendido acima de tudo por todos os Brasileiros, indiferente de idéias e partidos. O que eu percebi do dia do impeachment para cá, é que ha muitos Brasileiros dispostos a colocar a democracia e a Constituição de lado para que seu desejo pessoal seja realizado. Também ha uma confusão com relação as pessoas que apoiam o Fora Temer de serem em quase sua totalidade, confundidos com defensores da Dilma. É obvio que poderíamos afirmar que a maioria de fato, são eleitores da Dilma, mas nem  todos são. Ha muitas pessoas defendo a democracia sem apoiar a Dilma. Eu por exemplo, nunca escondi minha frustração com a falta de competência e liderança da Dilma, apesar de acreditar que ela seja uma pessoa sensibilizada com as questões sociais. Mas, nem isso faz dela uma boa Presidente. Mesmo assim, não podemos ignorar a Constituição e ameaçar nossa democracia para tira-la do poder a força. Eu sou contra o impeachment e contra a saída da Dilma, não porque a defendo, mas por respeito o conjunto de bens que eu citei acima. A Constituição deveria ser para os Brasileiros o que a Bíblia e o Alcorão são para os Cristãos e Muçulmanos. Entendam que defender a Dilma contra o impeachment não faz de mim um eleitor Petista. A minha defesa é a favor da democracia e da Constituição Federal. Da mesma forma que defender o Fora Temer não faz de você um petista. Existem várias religiões que usam a Bíblia como seu livro sagrado. Apesar de serem religiões diferentes, todas elas se unem no livro sagrado. A questão partidarista e ideológica no Brasil deveria seguir a mesma linha da Bíblia ou seja, podemos pertencer a partidos diferentes, apoiar idéias diferentes, mas todos nós precisamos estar unidos em defesa da nossa democracia e da nossa Constituição Federal. Não é possível anular e aplicar a Constituição Federal por conveniência.

Por tanto, quem perdeu com o Impeachment não foi a Dilma ou o PT. Seria inocência e ingenuidade acreditar que um partido que esteve no poder por 13 anos e teve que ser retirado a força do Executivo, perdeu alguma coisa com isso. Considerando o caos que se encontra a direita Brasileira, é quase certo que o Lula volta a ser presidente do Brasil em 2018. Quem de fato perdeu com o impeachment foi a democracia, a Constituição Federal e nossa liberdade, que se encontra comprometida e ameaçada nas mãos de políticos réus, investigados, afastados ou ja condenados por corrupção e lavagem de dinheiro, que hoje, graças ao impeachment, gozam de imunidade parlamentar ou seja, não responderão aos crimes que cometeram. Se ao invés da Constituição Federal fosse a Bíblia, todos os Cristãos, evangélicos, Presbiterianos, Jeovás, Luteranos, Batistas etc, estariam unidos para defender o livro sagrado. O que nos impede de nos unir para defender a Constituição Federal?

O GOVERNO

Outro conceito errado que nós Brasileiros exercemos. O governo não é formado apenas pelo presidente da república. O governo Brasileiro é formado por três poderes. O Executivo, representado na figura do Presidente, o Legislativo que é representado pelo Congresso Nacional e o Judiciário. A figura do presidente representa apenas o poder executivo. Os poderes são divididos exatamente para evitar o que seria uma ditadura ou um totalitarismo onde a voz do presidente seria a Lei. A maior prova dessa divisão do poder foi o impasse político causado pela então oposição governamental. Quando as bancada evangélica, militar e ruralista se uniram, eles dominaram o Congresso Nacional e criaram uma barreira que estaguinou o exercício do governo como um todo. O governo parou porque ele não funciona apenas com as ordens do presidente. O governo não funciona sem o Congresso aprovar e deliberar as prioridades sociais, assim como não adianta o Congresso querer sem a presidência sancionar. O governo por tanto, é todo o conjunto que envolve os três poderes, e não apenas o presidente. Não entender como estes três poderes interagem nos faz vitimas da nossa própria ignorância. O presidente era a Dilma, mas o governo era formado por ela, pelo Congresso Nacional e pelo Judiciário. Na questão do impeachment, todos falharam com suas obrigações e responsabilidades porque o interesse coletivo do congresso era derrubar o presidente. A constituição ficou em segundo plano para interesses partidários nacionais e internacionais. O povo Brasileiro precisa entender que a nossa Constituição Federal é o nosso livro sagrado e deve estar acima de qualquer interesse partidarista ou ideológico.

A DEMOCRACIA

O conceito mais simples sobre a democracia parecer ser o mais aceito por grande parte dos Brasileiros. As pessoas pensam que a democracia é apenas o direito de votar e escolher nossos governantes. Isso é um equívoco. A definição de democracia como sendo o poder do povo pelo povo para o povo, vai muito além do direito de votar. Pessoalmente, defino a democracia como o sistema mais caótico que existe. A ditadura e o totalitarismo tira do povo o direito e a responsabilidade de opinar, de expressar suas vontades e desejos. O ditador é o senhor do seu povo ou seja, o que ele fala é Lei e pronto. A democracia é caótica porque concede o mesmo direito a todos os cidadãos. Essa ação por si só causadora de caos. O artigo quinto da nossa Constituição Federal de 1988 afirma: “Todos são iguais perante a Lei sem distinção de qualquer natureza” ou seja, indiferente da sua profissão, escolaridade, status social, condição financeira; todos são iguais perante a Lei. A consequência dessa igualdade social perante a Lei concede a 200 milhões de cidadãos Brasileiros que pensam diferente, tem desejos diferentes, ambições diferentes, idéias diferentes, poder financeiro diferente, status social diferente; a condição de total igualdade perante a Lei. O policial, O advogado, o Juiz, e outras autoridades sociais não tem por tanto, mais direitos do que qualquer outro cidadão Brasileiro, o que eles tem é mais responsabilidades. No Brasil, temos o conceito errado e inconsciente de que quanto mais dinheiro você tem mais direitos você adquire. Esse conceito é totalmente equivocado. O rico não tem mais direitos do que o pobre. A autoridade não tem mais direitos do que qualquer membro da nossa sociedade. Por isso a sociedade democrática é uma sociedade caótica, onde todos tem os mesmos direitos e precisam, de alguma forma, acomodar os diferentes anseios de cada cidadão para que a sociedade funcione. O protesto que fecha a rua, a avenida ou a ponte, gera grandes transtornos a muitas pessoas que também tem garantido por Lei o direito de ir e vir. Esta Lei também faz parte do artigo quinto da Constituição Federal de 1988 que afirma: “É livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou sair com seus bens. Todo cidadão tem direito de se locomover livremente nas ruas, nas praças, nos lugares públicos, sem temor de serem privados de locomoção”. Essa Lei em si ja é causadora de caos, mas quando a Lei que nos da o direito e ir e vir sem temor de serem privados de locomoção, é confrontada com a Lei que nos da o direito a manifestações, o resultado só pode ser o caótico. A Lei que concede o direito a manifestação também faz parte do artigo quinto e afirma: “É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; […] XVI – todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente; […] XVII – é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar”.

