O RE-SURGIMENTO DO POPULISMO REVOLUCIONÁRIO

By: Michaell Lange,

29/12/16 –

Assim como o liberalismo, o populismo tem conceitos diferentes de acordo com o lugar, o tempo e o lado político no qual se encontra o argumento. Há um entendimento generalizado difundido pelo pensamento de esquerda, que assume o populismo como um movimento do povo contra a elite. A elite neste caso, seria uma barreira que impede as melhorias necessárias para sociedade como um todo. Já de acordo com o pensamento de direita, esse conceito é falso pois, a idéia de que há uma união de pensamentos e idéias que caracterizam um povo, é inexistente.

O que chamo de “populismo revolucionário”, e que será o fator central desse artigo, se trata do populismo que explora a indignação do povo, sobretudo da classe operária. Esse apelo as massas ja levou ao poder no passado, lideres como Hitler, Mussolini, Stalin, Mao Zedong, Pol Pot, Francisco Franco e Fidel Castro, além de outros. O que há em comum entre eles é a guerra, a opressão e a morte de milhares de inocentes. O sistema que une a ideologia de todos os líderes citados acima é o totalitarismo, que se apresenta em diferentes formas, seja liberal, democrático, libertador, revolucionário, socialista ou popular. Seja qual for a vestimenta, todos eles são, no fundo, totalitaristas ou seja, pessoas que buscam o poder total para si mesmo. Quando compramos um produto, além do reconhecimento visual, o rótulo deve trazer com clareza o que é, e o do que o produto é feito. Na política mundial, a política pode trazer diferentes rótulos para o mesmo produto. Tudo é válido para convencer o povo. Infelizmente, o povo, seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, é quase sempre convencido a comprar “gato por lebre”.

O re-surgimento do populismo revolucionário é extremamente preocupante. Os exemplos do passado precisam ser reconhecidos para que os mesmos erros e as mesmas tragédias não se repitam no futuro. Infelizmente, esse processo se encontra em estágio avançado e poucos percebem a gravidade do seu re-surgimento. O populismo revolucionário tem como principio, se identificar com a classe trabalhadora e através dela, chegar ao poder. Ao que parece, quanto mais anti-sistema e radical forem, maior a popularidade. Quanto mais enfurecedor o discurso, maior o apoio popular. Quanto mais apelativo, maior a sua aceitação. Os exemplos desse fenômeno são numerosos. O maior de todos chama-se Donald Trump. O mais novo presidente Americano, foi eleito com um discurso inflamatório, ofensivo, discriminatório e revolucionário. Quanto mais ofensivo eram os discursos de Trump, maior era a sua popularidade. Quanto mais a mídia tentava destruí-lo, maior ele ficava. Trump foi eleito com a promessa de construir muros, expulsar milhões de imigrantes e proibir a entrada de muçulmanos nos EUA. O extremismo clássico, populista e extremamente perigoso de Trump, esta se propagando pelos quatro cantos do planeta em uma velocidade preocupante. Essa estratégia ja deu certo no passado e o mundo viveu os horrores da sua consequência. O crescimento do extremismo no mundo, pode ser o inicio do re-surgimento do fascismo e do Nazismo camuflados em uma nova vestimenta que pode sim, levar o mundo de volta às catástrofes dos anos 30 e 40. A eleição de Trump nos EUA provou que a retórica do extremismo pode ser um atalho ao poder. O sucesso de Trump deu credibilidade a outros extremistas como Nigel Farage, que por dez anos lutou pela saída do Reino Unido da União Européia com um discurso muito similar ao de Donald Trump. Farage, foi o principal pivô na campanha do Brexit, do referendum Britânico que decidiu pela saída do pais da União Européia. Na Austria, outro extremista acusado de ser um neo-nazista, Norbert Hofer, venceu as eleições e se tornou o mais novo presidente do país. O líder do Partido da Libertação Austríaca, é apenas mais dos exemplos da corrida para a extrema direita que ocorre na Europa nesse momento. Esse fenômeno tem sido seguido de perto por vários outros países no mundo incluindo o Brasil. Na Holanda, Geert Wilder, do Partido para a Libertação, lidera o movimento radical no seu país. Na França, a candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, lidera as pesquisas presidenciais com a promessa de seguir o exemplo Britânico e retirar a França da União Européia. Em Israel, Netanyahu dispensa qualquer apresentação. E na Russia, Putin aproveita o momento conturbado na política global para se fortalecer como um poderoso líder da nova geopolítica mundial. Todos eles usam a mesma retórica radical anti-Islâmicos e anti-imigrantes.

