Reino Unido e União Européia: Um possível caso de Destruição Mútua

By: Michaell Lange,

London, 18/02/16 –

Durante a campanha eleitoral de 2015, David Cameron, líder do partido dos conservadores no Reino Unido, fez uma promessa ao povo Britânico que caso fosse eleito, faria um referendum para que os Britânicos decidissem se o país deveria ou não, permanecer na União Européia. Durante a campanha eleitoral, a promessa para um referendum parecia uma aposta viável apesar da posição pro-União Européia de David Cameron ser clara. Mas, o referendum seria um trunfo eleitoral e o risco parecia valer a pena. Os conservadores eram o único partido na campanha eleitoral a oferecer o referendum. Todos os outros partidos, incluindo os Liberais, o Partido dos Trabalhadores (labours) e o Partido Nacional Escocês (SNP), eram a favor da permanência do Reino Unido na UE sem a possibilidade de referendum. David Cameron usaria a promessa do referendum como uma de suas principais cartas de campanha. A estratégia funcionou e surpreendeu até mesmo os conservadores mais otimistas. David Cameron venceu com uma histórica maioria parlamentar e imediatamente se viu com um grande problema nas mãos. Para David Cameron, a permanência do Reino Unido na União Européia é essencial para a economia do país. Mas, para valorizar a questão do referendo durante a campanha eleitoral, Cameron havia afirmado que o Reino Unido sairia da União Européia caso suas propostas de reforma não fossem aprovadas pela UE. Muitas das propostas de reforma feita por Cameron envolviam o controle de entrada e saída de trabalhadores vindos de países da UE e o não pagamento de benefícios durante os primeiros 4 anos de residência e contribuição no Reino Unido. Estas propostas foram imediatamente rejeitadas pela UE por fazerem parte dos princípios e valores básicos nos quais a UE foi criada. Essa imediata rejeição Européia colocou o Primeiro Ministro Britânico em uma posição extremamente difícil. Cameron fez seguidas adequações e cortes nas suas propostas iniciais que seguidamente voltaram a ser rejeitadas pela UE. A medida em que as relações entre o Primeiro Ministro Britânicos e os outros membros da UE declinavam rapidamente. David Cameron assistia horrorizado a uma crescente possibilidade de ver seu país abandonar a UE por meio do mesmo voto popular que havia lhe dado maioria no parlamento Britânico. Cameron não teve alternativas a não ser a de apostou no tudo ou nada. Neste exato momento, David Cameron esta reunido com os líderes da UE em Bruxelas, com uma proposta no mínimo humilde em comparação a sua ousada proposta inicial, para tentar convencer seus parceiros Europeus a aprovar medidas que ele possa apresentar aos Britânicos como motivos positivos para a permanência do país na UE. David Cameron também precisará convencer muitos de seus parlamentares ja que o próprio partido conservador se encontra dividido na questão da permanência do país na UE. Se Cameron sair vitorioso no referendum, o Primeiro Ministro certamente entrara para a história como um dos maiores líderes Britânicos desde Churchill e Thatcher. Mas, se perder e o Reino Unido sair da UE, David Cameron sera obrigado a renunciar o cargo de forma humilhante e aceitar a culpa juntamente com seu país, de todas as incertas consequências que a saída do Reino unido poderá acarretar a UE.

Historicamente, as relações entre o Reino Unido e o restante da Europa acumulam séculos de hostilidades. Por vários séculos os Britânicos sofreram inúmeras tentativas de invasão pelos Espanhóis, Franceses e Alemães, sem falar dos Romanos e dos Vikings num passado um pouco mais distante. Mas, o povo Britânico também tem um caso de amor com a Europa continental. Milhões de Britânicos visitam os países Europeus todos os anos em busca do Sol, do calor, das praias, da cultura, da comida e também das estações de ski. De fato, mais de 1.5 milhões de Britânicos trocaram o frio, a chuva e o céu cinzento do Reino Unido para viver na Europa Continental. E quem culparia eles por isso? Mesmo assim, os séculos de hostilidades continuam fazendo os britânicos olharem para o continente com um certo ar de desconfiança.