Vemos frequentemente que a PM e o Governo interferem em nossos direitos constitucionais seja pelo uso da violência, bloqueio da livre passagem dos manifestantes, e proibição de atos públicos. Manifestantes também infringem a Lei ao depredar o patrimônio público e portar armas durante manifestações populares.

O caos democrático pode ser observado por exemplo no cidadão que trabalhou o dia inteiro e deseja sua livre locomoção até a sua residência, mas se depara com uma manifestação pública sobre assuntos que não lhe trazem interesse. A virtude social que deve ser sempre exercitada para o controle do caos democrático é a tolerância. A tolerância reconhece a importância de uma manifestação popular mesmo quando esta não nos interessa. A greve dos caminhoneiros causou imenso transtorno durante semanas em quase todo o território Brasileiro. Muitas pessoas que simpatizavam com o argumento dos caminhoneiros exercitaram a tolerância diante de estradas e rodovias federais que permaneceram fechadas por vários dias. Ja as manifestações que fecharam a ponte em Florianópolis na hora do rush, foi intensamente criticada, principalmente por aqueles que não simpatizavam com a causa. Isso tende a agravar o senso de injustiça. Mas é importante que tudo isso seja superado e considerado necessário para a manutenção da nossa democracia. Pessoalmente achei a idéia de fechar a ponte um tanto equivocada pois, afeta o cidadão que deseja ir para casa e certamente não atrai o apoio popular. Mas esse é o caos democrático que desejamos viver. Na Coreia do Norte não ha caos, não ha protestos nem greve, porque não ha direitos nem liberdades. O totalitarismo ditatorial concede o poder total a uma única pessoa e esta, é quem decide como a sociedade e seus cidadãos devem se comportar. Hoje, o principal acesso terrestre entre a França e o Reino Unido foi fechado por manifestantes franceses. Esta é uma questão ainda mais delicada pois envolve o bloqueio de um dos principais acesso ao Reino Unido. Mas mesmo com algumas criticas, as agencias de transito e transporte fazem todo o possível para que a manifestação ocorra com segurança e com o mínimo de transtorno aos cidadãos afetados. Esse trabalho minimiza o caos e garante a manutenção da democracia. O protesto deve durar uma semana. A policia se limita a garantir a segurança de todos os envolvidos.

Concluo que o debate politico em todas as esferas sociais é extremamente importante para que possamos, não apenas nos comunicar diretamente, mas entender mais sobre o povo Brasileiro, quem somos, o que desejamos, porque divergimos nas opiniões. Entender o processo democrático, o funcionamento do governo e conhecer nossos direitos, é mais do que um dever, é uma responsabilidade de quem busca construir um país melhor para viver. Os rótulos populares que causam divisão e atrito, devem ser evitados. Pessoalmente não uso nenhum deles. Não me refiro a nenhum cidadão Brasileiro como coxinha, petralha, tucanalha, mortadela etc. Somos todos um único povo que busca e deseja melhorias. Separados em bandos, seremos sempre massa de manobra. Unidos, somos uma democracia forte e livre. A superação destas diferenças é provavelmente o processo mais difícil. As relações entre o povo, o governo, a policia e outras agencias e instituições sociais e governamentais, sempre foram marcadas pela fragilidade e a desconfiança. mas cabe a cada cidadão mudar essa realidade dentro de si. Não ha tempo a perder, o Brasil precisa crescer e se desenvolver.

 

 

 

 

UM MODELO ECONÔMICO QUE PODE TRANSFORMAR AS RELAÇÕES ENTRE EMPREGADO E EMPREGADOR (debate)

 