No Brasil, o caos econômico causado pelo impasse político promovido irresponsavelmente por corruptos incompetentes no Congresso Nacional junto ao colapso do ja precário sistema de saúde, educação e segurança, vem abrindo espaço para o radicalismo retórico populista liderado por Jair Bolsonaro. O surgimento de um mito que na TV aparece enfurecido, pregando a morte de bandidos, mesmo trabalhando e sendo aliados de muitos deles, ganha força como candidato a presidência da República em 2018. Bolsonaro se tornou, ou pretende se tornar, o Trump Brasileiro, mesmo que as similaridades entre os dois se limitem a retórica radical e populista para chegar ao poder. Bolsonaro esta desesperado por uma foto junto ao presidente Trump que possa ser usada como bandeira em sua campanha eleitoral para 2018. É muito provavelmente que ele conseguira seu pequeno troféu Americano que certamente aumentará suas chances de vitória em 2018. O crescimento da popularidade de Bolsonaro no Brasil segue o mesmo princípio do que vem acontecendo nos EUA e Europa. A crise financeira de 2008 fez 6 milhões de americanos perderem suas casas, pondo fim ao sonho Americano. A crise do Euro e o colapso da economia Brasileira, são as principais causas do re-surgimento do populismo revolucionário que nos anos 30, logo após a grande depressão econômica de 29, fez surgir o pesadelo Nazista e Fascista que aterrorizou o mundo por décadas. Os próximos 3 anos serão cruciais para evitarmos uma repetição dos erros do passado. Entender o fenômeno político que vem ocorrendo no mundo, é fundamental para que as gerações futuras não precisem sofrer as consequências causadas pelos erros das gerações atuais. As consequências do radicalismo é a violência, e violência não é, nem nunca será, solução para nada. O radicalismo não pode ser uma opção aos erros do atual sistema político mundial. O apelo da retórica radical deve ser rejeitada a todo custo. Aqueles que se sentem atraídos pelos discursos inflamatórios de políticos como Bolsonaro, precisam refletir sobre a verdadeira intensão do seu discurso radical. A falta de opção não pode ser uma justificativa para eleger o mais furioso da lista. Não há dúvidas de que o atual sistema político precisa ser derrubado e repensado. Mas, substituí-lo pelo radicalismo seria um retrocesso de altíssimo custo que eu, você, e as gerações futuras terão que bancar.

EU TAMBÉM NÃO GOSTO DE VOCÊ PAPAI NOEL

By: Michaell Lange,

London, 14/12/16 –

 

Esta semana me deparei com um video sobre o Natal que não apenas me comoveu, mas me fez entender um pouco da minha frustração de não conseguir sentir o mesmo entusiasmo com essa data que tantos consideram a mais importante do ano.