Em poucos meses (David Cameron pretende marcar o referendum para Junho), os Britânicos decidirão o futuro da sua permanência na UE. A decisão de permanecer ou abandonar a UE tera um profundo impacto no futuro da Europa. Assim como foi confusa a campanha no referendum da Escócia, que decidiu permanecer membro do Reino Unido, sera um processo confuso e difícil para os Britânicos conseguirem enxergar além da cortina de fumaça promovida pela campanha dos prós e contras para garantir a atenção e o voto dos eleitores. A campanha de desinformação torna extremamente difícil para o votante saber ao certo quais são os reais pontos positivos e negativos na hora de decidir qual é a melhor alternativa para o país. O nacionalista e anti-União Européia, Nigel Farage, líder do partido Britânico de extrema direita, o UKIP, afirma que a permanência do Reino Unido  na UE significara a perda do controle de fronteiras e parte da sua soberania, ja que muitas Leis são aprovadas pela assembléia Européia em Bruxelas e não pelo Parlamento Britânico em Londres como defende Nigel Farage. Mas, é difícil saber o quanto desta retórica é verdadeira, e o quanto é apenas propaganda inconsequente dos nacionalistas. É importante considerar que vivemos em um mundo globalizado, onde nenhum país tem total controle de sua economia. A economia mundial é interdependente e não possui fronteiras. Sabemos como um calote da Argentina ou a falência de um banco  Americano pode transformar a economia mundial num caldeirão de turbulências. O Reino Unido por exemplo, foi obrigado a autorizar um abono fiscal de £1 bilhão de Libras (R$5.5 bilhões de Reais) para convencer o banco HSBC a mantiver seu escritório central em Londres. A gigante Google, também negociou recentemente, um pagamento de £130 milhões de Libras junto ao governo Britânico, referente aos últimos 10 anos de impostos devidos pela empresa que segundo o líder do partido dos trabalhadores (labour) Jeremy Corbyn, é equivalente a apenas 3% do valor real de impostos devidos pela empresa aos cofres públicos. O governo Britânico também não conseguiu parar a enxurrada de metal Chinês que tem causado um verdadeiro turbilhão no mercado de ferro local causando a falência de empresas Britânicas e a perda de milhares de postos de trabalho. Estes exemplos evidenciam as dificuldades dos países em lidar com problemas econômicos globais que não respeitam fronteiras ou soberania de qualquer país, independente de fazer parte da UE ou não.

A questão da imigração é um problema que preocupa os Britânicos. Mas, até que ponto a participação do Reino Unido na UE e o livre movimento de cidadãos entre os países membros, é realmente um componente importante no problema da imigração no Reino Unido? Segundo Nigel Farage, 450 milhões de Europeus tem livre acesso ao Reino unido, incluindo acesso ao sistema de saúde, pensões e benefícios, o que de fato, é uma afirmação verdadeira apesar de ser uma suposição sensacionalista e irreal acreditar que a população inteira da Europa poderia se mudar para o Reino Unido. Outra evidencia contraditória as afirmações de Nigel farage, é que o Reino Unido não foi afinal, invadido por milhões de Búlgaros e Romenos pobres como o Sr Farage havia previsto que aconteceria logo após a entrada dos dois países na UE. De fato, como comprovou a Radio LBC, apenas 7 cidadãos Romenos entraram no Reino Unido no primeiro dia de movimento livre dos dois países dentro da UE, muito diferente dos números previsto por Nigel Farage. Por outro lado, algumas das maiores comunidades estrangeiras no Reino Unido como por exemplo, as comunidades de Indianos, Africanos, Paquistaneses, Brasileiros, Australianos e Chineses, não fazem parte da UE. Isso nos leva a questionar se o problema da imigração seria realmente um problema causado pela UE ou pelos próprios legisladores do parlamento Britânico em Londres. Não ha duvidas de que a questão da imigração é um problema sério para os Britânicos, mas esta questão não deve ser a questão central na decisão sobre o futuro dos Britânicos na UE.

Pessoalmente, minha maior preocupação não esta diretamente ligado as questões econômicas, soberanas e imigratórias. Minha preocupação esta diretamente ligado as implicações que um possível “desabamento” da UE poderia trazer ao continente Europeu como consequência da saída do Reino Unido da UE. Caso isso ocorra, nenhum país estará seguro. Um possível colapso da UE seria desastroso para o mundo inteiro e mesmo os maiores céticos e anti-UE precisam considerar os riscos de tais consequências. A recente crise na zona do Euro talvez tenha algumas lições para nos ensinar. A questão da Grécia causou grande consternação ao mercado mundial por conta das possíveis consequências da saída do país da UE. No final, a Europa foi obrigada a manter a Grécia na UE por conta dos riscos que a sua saída implicariam. No caso do Reino Unido, as questões e os riscos são infinitamente maiores, mas a decisão final desta vez, estará nas mãos dos Britânicos.  David Cameron pode ter usado o exemplo Grego para acreditar que poderia forçar suas vontades junto ao conselho Europeu. O que Cameron talvez não esperasse, era que a própria UE reconhecesse que o Reino Unido tem muito mais a perder com sua saída da UE do que a Grécia. Por isso o impasse entre a UE e o Reino Unido se parece cada vez mais, com um caso de destruição mútua. O termo destruição mútua, foi usada durante a guerra fria para definir a situação nuclear entre os EUA e a então União Soviética onde ambos os países tinham capacidade de destruir um ao outro em caso de um ataque nuclear. A capacidade de destruição mútua, anula qualquer possibilidade de vitória, ja que em caso de ataque ambos os países seriam totalmente destruídos. No caso da UE e do Reino Unido, as similaridades de autodestruição são diferentes apenas nos meios. Durante a guerra fria, a arma era a bomba atômica. Ja na questão entre UE e o Reino Unido, a arma seria o desastre econômico. A sobrevivência da UE e do Reino Unido esta na capacidade dos dois blocos se manterem unidos dentro da UE. O divórcio seria fatal para ambos os lados. Se a saída do Reino Unido levar a UE ao desastre econômico, é certo que o Reino Unido e possivelmente o mundo inteiro, seja diretamente afetado. Até que ponto o Reino Unido esta preparado a correr este risco? Até que ponto a UE esta preparada a vetar os pedidos de reforma dos Britânicos e arriscar perder a sexta maior economia do mundo? De uma forma ou de outra, tanto o governo Britânico quanto a UE tem um caso de “missão impossível” nas mãos. Convencer os Britânicos a votarem a favor da permanência do país na UE não será tarefa fácil. Resta saber quem irá piscar primeiro.