O atual modelo econômico das relações entre empregado e empregador é insustentável e extremamente injusto. É possível desenvolver um novo modelo que inclua a classe trabalhadora como parte acionista da empresa ao invés de serem apenas um custo indesejável e ferramenta de exploração. O que você acha? Vamos debater novas idéias?
Uma empresa funciona basicamente em dois eixos totalmente dependentes ou seja, um não existiria sem o outro (exceto em algumas exceções).
O eixo numero 1 é formado pelo quadro de funcionários de base, composto por todos que trabalham a partir do office boy, pessoal da limpeza até o gerente geral.
O eixo numero 2 é formado pelo alto escalão a partir da mesa diretora até os acionistas (shareholders), e é tão importante quanto o eixo numero 1.
No atual modelo econômico, apenas o eixo numero 2 (alto escalão), é devidamente recompensado pelos serviços prestados a empresa mesmo que nenhum resultado positivo possa ser alcançado sem a colaboração do eixo 1 (funcionários). O eixo numero 1 é de modo geral negligenciado (apesar de haver exceções). A minha pergunta é: Se os dois eixos são totalmente dependentes um do outro, por que apenas uma das partes é devidamente recompensada?
No modelo econômico sugerido aqui, os dois eixos são recompensados e beneficiados pelo sucesso da empresa em que trabalham. Dessa forma, todo mundo colhe o sucesso produzido por todos e eventualmente, repartem também as responsabilidades pelos erros e prejuízos que ocorrerem pelo caminho.
Vamos usar uma empresa imaginária com mil funcionários como exemplo. Neste caso, 25% da empresa pertenceria aos funcionários de base, do eixo 1. Os outros 75% pertenceria ao eixo 2 que pode ser um único dono ou um grupo formado por diretores acionistas, investidores e outras empresas. Dessa forma, os funcionários não são apenas coadjuvantes na história de sucesso da empresa. No atual modelo os funcionários continuam recebendo o mesmo salário mesmo quando a empresa apresenta crescimentos expressivos. O time de diretores e gerentes que produzem os projetos e planos futuros são essenciais para o sucesso da empresa, mas todo o planejamento e experiência dos empreendedores não valeriam de nada sem o trabalho dos mil funcionários para colocar o plano em prática. Se os dois eixos são essenciais para o sucesso da empresa, por que apenas o alto escalão é recompensado? O gráfico de crescimento salarial dos funcionários deveria acompanhar o gráfico de crescimento da empresa. O que acontece hoje largamente em quase todo o mundo, é o oposto. Empresas apresentam crescimento ao mesmo tempo que os funcionários perdem poder financeiro. Em muitos casos esta perda salarial é consequência da situação econômica do país, porém é verdadeiro afirmar que essa perda também é consequência de uma negligência da empresa  com relação a seus funcionários. É um fenômeno global o lobby the grandes empresas para a redução dos direitos trabalhistas. Por outro lado, esse problema seria minimizado se os funcionários possuíssem 25% da empresa. É injusto que os funcionários recebam apenas um salário fixo que na maioria das vezes não é suficiente para cobrir os custos do mês, ao mesmo tempo que seu trabalho ajuda de forma vital o crescimento da empresa.
Não se trata apenas de uma questão de justiça
O quadro de funcionários de base assim como o alto escalão, são partes fundamentais da empresa, e muitos empresários como o dono do Grupo Virgin, Sr Richard Branson, afirma que os funcionários são os maiores “assets” da empresa ou seja, para Branson, o quadro de funcionários é o maior patrimônio do Grupo Virgin. Muitas empresas investem milhões de Dólares todos os anos em campanhas de motivação. O que poucos empresários não percebem é que em muitos casos, se não na grande maioria, a principal motivação para o funcionário é a mesma do empresário ou seja, sucesso financeiro! O poder financeiro que torna possível um funcionário de base, seja ele office boy ou funcionário da limpeza, de levar a família para uma viagem de férias no final do ano e comprar um carro novo por exemplo, é na maioria dos casos a principal fonte de motivação de um funcionário. Quantos mil Reais seria preciso investir para motivar um funcionário que mal ganha para pagar as contas no final do mês, sabendo que a empresa em que ele trabalha apresenta crescimento de lucro ao mesmo tempo que seu salário segue congelado a anos? Quantos mil Reais seria preciso para motivar um funcionário que assiste todos os dias os diretores da empresa irem para casa dirigindo um carrão enquanto ele terá que enfrentar uma jornada de várias horas dentro de um ônibus sem ar-condicionado quando a importância dos dois para a empresa é a mesma? Não se trata apenas de justiça. É uma questão de sucesso compartilhado. É uma questão de recompensa mútua que irá gerar naturalmente a motivação necessária para a continuação do sucesso da empresa. Trata-se do reconhecimento de uma parceria que coopera para o sucesso da empresa.
Os possíveis problemas 
1 – A teoria vs pratica – Considerando o atual cenário econômico mundial, é difícil dizer a real viabilidade do sistema proposto que em teoria deveria funcionar sem grandes dificuldades. É importante citar também que o atual sistema econômico é insustentável e certamente sofrerá colapsos futuros por conta do empobrecimento na base da pirâmide social. Talvez o modelo econômico atual seja apenas o reflexo de uma pratica centenária que poderia ser revertida com um pouco de vontade, planejamento e cooperação por parte dos empresários ao redor do mundo.
2 – Legislação – considerando que a economia mundial é interdependente, o sucesso desse modelo econômico não poderia ser atingido por meio de Leis e regulamentação, ja que países competem entre si para atrair investimentos assim como as empresas estão sempre a procura de locais que proporcionem maiores benefícios a seus investimentos. Certamente não seria um diferencial para nenhum país que tenha uma Lei obrigassem empresas a liberarem 25% dos seus ativos para o quadro de funcionários.
3 – A legislação trabalhista e a logística para implantação do novo modelo – Dúvidas surgiriam sobre a relação legal entre funcionários e a empresa. Afinal, os funcionários seriam acionistas ou apenas funcionários com direito a 25% dos lucros? Em caso de demissão, como o caso seria tratado legalmente? Seria possível demitir alguém que legalmente é um acionista da empresa? Provavelmente os 25% não poderiam estar sob o controle dos funcionários a pondo de um funcionário poder vender a sua parte. Isso levaria inevitavelmente ao fim do modelo dos 25% quase que imediatamente após sua aplicação. Para poder funcionar, os 25% teria que fazer parte de um bloco lacrado onde os benefícios seriam divididos, mas as ações não poderiam ser vendidas.
4 – Experiência – Eu não sou empresário, muito menos um empreendedor. A situação de classe trabalhadora em que ocupo me torna suspeito de falar sobre o modelo que proponho acima. Por tanto, seria importante termos a opinião de empresários e economistas para que a idéia seja desenvolvida com maior credibilidade e a sua viabilidade seja analisada de forma mais abrangente.
Conclusão
O 25% é apenas um número relativo que pode ser maior ou menor, dependendo da empresa e do quanto a empresa deseja atrair os melhores trabalhadores para o seu quadro funcional. Da mesma forma que o salário é usado hoje para atrair bons funcionários, os 25% seriam o grande diferencial que levaria funcionários a permanecer muito mais tempo na empresa. Eu diria que considerando os riscos que os donos e acionistas correm, além da experiência e formação profissional, os 75% seria talvez, um número justo. Mas como eu sugeri acima, esse é um debate que precisaria da opinião de empresários e economistas com experiência para uma análise mais apurada sobre os possíveis prós e contras dessa idéia. Teoricamente, a idéia ajudaria na alto-estima dos funcionários que passariam a ser incluídos no projeto empresarial com direito a voz, além de ajudar a economia promovendo maior poder de compra ao funcionário que certamente gastaria mais acelerando a compra e venda de bens de consumo. Se a atual relação entre funcionário e empresa se resume apenas em uma cultura centenária que envolve a divisão de classe social, talvez seja hora de mudar esse conceito e a cultura que gera empobrecimento e exploração da classe trabalhadora para o benefício único e exclusivo do enriquecimento de uma pequena parcela da sociedade. Se os funcionários de uma empresa se unirem e pararem de trabalhar, o futuro da empresa é a falência total. A habilidade de manter funcionários desunidos, seja por meios estratégicos ou legais, não pode continuar sendo uma desculpa para a exploração da mão de obra humana. Uma empresa sem funcionários não tem futuro, assim como o oposto também é verdadeiro. A recompensa porém, continua sendo uma via de mão única, e essa realidade precisa mudar. Você aceitaria o desafio ao debate?

13 DE MARÇO: UM LADO POSITIVO E UM SONHO UTÓPICO

Por: Michaell Lange,

Londres, 11/03/16 –

Os dois artigos anteriores a esse focaram nos riscos que o Brasil tem enfrentado nesse período de extrema instabilidade na política nacional. Riscos estes que devem chegar ao seu ponto crítico neste final de semana (13), quando os dois lados da política Brasileira realizarão manifestações por todo o Brasil. O medo de todos que conhecem a história e as fragilidades do povo Brasileiro, é um possível conflito nas ruas que poderá dividir ainda mais o Brasil e que possa evoluir para uma guerra civil. Essa possibilidade é real e deve ser acompanhada com muito critério por todos os Brasileiros. Cidadãos brasileiros não podem entrar em guerra contra outros Brasileiros. Essa realidade não faz parte da natureza do nosso povo. Mas as possibilidades de um conflito interno são reais, por conta do alto nível de tensão, principalmente das partes radicais e também por conta de possíveis influências externas que procuram tirar vantagens desse momento frágil que vive a nossa democracia.