Pois bem, não é novidade para ninguém que os valores do Cristianismo foram abandonados por seus seguidores e a religião transformou-se em um grande comercio. É obvio que devemos salvar espaço as exceções. Eu também conheço bons Cristãos. Mas, não podemos negar que os valores promovidos dentro da casa de Deus não são reproduzidos fora dela. Além disso, o tempo é testemunha da transformação do significado do Natal que hoje, tem muito pouco a ver com o nascimento mais importante da história do Cristianismo, e menos ainda com os valores que esta religião promoveu pelo mundo. Também não é de hoje que o nome da igreja é usado para justificar ações injustificáveis, mas não é sobre isso que este artigo se propõe a falar. O que me inspirou a escrever este artigo foi o poema de Aldemar Paiva chamado “Eu não gosto de você Papai Noel” que conta uma história que reflete milhões de histórias semelhantes que se repetem todos os Natais. A história do menino pobre que pediu um presente ao Papai Noel e nunca recebeu nada, nem mesmo uma resposta escrita, denuncia meu desgosto com a sua figura. Papai Noel não tem presente para os pobres, porque Papai Noel não existe, ou só existe para quem pode compra-lo. O que existe é uma figura que vende sonhos e fantasias que os pobres não tem o direito de ter, mas parecer ter o dever, por condicionamento, acreditar. Me pergunto; Por que fazemos isso com nossas crianças?

Quando eu tinha mais ou menos 10 anos de idade, meu pai me levou para comprar um presente de Natal. No caminho para o mercado, ele e minha mãe me explicaram que aquele presente seria dado a mim pelo Papai Noel, mas que na verdade o tal Papai Noel seria a minha tia fantasiada, porque o verdadeiro Papai Noel não existia. Meus pais deixaram bem claro que as outras crianças que estariam na rua, acreditavam e que por isso, eu deveria manter segredo. Feliz, recebi o presente do Papai Noel que era a minha tia, e que havia sido comprado pelos meus pais. Tudo isso em frente a um grupo de mais ou menos 20 crianças encantadas em ver o Papai Noel, mas ganharam como presente nada além de alguns doces. Aquelas crianças devem ter se perguntado; Por que somente ele (eu) recebeu um presente? É nesse ponto que vive a minha angustia. Sempre que vejo alguém fantasiado de Papai Noel, observo os olhares das crianças a sua volta e tenho medo de que algumas delas nunca receberão o presente prometido, seja material ou afeto, carinho e amor.

Nunca julguei meus pais pela atitude de me fazer de tolo diante de crianças que como eu, só queriam receber um presente. Na minha inocência de criança, só queria mesmo era o presente. Depois cresci assistindo outros Papais Noel fazendo o mesmo em todas as cidades e em todos os lugares, e acabei percebendo que se tratava de uma coisa cultural. Cultural e cruel, devo dizer. Depois de adulto, encontrei aquela minha foto recebendo o presente do Papai Noel, digo, da minha tia, e pude ver a crueldade da cena que se pudesse, não teria feito parte. Todas aquelas crianças a minha volta, me assistiram sendo presenteado com enorme alegria, pelo realizador dos sonhos mais impossíveis. Mas, por que só eu ganhei presente? Por que os outros ganharam apenas balas e doces? Será que apenas eu fui merecedor de tamanha honra? Será que as outras crianças não foram boas o suficiente? Será que deveriam ter estudado mais? Ou ter sido mais obedientes? Quantos questionamentos não passaram na cabeça daquelas crianças? E por que? Por causa de uma fraude! Porque além de marcar o nascimento de Cristo, o Natal é uma fraude cruel, e nossas crianças são as principais vitimas. O nascimento de Cristo passa totalmente despercebido pela grande maioria da população. Aos que conseguem reunir os amigos e familiares, a data é um ponto positivo, mas para muitos que estão sozinhos (e são muitos mesmo), a data é quase uma tortura. Ainda esta semana, assisti de cabelo em pé, cenas de crianças desacompanhadas (dizia a reportagem ser umas 100) presas em um prédio em Aleppo na Síria, sem água ou comida, enquanto bombas atingiam o mesmo prédio pois, haviam também, rebeldes escondidos nele. Como posso ter um Natal feliz diante de um mundo que em pleno século 21 ainda permite esse tipo de barbaridades com mulheres e crianças?

Hoje entendo porque não gosto do Papai Noel. Não posso gostar de alguém que como disse Aldemar Paiva, sente ódio do que é humilde, e glorifica o que é luxuoso. Não posso gostar de uma figura que vende ilusões a tantas crianças que nunca receberão um presente seu. Não posso gostar de um Papai Noel que só aparece em locais onde o público esta disposto a gastar dinheiro.