As complicações econômicas no caso de um colapso da União Européia talvez não sejam as piores das consequências causada por uma possível saída do Reino Unido. O principal motivo que me levará a votar a favor da permanência do Reino Unido na UE, é o mesmo motivo pelo qual a União Européia foi criada. Quando Robert Schuman e Jean Monnet formularam a idéia de uma comunidade européia, o principal objetivo era evitar que a Europa voltasse a entrar em destrutivas guerras novamente. Esse principio, ao meu ver, continua sendo extremamente relevante hoje. Um colapso da UE e um colapso da economia da região causaria graves distúrbios sociais. Desemprego, explosão da pobreza, falência nos sistemas de saúde e previdência social além do encerramento de outros serviços públicos. Os países Europeus acabariam por seguir seus próprios caminhos. Esse cenário seria um prato cheio para grupos de extrema direita incluindo, fascistas e nazista que hoje atuam secretamente em toda a Europa. A possível volta ao poder de grupos radicais colocaria novamente, a estabilidade da Europa em sérios riscos de conflito. Muita gente, incluindo a nova geração de jovens Europeus, não acreditam que o continente poderia volta a guerrear novamente em pleno século 21. Infelizmente, a história prova nossa contrariedade. Vale lembrar que a primeira guerra mundial também foi chamada de “a guerra para por fim a todas as guerras”. As pessoas acreditavam que uma guerra tão terrível seria o suficiente para evitar outras guerras futuras. Porém, apenas uma década depois a Europa iniciava a segunda guerra mundial que foi consequentemente, seguida pela guerra fria. Seria um grande erro acreditarmos que a Europa não seria mais capaz de iniciar um novo conflito armado. Não podemos subestimar a capacidade de grupos extremistas que atuam em toda a Europa, de voltar ao poder. Tudo depende da situação socio/econômico da região. Se a Europa continuar com a UE, mesmo com períodos de instabilidade, não ha riscos de uma nova guerra. Mas, um colapso da UE seguido por uma falência das instituições sócio/econômicas da região colocaria a Europa em uma situação extremamente delicada. É vital que os Europeus e principalmente os Britânicos, entendam que a Europa estará segura com a UE, e a permanência do Reino Unido no bloco econômico é de extrema importância para a manutenção do poder no continente. A decisão de abandonar um projeto que garantiu a Paz na Europa nos últimos 70 anos, me parece uma idéia no mínimo perigosa e irresponsável.

Por outro lado, a permanência do Reino Unido na UE não significa que os Britânicos tenham que aceitar a atual estrutura da união. A UE passa por um momento de instabilidades tanto nas questões econômicas quanto sociais. Reformas são necessárias para tornar a o bloco econômico mais justo e transparente. Se os Britânicos permanecerem na UE, David Cameron precisará fazer todos os esforços para desenvolver um relacionamento mais produtivo e amigável com o restante da Europa. Não é sensato dar continuidade a uma relação que coleciona desconfiança e desinteresse. Ninguém tem nada a ganhar com isso. Indiferente da forma como os Britânicos irão votar no próximo referendum, é vital que argumentos secundários como a imigração e o sistema de benefícios, não tenham mais peso do que argumentos como a segurança do continente como um bloco único. Os Britânicos não estarão votando apenas pelo futuro do seu país mas sim, pelo futuro de toda a Europa. Por isso não ha margens para erro. David Cameron ja sinalizou sua vontade de fazer o referendum no próximo mês de Junho. É certo que este será um mês de muita apreensão no mundo inteiro. Se errarmos o alvo, as consequências poderão ser historicamente desastrosas.

2 thoughts on “Reino Unido e União Européia: Um possível caso de Destruição Mútua

  1. Seu artigo está muito bom, Michael. Parabéns. Vc esta escrevendo cada vez melhor. Cara, enquanto a China e o Japão fazem as pazes, abrindo caminho para estabelecer um possível grande bloco econômico na Ásia, temos, aqui, nossas questões domésticas político-partidárias. Motivação política é um bom argumento para estupidez. Eu não creio na saída do UK da UE. Assim como no caso da Grécia, vai se chegar num acordo. Como vc mesmo colocou, são muitas as implicações. Porém, num mundo de concentração de poder e riqueza, é preciso criar mecanismos para limitar a influência das grandes corporações sobre os governos e o fisco. Falta de escrúpulos e extremismos são uma mistura explosiva.

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