Mas apesar das tensões e dos riscos, o Brasil vive um momento histórico em vários sentidos que devem ser comemorados. Apesar da contínua onda de corrupção e injustiças, a política como tema de assuntos e debates, nunca foi discutida em escala tão larga quanto neste momento. Os Brasileiros, finalmente, estão começando a entender a importância da sua participação no debate político nacional. Os políticos Brasileiros, jamais foram tão cobrados, observados e expostos como agora. Basta um passo em falso de qualquer autoridade pública, para que as redes sociais se transformem em uma verdadeira Tsunami de denúncias e debates com participação de cidadãos Brasileiros e estrangeiros em todo o Brasil e ao redor do mundo. Hoje, não há limites para a informação. O Brasileiros participam de dentro do barco de pesca em alto mar, de dentro da cabine do caminhão, de dentro dos tratores nas lavouras e fazendas espalhadas pelo Brasil a fora. O Brasileiro nunca participou tanto das questões sociais do país como agora. Antes, a grande mídia era a nossa fonte de informação. Dependíamos dos jornais, das radios e dos telejornais para saber o que acontecia pelo Brasil. Essa dependência nos tornava vitimas fáceis das manipulações midiáticas que influenciavam nosso modo de pensar e agir. Hoje, a influência da grande mídia continua, mas a grande diferença é que agora, sabemos o que eles fazem e estamos começando a nos defender. Em 2016, a TV e o radio não são mais nossas fontes de informação. São eles, as grandes agencias de comunicação, que buscam nas redes sociais, as fontes para a sua programação de notícias. Deixamos de ser teleguiados para sermos fonte de notícia. Devemos muitas dessas mudanças as redes sociais. É claro que ainda estamos no início desse processo. Ainda há um longo caminho pela frente, mas esse caminho não tem volta. Estamos tomando posse das nossas opiniões e estamos discutindo nossos problemas abertamente com o Brasil inteiro. Os políticos ja não fazem suas sujeiras com a mesma tranquilidade e impunidade com que faziam anteriormente. Tudo é filmado, gravado e publicado nas redes sociais, sem cortes, sem edição, sem interesses de terceiros. O Brasileiro esta mudando sua atitude. Estamos nos organizando em canais independentes. Temos nossas próprias celebridades e nossos próprios canais independentes, e isso é muito bom para nossa democracia e para o futuro da sociedade Brasileira. Quem precisa da grande mídia? Temos tudo que precisamos nas redes sociais. De Tico Santa Cruz à Revoltados On Line, os Brasileiros tomam posse do país e dos seus problemas sociais. O equilíbrio e a legitimidade dos debates é decidido pelos próprios Brasileiros. O império dos grandes meios de comunicação nunca estiveram tão próximos do colapso e da exposição total. Minha grande dúvida ainda é: Será que o Brasileiro tem consciência dessa revolução? Será que o Brasileiro como indivíduo, tem noção do quão grandioso e fundamental tem sido sua participação nas redes sociais para o sucesso dessa revolução informativa e participativa que tomou conta do Brasil?

O que eu chamo de “o poder do clic”, é a capacidade que cada indivíduo tem de clicar no botão do seu computador ou smartphone e compartilhar uma idéia, uma informação ou uma denúncia, com milhões de pessoas ao redor do mundo em menos de 1 segundo. Ainda é preciso evoluir nosso senso crítico para não compartilharmos tanta informação falsa e fraudulenta, mas acredito que esse é um processo que precisa de tempo e ainda estamos apenas dando os primeiros passo. Por isso, é extremamente importante, que nós, Brasileiros, tenhamos consciência do que estamos fazendo e a importância que a nossa participação nas redes sociais pode ter nessa revolução informativa, política e social que estamos vivendo hoje. A linha de comunicação direta que as redes sociais nos proporciona é a grande arma dos Brasileiros contra as manipulações e interferências promovidas pelas grandes agencias de comunicação. Quando os Brasileiros se comunicam sem os intermediários televisivos por exemplo, os poderosos perdem o poder de manipulação e controle sobre as grandes massas. Mas é importante que tenhamos consciência do poder que nós temos, e o impacto da nossa participação como indivíduos e como povo Brasileiro, no processo político nacional. Não é a toa que as forças dominadoras, sejam elas partidárias, empresariais ou a própria mídia, tentam a todo custo e de todas as formas, dividir o povo Brasileiro e recuperar o poder hegemônico que eles exerciam no passado e que esta totalmente comprometido hoje. É vital que o Brasileiro tenha consciência do que é seu. O Brasil não é do governo. O Brasil não pertence ao PT, nem ao PSDB ou PMDB. O Brasil pertence a todos os Brasileiros, incluindo tudo o que ha em seu território. Aqueles que ocupavam o poder e ainda ocupam, tentam nos convencer do contrário. Mas, o voto do Brasileiro não elege proprietários. O voto dos Brasileiros elegem administradores públicos! Estes, eleitos democraticamente, ganham o direito de representação, mas esse direito não pode jamais, dar-lhes o poder de vender ou roubar aquilo que não lhes pertence. Nossos representantes não são nossos proprietários. Nossos representantes não são mais do que nossos meros funcionários. Como ousam se comportarem como nossos mestres? Como ousam dividir o povo Brasileiros em direita e esquerda? Somos um só povo e jamais devemos permitir que sejamos divididos e controlados!