Neste Natal meu filho irá ganhar presentes, mas assim como eu, ele saberá a verdade. Ele até poderá sentir e aproveitar o entusiasmo e a alegria que aquela fantasia trás quando o Natal chega. Mas não permitirei que lhe vendam ilusões ou que o façam de tolo. Ele saberá a verdade. O sonho e a fantasia trazem alegrias ao mundo infantil, mas a ilusão do presente que nunca chega, trás apenas tristeza e infelicidade para pequeninos que ainda não estão preparados para sentir a dor da injustiça. O meu Natal precisa ser verdadeiro e justo. Precisa ter o necessário e não o ilusório. A minha reflexão trás a tona minha condição humana, mas também trás a condição humana de quem vive comigo nesse mundo, e não tem a mesma sorte que eu tive. É para estas pessoas que meus sentimentos de Natal são direcionados.

O Natal deveria ser uma data para reflexão e esforços para o melhoramento das nossas condições humanas. Ao invés disso, somos invadidos por uma mistura de ansiedades e frustrações que nos levam a gastar o dinheiro que não temos, comprando futilidades que não precisamos. Enquanto isso, quem precisa acaba ficando sem nada. O senso de bondade que muitos de nós temos em ajudar o próximo, logo no dia seguinte transforma-se em indiferença, como se nosso compromisso humano valesse apenas para o dia 25 de Dezembro. Imagine se nosso espirito natalino estivesse presente todos os 365 dias do ano? Imagine se cada um de nós fossemos um Papai Noel que ao invés de ilusões, doasse bondade todos os dias do ano? Mas, não somos assim. Vivemos indiferentes aos que estão a nossa volta e acreditamos nas ilusões que um Papai Noel que não existe, insiste em promover ano após ano. Não, eu também não gosto de você Papai Noel. Saibas que quando se aproximares do meu filho, ele estará sabendo a verdade sobre você. Meus desejos de um Feliz Natal seguem em pensamento e reflexão a todas as crianças da Síria, e para todas as crianças desacompanhadas dos seus pais. Meu desejo de Feliz Natal não terá Papai Noel, terá sim, um aperto no peito que reflete a falta de amor e compaixão no mundo em que vivemos hoje. Cristo certamente gostaria de um presente de Natal diferente do que seu povo tem a lhe oferecer no momento. Particularmente, a figura de Jesus não esta representado na fantasia de um Papai Noel, mas no sorriso de cada criança desse mundo. Um mundo sem o sorriso das crianças é um mundo sem futuro…

 

 

 

 

A TRAGÉDIA DA CHAPECOENSE E O DESPREPARO DAS AUTORIDADES BRASILEIRAS

By: Michaell Lange,

London, 03/12/16 –

 

A Colombia deu uma aula ao Brasil de como gerenciar situações de desastre, e como conduzir o processo de busca e salvamento além dos trâmites legais e homenagens com o mais alto grau de dignidade. Os Colombianos foram melhores do que os Brasileiros em quase tudo. A torcida do Atletico Nacional de Medellin, prestou uma das homenagens mais lindas na história do esporte, e deu exemplo de esportividade e civilidade. Comoveram a nós Brasileiros, dividindo a mesma dor, como se a tragédia tivesse sido com seu próprio time. O povo Colombiano deu exemplo de dignidade e fraternidade. Mostraram ao povo Brasileiro uma Colombia que os Brasileiros não conheciam. Nos surpreenderam com uma compaixão típica do Sul Americano, que o próprio nativo havia esquecido que existia. O Brasileiro vê os países vizinhos com muita desconfiança, mas a tragédia desta semana parece ter despertado uma irmandade que nos tempos coloniais nos unia. Esta semana, os Colombianos conquistaram o Brasil. Uniram dois povos que compartilham a mesma dor. A torcida do Atletico Nacional de Medellin liderou um movimento mundial de solidariedade e amor ao esporte. Mostraram ao mundo que apesar das rivalidades, a vida e o próprio esporte nos une e nos fazem membros de uma mesma família. Tenho certeza que essa tragédia nos levou a transcender as fronteiras que dividem territórios, e ao menos por alguns dias, o mundo pareceu não ter fronteiras. O planeta esteve unido como um só povo, unidos pelo esporte.

