O DIA EM QUE A EUROPA TREMEU

By: Michaell Lange,

London, 24/06/16 –

O REINO UNIDO VOTOU PELA SAÍDA DA UNIÃO EUROPÉIA: E AGORA?

Foi um dos maiores tremores da política mundial desde a queda do muro de Berlin. A notícia de que os Britânicos haviam votado a favor da saída do Reino Unido da União Européia, deixou até mesmo os políticos Britânicos mais anti-Europeus de queixo caído. Nigel Farage, líder do partido ultra conservador UKIP – United Kingdom Independent Party – e um dos maiores defensores da saída do país da União Européia, ja havia dado sinais de que o país permaneceria na UE em entrevista no inicio da apuração, mas precisou voltar ao palanque para anunciar e comemorar a surpreendente vitória. “Nós conseguimos! Sem precisar dar um único tiro. Vamos fazer do dia 23 de Junho o dia da independência Britânica!” declarou Nigel Farage pouco depois das 4 da manhã desta sexta feira (24), quando a vitória havia sido matematicamente declarada.

A perplexidade do que acabara de acontecer estava estampada nos rostos de todos que haviam acompanhado a apuração dos votos noite a dentro, e também de quem saia de casa para trabalhar logo cedo. Mesmo as pessoas que haviam votado a favor da saída do país da União Européia não acreditavam nos noticiários desta manhã. Por volta das 6hs, um certo pânico tomou conta dos noticiários a medida em que as bolsas de valores da Asia abriam em forte baixa. A Libra Esterlina amanheceu com desvalorização de mais de 10% em relação ao Dólar, o valor mais baixo desde 1985. O pânico no mercado financeiro e o risco de uma “Black Friday” fez com que o presidente do Bank of England, Mark Carney, fizesse um pronunciamento de emergência para acalmar os ânimos do mercado. Emissoras de TV e rádio do mundo inteiro, além de um exército de jornalistas, esperavam  ansiosos pelo pronunciamento do Primeiro Ministro, David Cameron, marcado para as 8hs da manhã desta Sexta Feira (24), e que ainda precisou ser adiado por mais 15 minutos por conta de uma reunião entre o premier e a rainha Elizabeth. Pouco depois das 8hs da manhã, David Cameron, visivelmente abalado e emocionado, ao lado de sua esposa, disse em coletiva de imprensa que ofereceu sua renuncia a Rainha e que tomaria as medidas necessárias para que o processo de desligamento com a União Européia ocorra de forma menos traumática possível. David cameron também salientou que mesmo sendo o resultado contrário ao que desejava, sua fé na capacidade de superação do seu país continua intacta. Na casa do ex-prefeito de Londres e um dos líderes da campanha a favor da saída do país da UE, Boris Johnson, uma pequena multidão de pessoas aguardavam por ele do lado de fora. Uma dezena de jornalistas esperava por um curto pronunciamento do ex-prefeito, mas ao abrir a porta da sua casa, Boris Johnson foi surpreendido por uma grande vaia e xingamentos de baixo calão. O ex-prefeito de Londres foi obrigado a abandonar o pronunciamento e seguir direto para o carro escoltado pela polícia. Na metade da manhã era possível ouvir as comemorações nos pubs da cidade de quem votou pela saída. Alguns Britânicos saíram as ruas envoltos a bandeira da União Européia, enquanto outros apresentavam a famosa “Union Jack”, como é conhecida a bandeira do Reino Unido.

Passado o susto inicial junto ao resultado oficial do referendum, iniciou-se as especulações sobre as consequências e o processo de desligamento do Reino Unido com a União Européia. A primeira ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, fez um pronunciamento no inicio da tarde esclarecendo que o governo Escocês fará um segundo referendum para decidir se o país permanece no Reino Unido ou segue como membro independente da União Européia. No referendum Escocês em 2014, o Parlamento Britânico havia garantido a permanência do Reino Unido na União Européia caso a Escócia permanecesse no Reino Unido. O resultado de hoje foi recebido com indignação pelos Escoceses onde o resultado dava larga margem pela permanência do país na União Européia com 62% dos votos a favor. Os Irlandeses também reagiram ao resultado. A Irlanda do Norte que faz parte do Reino Unido, agora ameaça uma possível reunificação com a República da Irlanda que é membro da União Européia. Do outro lado do Canal da Mancha, a Holanda anunciava seu próprio referendum para decidir sua permanência na União Européia, e na França, políticos de extrema direita pediram o mesmo plebicito para os franceses. A decisão do governo de David Cameron de promover o plebicito no Reino Unido pode ter dado início a um efeito dominó, poderá por um fim não apenas na União Européia, como também pode por um fim no próprio Reino Unido. A mídia sensacionalista Britânica ja acusa David cameron de ser o pior Primeiro Ministro da história do Reino Unido.