Precisamos entender que o PT não é o partido que esta no poder. Como ousam prender PTistas corruptos incluindo o próprio Lula, e tentarem nos convencer de que o PT é o único partido no poder? O sistema político Brasileiro é dividido em três poderes. Ha o poder Legislativo, formado pelas duas câmaras federais de deputados e senadores, o poder executivo representado na figura do presidente, e o judiciário. O PT esta no poder do executivo que esta sujeito aos poderes Legislativos e judiciários. As duas câmaras são presididas por Eduardo Cunha e Renan Calheiros, opositores da Presidente. E o Judiciário, apesar de ser apontado pelo presidente da república, ainda esta sujeito as decisões das duas câmaras. Por tanto, não é o PT que esta no poder mas, o PT, o PSDB e o PMDB. O Brasileiro precisa ficar atento a essa realidade e entender rapidamente que o impasse político que vivemos hoje é uma luta por poder e não pelos interesses dos Brasileiros. Nenhum destes partidos merecem o apoio dos Brasileiros hoje porque todos eles são responsáveis por essa onda de corrupção e desgoverno que o Brasil esta vivendo. O meu sonho utópico, é ver os Brasileiros se comportarem no próximo dia 13 de março, como os Irlandeses e os Escoceses se comportaram no confronto promovido pelo império tirânico Inglês no filme “O Coração Valente”. Na cena do campo de batalha, o exército rebelde Escocês liderado por William Wallace, enfrenta o Rei Inglês que ordena o exército Irlandês a atacar os Escoceses na primeira linha de frente. O que o Rei Inglês não havia percebido é que os Escoceses e Irlandeses eram povos oprimidos pela monarquia Inglesa e no momento do confronto, no último segundo em que corriam para o enfrentamento e a luta corporal, os dois exércitos pararam e se uniram contra o grande opressor, que era na verdade a monarquia Inglesa. A cena do filme esta disponível no final deste artigo.

Assim como no Filme O Coração Valente, o povo Brasileiro é o grande oprimido pelo governo formado pela união das três principais “Monarquias” do país ou seja, PT, PSDB e PMDB, cada um com seu próprio “Rei”, mas todos eles oprimem um único povo, o povo Brasileiro. Os verdadeiros inimigos dos Brasileiros não são os outros Brasileiros, mas sim, nossos opressores que estão no poder. Na minha analogia, os defensores da oposição governamental, formada principalmente por PSDBistas, e os defensores do PT ou PTistas, fazem o papel de Escoceses e  Irlandeses. O PT, PSDB e PMDB fariam o papel do Rei opressor Inglês. Seria uma grande demonstração de poder se o povo Brasileiros pudesse se unir no dia 13 e mostrar para nossos opressores que não aceitamos ser divididos, porque acima de qualquer coisa, somos todos Brasileiros! Se isso acontecesse, a expressão nos rostos dos opressores seria a mesma expressão do Rei Inglês, uma expressão de derrotado. Assista ao video e encontre inspiração para unirmos o Brasil em prol de um único bem, o bem estar do povo Brasileiro.

Cena do Filme O Coração Valente: Que tal agirmos dessa forma no próximo dia 13?

 

 

 

Reino Unido e União Européia: Um possível caso de Destruição Mútua

By: Michaell Lange,

London, 18/02/16 –

Durante a campanha eleitoral de 2015, David Cameron, líder do partido dos conservadores no Reino Unido, fez uma promessa ao povo Britânico que caso fosse eleito, faria um referendum para que os Britânicos decidissem se o país deveria ou não, permanecer na União Européia. Durante a campanha eleitoral, a promessa para um referendum parecia uma aposta viável apesar da posição pro-União Européia de David Cameron ser clara. Mas, o referendum seria um trunfo eleitoral e o risco parecia valer a pena. Os conservadores eram o único partido na campanha eleitoral a oferecer o referendum. Todos os outros partidos, incluindo os Liberais, o Partido dos Trabalhadores (labours) e o Partido Nacional Escocês (SNP), eram a favor da permanência do Reino Unido na UE sem a possibilidade de referendum. David Cameron usaria a promessa do referendum como uma de suas principais cartas de campanha. A estratégia funcionou e surpreendeu até mesmo os conservadores mais otimistas. David Cameron venceu com uma histórica maioria parlamentar e imediatamente se viu com um grande problema nas mãos. Para David Cameron, a permanência do Reino Unido na União Européia é essencial para a economia do país. Mas, para valorizar a questão do referendo durante a campanha eleitoral, Cameron havia afirmado que o Reino Unido sairia da União Européia caso suas propostas de reforma não fossem aprovadas pela UE. Muitas das propostas de reforma feita por Cameron envolviam o controle de entrada e saída de trabalhadores vindos de países da UE e o não pagamento de benefícios durante os primeiros 4 anos de residência e contribuição no Reino Unido. Estas propostas foram imediatamente rejeitadas pela UE por fazerem parte dos princípios e valores básicos nos quais a UE foi criada. Essa imediata rejeição Européia colocou o Primeiro Ministro Britânico em uma posição extremamente difícil. Cameron fez seguidas adequações e cortes nas suas propostas iniciais que seguidamente voltaram a ser rejeitadas pela UE. A medida em que as relações entre o Primeiro Ministro Britânicos e os outros membros da UE declinavam rapidamente. David Cameron assistia horrorizado a uma crescente possibilidade de ver seu país abandonar a UE por meio do mesmo voto popular que havia lhe dado maioria no parlamento Britânico. Cameron não teve alternativas a não ser a de apostou no tudo ou nada. Neste exato momento, David Cameron esta reunido com os líderes da UE em Bruxelas, com uma proposta no mínimo humilde em comparação a sua ousada proposta inicial, para tentar convencer seus parceiros Europeus a aprovar medidas que ele possa apresentar aos Britânicos como motivos positivos para a permanência do país na UE. David Cameron também precisará convencer muitos de seus parlamentares ja que o próprio partido conservador se encontra dividido na questão da permanência do país na UE. Se Cameron sair vitorioso no referendum, o Primeiro Ministro certamente entrara para a história como um dos maiores líderes Britânicos desde Churchill e Thatcher. Mas, se perder e o Reino Unido sair da UE, David Cameron sera obrigado a renunciar o cargo de forma humilhante e aceitar a culpa juntamente com seu país, de todas as incertas consequências que a saída do Reino unido poderá acarretar a UE.

Historicamente, as relações entre o Reino Unido e o restante da Europa acumulam séculos de hostilidades. Por vários séculos os Britânicos sofreram inúmeras tentativas de invasão pelos Espanhóis, Franceses e Alemães, sem falar dos Romanos e dos Vikings num passado um pouco mais distante. Mas, o povo Britânico também tem um caso de amor com a Europa continental. Milhões de Britânicos visitam os países Europeus todos os anos em busca do Sol, do calor, das praias, da cultura, da comida e também das estações de ski. De fato, mais de 1.5 milhões de Britânicos trocaram o frio, a chuva e o céu cinzento do Reino Unido para viver na Europa Continental. E quem culparia eles por isso? Mesmo assim, os séculos de hostilidades continuam fazendo os britânicos olharem para o continente com um certo ar de desconfiança.