Mas, quando “o campeão voltou” e as atenções se voltaram para o Brasil, a precariedade do governo e das agências governamentais para administrar uma situação tão delicada e trágica, estavam evidentes em quase todos os lugares. O despreparo e a falta de sensibilidades das autoridades Brasileiras me constrangeram, sobretudo diante de toda a grandiosidade e delicadeza com que a Colombia havia demonstrado com nossos compatriotas da Chapecoense. É muito provável que a comoção do povo diante de uma situação tão inesperada e trágica, tenha nos impedido de observar a pobreza organizacional com que as autoridades Brasileiras apresentaram na volta para casa do time da Chapecoense.

Nossa incapacidade de organização é um fato histórico. O Brasil não sabe planejar. Vamos resolvendo tudo no supetão, e na medida que os problemas vão surgindo. O improviso vira regra e o que deveria parecer bonito e digno se torna ofuscado e ainda mais triste. A culpa ao meu ver, esta na militarização da nossa sociedade. Militares foram treinados para guerra, não foram treinados para governar ou gerenciar crises e tragédias civis. Poderiam ser treinados para isso ja que o Brasil não tem inimigo comum, mas não foram e por tanto, não estão preparados para lidar com situações como essa, mas acabam por ser os responsáveis pela organização de eventos que não lhes competem. Isso ocorre apenas porque o Brasil não tem ainda uma sociedade civil que possa assumir esse tipo de evento. Não há nenhum problema em transportar os corpos dos jogadores em aviões militares. Nenhuma outra agência governamental teria tamanha infra-estrutura para fazer esse trabalho. Se tivéssemos por exemplo, uma guarda costeira civil, esta teria tal infra-estrutura, mas não temos e por isso, dependemos dos militares. O procedimento de retirada dos corpos dos aviões e o transporte até o estádio da Chapecoense onde o velório aconteceria, me deixou irritado. Mesmo em meio a comoção pois, como todo Brasileiro, eu também passei o dia chorando assistindo ao cortejo fúnebre, não passou despercebido a falta de organização das nossas autoridades. Como crítico que sou, foi difícil não comparar a sensibilidade e a delicadeza com que os Colombianos conduziram nossos guerreiros até os aviões da FAB, com o modo desajeitado, desorganizado e indelicado com que os militares Brasileiros receberam nossos Brasileiros em Chapecó. É importante lembrar que a crítica aqui não é direcionada aos soldados envolvidos nesse processo. Vi muitos deles emocionados e com dificuldades de manter a postura diante de tanta dor. A crítica é direcionada a organização do evento, incluindo o comportamento vergonhoso e infantil do presidente da república, preocupado se seria ou não vaiado. A vestimenta dos soldados que vestiam uniforme de guerra (provavelmente o único que tem), estava totalmente inapropriada para a ocasião. O uniforme camuflado é extremamente indelicado e não condiz com a natureza do evento. Os Colombianos usaram uniformes com terno azul e conduziram os corpos até os aviões em mesas impecáveis, ao som da corneta fúnebre e a presença de um padre. Tudo muito digno para tal ocasião. No Brasil a retirada dos corpos foi feita em macas claramente improvisadas com toalhas brancas que com o vento e a chuva, levantavam revelando um material velho e sucateado. Para um país que critica Cuba, deveríamos ao menos nos apresentar melhor. A condução dos corpos também me pareceu extremamente desajeitado e improvisado. O mais chocante foi o modo como os heróis da Chape foram levados até o estádio Arena Condá. Me pergunto quem foi a mente que decidiu conduzir as vitimas de tamanha tragédia em cima de carretas abertas? É um absurdo a forma indelicada com que foram levados (ou transportados como carga) até o local onde o povo aguardava aflito. Há o costume de usar também, caminhões do corpo de bombeiros, outro meio inapropriado que ninguém entende o motivo. A Colombia conseguiu carro fúnebre individual para todos os corpos, por que as autoridades Brasileiras não fizeram o mesmo? Tiveram uma semana para planejar o evento que deveria ter sido no mínimo, tão digno e respeitoso quanto foi na Colombia, onde tiveram muito menos tempo para organizar o processo, mas foram impecáveis em todos os sentidos. Ainda na procissão fúnebre, carros da policia com as sirenes ligadas faziam o cortejo parecer uma transferencia de presos, quebrando o silêncio respeitoso da torcida e do povo Chapecoense. Alguém saberia explicar a presença de jipes do exército? Não se trata de um desfile de 7 de Setembro senhores! A indelicadeza da organização me revoltou em certos momentos. O Brasil precisa se distanciar da cultura social militarizada e caminhar na direção de uma sociedade civil, que permita a flexibilidade de desenvolvimento. A rigidez militar deve permanecer nos quartéis.