O processo legal de desligamento do país com a União Europa não inicia-se hoje. O resultado do referendum não é legalmente obrigatório como o de uma eleição ou seja, se o governo quisesse, o país continuaria fazendo parte da UE. O resultado do referendum porém, sinaliza o desejo do povo Britânico de se retirar da UE. O processo legal somente tem início depois que o Primeiro Ministro Britânico fizer uma notificação oficial a União Européia anunciando sua saída, aplicando o artigo 50 do tratado da União Européia. De acordo com o artigo 50, o país que desejar sair da UE tem um prazo de dois anos para negociar todos os seus laços com a UE. Não havendo acordo ao termino desse período o país deixa de ser membro automaticamente e todos os acordos não negociados passarão a ser negociados por intermédio de um dos membros da UE. O período de negociações pode ser extendido, mas somente com o consentimento unanime dos outros 27 membros da UE. Entre os acordos a serem negociados estão incluídos: O destino dos Ministros e servidores Britânicos que trabalham na sede da UE; os acordos de subsídios da agricultura e pesquisa; acordos de livre transito de cidadãos Europeus em território da UE; barreiras e regulamentos comerciais entre os membros da UE; vistos e autorizações para visitantes, residentes e trabalhadores; acordos de intercâmbios de estudantes e tratamentos de saúde, além de todos os acordos comerciais que podem passar de 100. O artigo 50 do tratado da UE que inicia o processo de desligamento de membros da UE, nunca foi aplicado anteriormente e ainda não se sabe ao certo como sera feito esse procedimento. David Cameron deixou claro em seu pronunciamento hoje pela manhã que um novo Primeiro Ministro a ser escolhido na próxima convenção do partido conservador em Outubro, irá iniciar o processo de desligamento da UE. Portanto, o período de negociação só será iniciado depois de Outubro ou no início de 2017. Até que o processo dos dois anos de negociações sejam esgotados, tudo permanece como esta nas relações entre o Reino Unido e a UE.

Especialistas em economia e finanças, alertam para o período de grandes incertezas com crescimento econômico zero e alta de preço dos combustíveis e pacotes de férias. O valor da Libra Esterlina também deve permanecer baixo, o que prejudicará os consumidores Britânicos. Os mais otimistas dizem que o período de incertezas será curto e dará impulso para o país prosperar e voltar a ser um dos grandes líderes mundiais.

A maior certeza depois de um dos dias mais turbulentos da história da política mundial, é a de que o referendum causou profundas divisões nas relações entre os partidos políticos Britânicos, assim como na própria população e nas relações entre Britânicos e Europeus. Não seria exagero dizer que hoje, o Britânico é o povo mais odiado da Europa e esse ódio pode aumentar se as consequências do resultado do referendum provarem ser desastrosas para o continente Europeu. O partido dos conservadores esta dividido ao meio. Membros extremamente importantes e aliados do primeiro Ministro, como Boris Johnson, Michael Gove e Iain Duncan Smith, viraram as costas e abandonaram David Cameron que queria a permanência do país na UE. Boris Johnson é o favorito para a assumir o cargo no lugar de David cameron em Outubro. O resultado do referendum também denuncia a divisão do povo Britânico com relação a UE. O resultado final do referendum deu 51.9% dos votos a favor da saída, e 48.1% dos votos a favor da permanência. A questão da imigração foi o principal motivo para os Britânicos saírem da UE. Num momento em que a Europa vive um período de tensão entre classes, e movimentos ultra conservadores crescem em toda a Europa, o mundo assiste com ansiedade os próximos acontecimentos que certamente podem ter repercução desastrosas para todo mundo. Agora é esperar e torcer pelo melhor.

 

 

One thought on “O DIA EM QUE A EUROPA TREMEU

  1. Acredito que a prospectiva de nao ter uma ideia do que pode acontecer no futuro pode gerar incerteceja e medo. A repercussão que esse vontade de deixar a UE pelos Britânicos seja mais que legitima, como continuo a pensar que as leis feitas pela UE funcionam para alguns e nao funcionan próprio para outros países. E verdade que esse sentimento que muita gente ha agora pelos Britanicos ou pensam, que são RAZISTAS, é algo completamente errado. Um povo que sempre tratou por igual a todos e deu e da a quem estiver morando na Inglaterra quase, se nao o mesmo direito de um cidadão Britânico, de ir e vir fazer tudo oque quiser ( isso é a minha pessoal experiência!!) nao penso e acredito que são RAZISTAS. Sao corajosos de tomar uma decisão que com certeja terá resultados ruins a curto prazo. Os bons resultados poderam ver a londo prazo e sou confiante que essa retomada do poder de decidir o próprio destino seja a direção mais justa para se fazer. Retomando o próprio destino é possível esperar no melhor. Muitos italianos gostariam da muito tempo de tomar uma decisão desse tipo, a essa altura com “milhões” em debitos com a UE é praticamente impossível pensar algo assim.
    Sou feliz que isso tenha acontecido, a sensação de uma esfida com o futuro pode ajudar um pais a procurar soluções para problemas que não se notavam.
    – Liberdade não significa poder de compra, não significa poder ir e vir ou poder viver em outras nasçōes, liberdade significa poder decidir pelo próprio destino –
    Bruno Black

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