Em poucos meses (David Cameron pretende marcar o referendum para Junho), os Britânicos decidirão o futuro da sua permanência na UE. A decisão de permanecer ou abandonar a UE tera um profundo impacto no futuro da Europa. Assim como foi confusa a campanha no referendum da Escócia, que decidiu permanecer membro do Reino Unido, sera um processo confuso e difícil para os Britânicos conseguirem enxergar além da cortina de fumaça promovida pela campanha dos prós e contras para garantir a atenção e o voto dos eleitores. A campanha de desinformação torna extremamente difícil para o votante saber ao certo quais são os reais pontos positivos e negativos na hora de decidir qual é a melhor alternativa para o país. O nacionalista e anti-União Européia, Nigel Farage, líder do partido Britânico de extrema direita, o UKIP, afirma que a permanência do Reino Unido  na UE significara a perda do controle de fronteiras e parte da sua soberania, ja que muitas Leis são aprovadas pela assembléia Européia em Bruxelas e não pelo Parlamento Britânico em Londres como defende Nigel Farage. Mas, é difícil saber o quanto desta retórica é verdadeira, e o quanto é apenas propaganda inconsequente dos nacionalistas. É importante considerar que vivemos em um mundo globalizado, onde nenhum país tem total controle de sua economia. A economia mundial é interdependente e não possui fronteiras. Sabemos como um calote da Argentina ou a falência de um banco  Americano pode transformar a economia mundial num caldeirão de turbulências. O Reino Unido por exemplo, foi obrigado a autorizar um abono fiscal de £1 bilhão de Libras (R$5.5 bilhões de Reais) para convencer o banco HSBC a mantiver seu escritório central em Londres. A gigante Google, também negociou recentemente, um pagamento de £130 milhões de Libras junto ao governo Britânico, referente aos últimos 10 anos de impostos devidos pela empresa que segundo o líder do partido dos trabalhadores (labour) Jeremy Corbyn, é equivalente a apenas 3% do valor real de impostos devidos pela empresa aos cofres públicos. O governo Britânico também não conseguiu parar a enxurrada de metal Chinês que tem causado um verdadeiro turbilhão no mercado de ferro local causando a falência de empresas Britânicas e a perda de milhares de postos de trabalho. Estes exemplos evidenciam as dificuldades dos países em lidar com problemas econômicos globais que não respeitam fronteiras ou soberania de qualquer país, independente de fazer parte da UE ou não.

A questão da imigração é um problema que preocupa os Britânicos. Mas, até que ponto a participação do Reino Unido na UE e o livre movimento de cidadãos entre os países membros, é realmente um componente importante no problema da imigração no Reino Unido? Segundo Nigel Farage, 450 milhões de Europeus tem livre acesso ao Reino unido, incluindo acesso ao sistema de saúde, pensões e benefícios, o que de fato, é uma afirmação verdadeira apesar de ser uma suposição sensacionalista e irreal acreditar que a população inteira da Europa poderia se mudar para o Reino Unido. Outra evidencia contraditória as afirmações de Nigel farage, é que o Reino Unido não foi afinal, invadido por milhões de Búlgaros e Romenos pobres como o Sr Farage havia previsto que aconteceria logo após a entrada dos dois países na UE. De fato, como comprovou a Radio LBC, apenas 7 cidadãos Romenos entraram no Reino Unido no primeiro dia de movimento livre dos dois países dentro da UE, muito diferente dos números previsto por Nigel Farage. Por outro lado, algumas das maiores comunidades estrangeiras no Reino Unido como por exemplo, as comunidades de Indianos, Africanos, Paquistaneses, Brasileiros, Australianos e Chineses, não fazem parte da UE. Isso nos leva a questionar se o problema da imigração seria realmente um problema causado pela UE ou pelos próprios legisladores do parlamento Britânico em Londres. Não ha duvidas de que a questão da imigração é um problema sério para os Britânicos, mas esta questão não deve ser a questão central na decisão sobre o futuro dos Britânicos na UE.

Pessoalmente, minha maior preocupação não esta diretamente ligado as questões econômicas, soberanas e imigratórias. Minha preocupação esta diretamente ligado as implicações que um possível “desabamento” da UE poderia trazer ao continente Europeu como consequência da saída do Reino Unido da UE. Caso isso ocorra, nenhum país estará seguro. Um possível colapso da UE seria desastroso para o mundo inteiro e mesmo os maiores céticos e anti-UE precisam considerar os riscos de tais consequências. A recente crise na zona do Euro talvez tenha algumas lições para nos ensinar. A questão da Grécia causou grande consternação ao mercado mundial por conta das possíveis consequências da saída do país da UE. No final, a Europa foi obrigada a manter a Grécia na UE por conta dos riscos que a sua saída implicariam. No caso do Reino Unido, as questões e os riscos são infinitamente maiores, mas a decisão final desta vez, estará nas mãos dos Britânicos.  David Cameron pode ter usado o exemplo Grego para acreditar que poderia forçar suas vontades junto ao conselho Europeu. O que Cameron talvez não esperasse, era que a própria UE reconhecesse que o Reino Unido tem muito mais a perder com sua saída da UE do que a Grécia. Por isso o impasse entre a UE e o Reino Unido se parece cada vez mais, com um caso de destruição mútua. O termo destruição mútua, foi usada durante a guerra fria para definir a situação nuclear entre os EUA e a então União Soviética onde ambos os países tinham capacidade de destruir um ao outro em caso de um ataque nuclear. A capacidade de destruição mútua, anula qualquer possibilidade de vitória, ja que em caso de ataque ambos os países seriam totalmente destruídos. No caso da UE e do Reino Unido, as similaridades de autodestruição são diferentes apenas nos meios. Durante a guerra fria, a arma era a bomba atômica. Ja na questão entre UE e o Reino Unido, a arma seria o desastre econômico. A sobrevivência da UE e do Reino Unido esta na capacidade dos dois blocos se manterem unidos dentro da UE. O divórcio seria fatal para ambos os lados. Se a saída do Reino Unido levar a UE ao desastre econômico, é certo que o Reino Unido e possivelmente o mundo inteiro, seja diretamente afetado. Até que ponto o Reino Unido esta preparado a correr este risco? Até que ponto a UE esta preparada a vetar os pedidos de reforma dos Britânicos e arriscar perder a sexta maior economia do mundo? De uma forma ou de outra, tanto o governo Britânico quanto a UE tem um caso de “missão impossível” nas mãos. Convencer os Britânicos a votarem a favor da permanência do país na UE não será tarefa fácil. Resta saber quem irá piscar primeiro.