Mas, a espontaneidade e a dignidade do povo Chapecoense me comoveu muito. O silêncio quase ensurdecedor levou o Brasil as lágrimas. Os aplausos e os cantos da torcida organizada de tempos em tempos, ecoavam pela cidade e se confundiam com o barulho da chuva forte. O olhar triste e pensativo dos torcedores refletiram com muita honestidade e honradez, o amor do povo de Chapecó por seu time de futebol. O prefeito de Chapecó, Luciano Buligon, vestindo a camisa do time do Atletico Nacional de Medellin, fez um agradecimento bastante emocionado ao povo Colombiano pelo carinho com que trataram nossos Brasileiros. O povo presente respondeu imediatamente com aplausos. Luciano ainda comparou a chuva intensa que caiu durante todo o dia na cidade, com lágrimas de Deus. E como não mencionar a grandiosidade da Dona Alaíde, mãe do goleiro Danilo que emocionou a nação com sua grandeza espiritual frente a uma perda tão grande?

Hoje foi sem dúvidas, um dia muito triste. O Brasil, em meio a turbulência política, tenta superar mais uma tragédia no esporte. Foi quase impossível não lembrar do nosso Ayrton Senna. Foi impossível não chorar junto com os torcedores da Chapecoense. Mas, em meio a tragédia, vimos que o esporte é capaz de unir nações em um só coração, e fazer adversários se transformarem em irmãos. Ao povo Colombiano, deixamos nosso eterno agradecimento e admiração. E fica também a lição as autoridades Brasileiras, de que planejar e estar preparado para ocasiões como esta, demonstra até que ponto o governo realmente se importa com a dignidade do seu povo. Temos muito a aprender com os Colombianos. Força Chape!

ABORTO É CRIME, INDIFERENTE DO QUE DIZ A LEI (opinião)

By: Michaell Lange,

London, 01/12/16 –

Esta semana vários assuntos dominaram a mídia e as redes sociais. A Tragédia com o vôo do time da Chapecoense chocou o mundo do esporte e deixou o Brasil de luto. A sem vergonhice, e o comportamento criminoso dos parlamentares em Brasilia, que diabolicamente aproveitaram-se de uma nação em luto para votar uma PEC imoral, camuflada pela madrugada enquanto o país chorava a perda de 71 vidas na queda do avião do time Catarinense, também deixou o Brasil estarrecido. Mas, um outro assunto não menos importante, acabou ficando um pouco ofuscado por conta dos outros dois assuntos citados acima. Trata-se do aborto que a justiça Brasileira decidiu descriminalizar até o terceiro mês de gestação. O assunto também foi noticia no Reino Unido esta semana, mas por um outro motivo. O Reino Unido é formado pela Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales, mas algumas Leis são diferentes dependendo o país. Por exemplo, na Inglaterra o aborto é legalizado. Qualquer mulher pode procurar uma clinica e fazer o procedimento pago pelo governo. Porém, na Irlanda do Norte o aborto é crime e isso faz com que muitas Irlandesas venham para a Inglaterra fazer o procedimento usando verba do orçamento da saúde Inglesa. Essa polêmica tem gerado debates sobre até que ponto os Ingleses devem pagar pelo procedimento feito para cidadãos Irlandeses. A legalização do aborto na Inglaterra seguiu o mesmo principio seguido por outros países, e é também o mesmo argumento usado por pessoas que lutam pela legalização do aborto no Brasil. Segundo os Ingleses, a legalização do aborto evita a prática clandestina que muitas vezes pode acabar em óbito. Mas, esse mesmo argumento pró-aborto me faz questionar porque o mesmo princípio não é usado em outros casos não menos polêmicos, como no caso da legalização das drogas. Se a legalização do abordo evita a prática clandestina, por que a legalização das drogas não evitaria o tráfico de drogas que é responsável pela maioria dos homicídios no país? O princípio é o mesmo, mas os interesses parecem ser diferentes.

Por muito tempo a polêmica do aborto foi uma incógnita na minha cabeça. Sempre foi muito difícil para mim, ter uma opinião formada sobre o assunto. Mas hoje, tenho plena convicção de que o aborto não difere em nada, de um assassinato. Porém, assim como há exceções que legitimam um assassinato, como no caso da legítima defesa por exemplo, onde a vitima precisa matar outra pessoa para salvar a própria vida, eu também acredito que há exceções que possam legitimar alguns casos de aborto, como no caso do assassinato em legitima defesa. Mesmo assim, em todas as exceções nas quais pensei a respeito, minha conclusão é quase sempre confusa.

Os principais argumentos de mulheres e casais (em muitos casos a decisão é conjunta) que praticaram o aborto, é que o fizeram porque não estavam preparados para ser pai/mãe, ou não tinham condições, ou simplesmente não desejam ter filhos. Pois bem, na minha opinião essa cultura foi estabelecida por negligência do estado que tenta normalizar e em muitos casos até incentivar o aborto. O mesmo estado também falha em alertar para o trauma. O assassinato de um ser humano não é algo natural, mas sim algo inventado pelos humanos. Porém, mesmo com todos os esforços para normalizar a prática, a natureza humana continua reagindo negativamente contra uma agressão não prevista na natureza. O resultado é um trauma psicológico (físico em alguns casos) que homens e principalmente mulheres, sofrerão pelo resto de suas vidas. O Trauma é resultado de ação extrema e não natural. Quando alguém mata outra pessoa, seja por acidente ou propositalmente, o estrago psicológico é similar e tão duradouro quanto o de um aborto. De fato, um aborto não difere de um assassinato pois, este, interrompe uma vida que teria continuidade caso a ação abortiva não tivesse ocorrido. A negligência do estado levou as pessoas a acreditarem que interromper a vida de um ser humano que ainda não nasceu é aceitável, mesmo em casos onde os motivos são absurdos, como a falta de recursos financeiros, ou simplesmente não desejarem a gravidez. O ser humano precisa assumir a responsabilidade ou arcar com suas consequências. O assassinato de um bebê recém nascido pode levar o autor do crime a passar o resto dos seus dias na prisão. Por que assumimos postura diferente quando o crime é cometido meses antes?