As complicações econômicas no caso de um colapso da União Européia talvez não sejam as piores das consequências causada por uma possível saída do Reino Unido. O principal motivo que me levará a votar a favor da permanência do Reino Unido na UE, é o mesmo motivo pelo qual a União Européia foi criada. Quando Robert Schuman e Jean Monnet formularam a idéia de uma comunidade européia, o principal objetivo era evitar que a Europa voltasse a entrar em destrutivas guerras novamente. Esse principio, ao meu ver, continua sendo extremamente relevante hoje. Um colapso da UE e um colapso da economia da região causaria graves distúrbios sociais. Desemprego, explosão da pobreza, falência nos sistemas de saúde e previdência social além do encerramento de outros serviços públicos. Os países Europeus acabariam por seguir seus próprios caminhos. Esse cenário seria um prato cheio para grupos de extrema direita incluindo, fascistas e nazista que hoje atuam secretamente em toda a Europa. A possível volta ao poder de grupos radicais colocaria novamente, a estabilidade da Europa em sérios riscos de conflito. Muita gente, incluindo a nova geração de jovens Europeus, não acreditam que o continente poderia volta a guerrear novamente em pleno século 21. Infelizmente, a história prova nossa contrariedade. Vale lembrar que a primeira guerra mundial também foi chamada de “a guerra para por fim a todas as guerras”. As pessoas acreditavam que uma guerra tão terrível seria o suficiente para evitar outras guerras futuras. Porém, apenas uma década depois a Europa iniciava a segunda guerra mundial que foi consequentemente, seguida pela guerra fria. Seria um grande erro acreditarmos que a Europa não seria mais capaz de iniciar um novo conflito armado. Não podemos subestimar a capacidade de grupos extremistas que atuam em toda a Europa, de voltar ao poder. Tudo depende da situação socio/econômico da região. Se a Europa continuar com a UE, mesmo com períodos de instabilidade, não ha riscos de uma nova guerra. Mas, um colapso da UE seguido por uma falência das instituições sócio/econômicas da região colocaria a Europa em uma situação extremamente delicada. É vital que os Europeus e principalmente os Britânicos, entendam que a Europa estará segura com a UE, e a permanência do Reino Unido no bloco econômico é de extrema importância para a manutenção do poder no continente. A decisão de abandonar um projeto que garantiu a Paz na Europa nos últimos 70 anos, me parece uma idéia no mínimo perigosa e irresponsável.

Por outro lado, a permanência do Reino Unido na UE não significa que os Britânicos tenham que aceitar a atual estrutura da união. A UE passa por um momento de instabilidades tanto nas questões econômicas quanto sociais. Reformas são necessárias para tornar a o bloco econômico mais justo e transparente. Se os Britânicos permanecerem na UE, David Cameron precisará fazer todos os esforços para desenvolver um relacionamento mais produtivo e amigável com o restante da Europa. Não é sensato dar continuidade a uma relação que coleciona desconfiança e desinteresse. Ninguém tem nada a ganhar com isso. Indiferente da forma como os Britânicos irão votar no próximo referendum, é vital que argumentos secundários como a imigração e o sistema de benefícios, não tenham mais peso do que argumentos como a segurança do continente como um bloco único. Os Britânicos não estarão votando apenas pelo futuro do seu país mas sim, pelo futuro de toda a Europa. Por isso não ha margens para erro. David Cameron ja sinalizou sua vontade de fazer o referendum no próximo mês de Junho. É certo que este será um mês de muita apreensão no mundo inteiro. Se errarmos o alvo, as consequências poderão ser historicamente desastrosas.

O Capital Mundial Sob O Controle De 62 Indivíduos

By: Michaell Lange,

London, 18/01/16 –

Agora é oficial: 1% da população mundial é mais rica que a soma do total de riquezas dos outros 99% revelou estudo publicado pela Oxfam esta semana. As 62 pessoas mais ricas do mundo tem capital maior que a soma total da riqueza dos 50% da população mundial mais pobre. Karl Marx alertou o mundo desse perigo, mas não havia interesse das pessoas em saber.

Não faltam criticas para as teorias de Karl Marx, mas ha um outro lado da teoria do Comunismo de Marx que poucas pessoas conhecem. A forma perfeita de descrever o Capitalismo. Ninguém até hoje, foi capaz de formular um conceito tão completo e detalhado do capitalismo quanto Karl Marx. Talvez, ninguém tenha duvidado da capacidade do capitalismo de concentrar riquezas nas  mãos de alguns poucos indivíduos como alertou Marx em seus escritos sobre o Capital. Na verdade, é perfeitamente natural e compreensível pensar que a quantidade de riqueza acumulada por uma única pessoa, depende apenas da própria pessoa, e suas possibilidades de enriquecimento são infinitas. O quanto, em teoria, uma pessoa pode enriquecer, depende teoricamente, da sua ambição ou vontade. Ao contrario do capitalismo, o Comunismo promovia um sistema onde o estado teria o controle de todas as formas de produção, o que pessoalmente para mim, não se trata de Comunismo mas sim, de um sistema totalitário e tão aberto para a corrupção quanto o próprio capitalismo. Realmente, para a grande maioria das pessoas, incluindo eu mesmo, o capitalismo sempre fez mais sentido. Seria impossível viver numa sociedade onde o indivíduo não teria a liberdade de ser e alcançar tudo aquilo que almeja e realizar seus sonhos. Talvez o grande problema do capitalismo tenha sido a chegada do Neoliberalismo. Este, derrubou todas as barreiras que regulamentavam o modo como acumulava-se riqueza. Até os anos 90 por exemplo, bancos eram proibidos de especular no preço mundial de alimentos. Essa Lei foi derrubada por dois dos maiores nomes do Neoliberalismo da história, Margaret Thatcher e Ronald Reagan. A partir do fim dessa proibição, bancos como o Britânico, Barclays, passaram a investir no preço mundial dos alimentos. Em 2010 e 2011, o banco Barclays lucrou algo em torno de £500 milhões de Libras (R$2.7 Bilhões de Reais) em investimentos no preço de alimentos. Nesse mesmo período, o preço do milho, principal alimentos de muitos países da Africa, chegaram a subir 25% em um mês. Em 2011, o preço do milho em Moçambique, onde as famílias gastam mais da metade da renda familiar em comida a base de milho, mais que dobrou de preço levando milhões de pessoas para a extrema pobreza. O mesmo fenômeno foi observado em outros países do mundo. Segundo a Oxfam, milhões de famílias passaram a viver abaixo da linha da pobreza por não conseguirem mais comprar alimento. O capitalismo sem regulamentação fez com que as grandes fortunas controlassem cada vez mais capital. Os bancos foram alguns dos mais beneficiados. Existem hoje, mais de 60 paraísos fiscais ao redor do mundo cujo o único objetivo é o de esconder capital de países que cobram impostos. O Capitalismo neoliberal é um monstro fora de controle que precisa ser dominado.

Em 2014, a organização Britânica Oxfam, alertou que dentro de 2 anos, 1% da população mais rica do mundo controlaria a mesma quantidade de riquezas que  o total dos outros 99% combinados. Esta semana, a Oxfam publicou um estudo feito com dados do banco Credit Suisse, oficializando as expectativas da entidade com uma única diferença, as previsões se realizaram com 1 ano de antecedência. De acordo com a Oxfam, 62 pessoas, controlam o equivalente a riqueza total de 3.6 bilhões de pessoas somadas, ou seja, 62 pessoas controlam a mesma quantidade de riquezas que 50% da população mundial. Em 2010, esse número era de 388 pessoas. No ano passado ja havia caído para 80 pessoas. Ainda de acordo com o estudo, a metade mais pobre da população mundial perdeu 41% de sua riqueza entre 2010 e 2015 o equivalente a $1trilhão de Dólares que saíram do poder da população mais pobre em 5 anos. Porém, nesse mesmo período, os 62 indivíduos mais ricos do mundo acumularam mais de meio trilhão de Dólares em riquezas, apenas 9 dos 62 são mulheres. A Oxfam acusa os governos mundiais de estarem fazendo muito pouco para controlar o crescimento descontrolado da desigualdade social no mundo. Segundo a entidade, a desigualdade social aumentou dramaticamente nos últimos 12 meses. A Oxfam também pediu urgência para os governos combaterem  a grave crise de desigualdade no mundo adotando três passos essenciais sugeridos pelo estudo. De acordo com a Oxfam, é vital que os governos combatam o desvio de capital para paraísos fiscais com o intuito de evitar o pagamento de impostos. Também é essencial que os governos aumentem os gastos com serviços públicos, e adotem ações para aumentar a renda das pessoas que ganham os menores salários na sociedade. A Oxfam pediu o fim dos paraísos fiscais onde bilhões de dólares são escondidos todos os anos por indivíduos e empresas para evitarem o que a entidade chama de “colaboração justa com a sociedade”. De acordo com a Oxfam, a existência de paraísos fiscais deixam países sem o capital necessário e vital para investimentos sociais e o combate a desigualdade.

Segundo o presidente da Oxfam Britânica, Mark Goldring, “é simplesmente inaceitável que um pequeno grupo de indivíduos super ricos acumulem mais riqueza que a metade da população mundial. Estamos falando de um grupo tão pequeno, que caberiam dentro de um ônibus”.

“Estima-se que em todo o mundo, indivíduos super ricos, tenham escondido um total de $7.6 trilhões de Dólares em contas em paraísos fiscais. Se os impostos destes valores fossem cobrados, os governos teriam o equivalente a $190 bilhões de Dólares a mais para investir no combate a desigualdade social”.

A Oxfam estima que 30% de toda a riqueza financeira da Africa esteja escondida em paraísos fiscais com um custo de $14 bilhões de Dólares por ano em impostos não arrecadados. Esse valor seria o suficiente para pagar um plano de saúde para mães e crianças que poderia salvar 4 milhões de vidas por ano além de empregar professores suficientes para manter todas as crianças Africanas na escola. O estudo revela que 9 de cada 10 corporações do Forum Econômico Mundial, estão presentes em ao menos um paraíso fiscal. Estima-se que o não pagamento de impostos por multinacionais em países em desenvolvimento tenha um custo de pelo menos $100 bilhões de Dólares por ano aos cofres públicos. Investimentos feitos por corporações em paraísos fiscais cresceram 400% entre 2000 e 2014. Permitir que governos cobrem impostos devidos por corporações e indivíduos super ricos, sera vital para os lideres mundiais cumprirem o compromisso firmado em 2015 para acabar com pobreza extrema até 2030. (Oxfam)

“Não é mais aceitável que a idéia de que a riqueza dos mais ricos beneficia o restante da população, quando os fatos comprovam que a recente explosão no crescimento da riqueza dos mais ricos, foi conquistada as custas dos mais pobres” Mark Goldring.

A aceitação do capitalismo Neoliberal veio fantasiado de bom samaritano, mas décadas após a introdução de políticas neoliberais e a globalização, os 99% da população mundial percebem agora, que fizeram um péssimo negócio. O Comunismo Marxista não deve ser visto como uma alternativa para o sistema capitalista atual, mas se estivéssemos mais atentos aos alertas de Marx, poderíamos ter evitado muito dos fatos publicados esta semana pela Oxfam. O fato de não haver um sistema confiável para substituir o capitalismo por completo não pode ser uma justificativa para aceitar os atuais níveis de desigualdade. É importante que a busca de alternativas e mudanças no modelo atual não sejam abandonados. O capitalismo poderia ser um sistema mais positivo e mais justo, mas para que isso aconteça, os governo precisam parar de fazer planos e começar com urgência, a colocar os planos em prática. A volta de regulamentações e o fim dos paraísos fiscais, são medidas vitais para a viabilização dos governos no combate as desigualdades sociais. Mas, os governos também precisam demonstrar mais comprometimento com a sociedade ao invés de priorizarem apenas os interesses de grandes corporações multinacionais. Parte importante desse processo de mudança esta diretamente ligado aos 99% das pessoas menos beneficiados pelo atual sistema capitalista. É extremamente importante que as pessoas entendam como o sistema capitalista funciona, e entendam porque nos encontramos na situação em que estamos. A propaganda de quem esta no poder, costuma culpar o pobre por sua pobreza, mas estudos como este divulgado pela Oxfam, evidenciam que ha muito mais por trás dessa história do que os poderosos gostariam que você soubesse. A informação é vital para que o povo possa cobrar dos governos as medidas urgentes contidas nesse estudo, para que a desigualdade social possa de fato e efetivamente, ser combatida. Esta mais do que óbvio que a contínua existência de paraísos fiscais, servem apenas aos propósitos dos mais ricos e por isso, devem ser extintos para que grandes corporações e indivíduos super ricos pagem sua contribuição a sociedade de forma justa como qualquer outra empresa ou cidadão. É inaceitável que 3.6 bilhões de pessoas tenham menos riqueza acumulada que os 62 indivíduos mais ricos do mundo. Algo precisa ser feito a respeito e o primeiro passo é entender o que realmente esta acontecendo. Precisamos entender porque estamos todos vivendo num mundo tão injusto enquanto 1% da população mundial tem o controle e o conforto de viver e dormir sobre 99% de todo o capital financeiro do planeta.

Oxfam report, Jan 2016:

http://www.oxfam.org.uk/media-centre/press-releases/2016/01/62-people-own-same-as-half-world-says-oxfam-inequality-report-davos-world-economic-forum