Muitas mulheres pró-aborto costumam usar o discurso “my body, my rule” ou “meu corpo, minhas regras”. O argumento é certamente válido para as mulheres tanto quanto para os homens. Mas, é um grande equivoco acharem que essa regra vale para o aborto. Mesmo sendo gestante, a vida que cresce dentro do útero não pertence a mulher. Essa vida, desde o momento da fecundação ja tem seu direito a vida e a liberdade garantido pela Natureza (Deus). Não cabe a mulher impor seus desejos sobre uma vida que apesar de crescer dentro dela, não a pertence. Ao contrário da posse, a mulher e o homem, tem a responsabilidade de cumprir com seu papel natural de zelar e respeitar os direitos a vida que lhes foram dado. A gestante não tem por tanto, o direito de decidir o futuro do bebe, mas garantir a sua existência. O ser humano tem garantido seu direito a vida no momento em que ela passa a existir ou seja, no momento da fecundação. Indiferente do que as Leis dizem, as Leis da Natureza nesse caso, são superiores e imutáveis. Durante esta semana, ouvi dezenas de mulheres falarem sobre o trauma da decisão, e como o aborto afetou suas vidas mesmo depois de décadas. Salvo as exceções, minha resposta a esse argumento é simples e direta. A decisão de fazer o aborto, ao que me parece, é mais fácil do que a decisão de não fazer sexo, ou de fazer sexo seguro. Sim, eu sei que parece uma suposição grosseira, mas como citei acima, as exceções são apenas exceções e não podem ser usadas como regra. Também não estou aqui para julgar as mulheres que decidiram fazer o aborto. Meu propósito é questionar a legitimidade que o estado, junto a pessoas pró-aborto promovem ao defender sua legalização. É certo que acidentes acontecem, mas nesse caso especifico, a vida de um bebê inocente não pode ser interrompida por motivos tão rasos. A vida esta acima de tudo! Precisamos assumir as responsabilidades da vida!

Um outro exemplo que eu gostaria de usar como paralelo ao trauma causado pelo aborto, é o caso de soldados. As forças armadas treinam o soldado para matar o inimigo sem culpa. É um treinamento brutal que em muitos casos desconstrói o ser humano por dentro e reconstrói em forma de um soldado frio e calculista. Nesse processo o soldado é convencido de que se ele matar o inimigo, vidas serão salvas em sua terra natal. Mesmo apesar do processo brutal de desconstrução dos valores humanos, os soldados voltam da guerra traumatizados. A própria policia sofre com a violência e tem altos níveis de suicídios por causa da experiência nas quais vidas são terminadas de formas brutais. Porque então, deveríamos pensar que um cidadão normal, sem treinamento militar, não seria afetado pelo trauma causado pelo termino de uma vida como consequência de um aborto? Por isso acredito que há similaridades entre o trauma causado por um aborto e um assassinato, seja por legitima defesa, acidente ou guerra. O término de vidas por meios não naturais é definitivamente um crime na sua concepção mais básica. É exatamente com base nessa analise pessoal que consegui finalmente, depois de muitos anos de questionamentos, concluir que o aborto é assassinato, mesmo quando se tratando de legitima defesa ou legitima causa.

Como defensor assíduo dos direitos humano, me deixa consternado a idéia de que um estado, cuja responsabilidade número 1 é garantir a segurança, a integridade e os direitos humanos de todo cidadão, possa criar Leis que legalizem e sentenciem a morte, vidas inocentes sem direito a defesa. O aborto é um crime, e sua prática deve ser tratada como tal, com exceção aos casos de legitimidade. Um governo não se limita apenas a garantir e atender as vontades e direitos dos seus indivíduos, mas também garantir os direitos daqueles incapazes de se defender.

Quando um espermatozóide se une a um óvulo, o resultado é tão extraordinariamente espetacular e tão além do entendimento humano, que costumamos simplificar a criação e o surgimento de uma nova vida, usando o adjetivo “milagre”. Quem então teria o direito de interrompe-la se não o criador do milagre? Por que algumas pessoas acreditam ter o direito de se apossar de uma vida e decidir seu destino por motivos não naturais e ilegítimos? Interromper uma vida humana de forma não natural e de forma ilegítima em qualquer estágio do seu desenvolvimento, é um crime e deve continuar sendo, mesmo quando governos negligenciam algumas de suas maiores responsabilidades que é garantir o direito a vida e a liberdade de todos os seres humanos.