A Humanidade a Caminho da Falência Total

By: Michaell Lange,

London, 11/01/16 –

Na semana passada, imagens de milhares de pessoas sucumbindo a fome em cidades da Síria, chocaram o mundo mais uma vez. As imagens de mulheres e crianças esqueléticas, perambulando esfomeadas pelas ruas da cidade de Madaya na Síria, lembraram os horrores do holocausto na segunda guerra mundial. Um morador da cidade disse a uma equipe de resgate que não havia mais nenhum animal vivo na cidade. Todos os animais, incluindo animais de estimação como gatos e cachorros, foram sacrificados para alimento. Segundo o morador, até  folhas das arvores estava escasso ja que a cidade não recebia entregas de alimentos desde Outubro de 2015. Famílias inteiras sobreviveram comendo mato e grama. Muitas se intoxicaram comendo plantas venenosas. A ONU disse que ao menos 400 pessoas precisam ser evacuadas com urgência para tratamentos vitais. A situação é similar em outras cidades da Síria. Foah e Kefraya estão isoladas desde Março. Estima-se que 20 mil pessoas estejam sem alimentos nas duas cidades. Em Madaya, 40 mil residentes receberam alimentos para duas semanas. A ONU não sabe se conseguira entrar na cidade novamente depois desse prazo. O resultado de situações alarmantes como essa, é uma explosão no numero de refugiados tentando fugir das zonas de guerra, causando uma das maiores crises humanitárias desde o fim da segunda guerra mundial. É inaceitável que após 70 anos do fim da segunda guerra mundial e tantas promessas da ONU e da União Européia no comprometimento de não permitir que esse tipo de catástrofe humana jamais se repetisse, estar, em pleno século 21, permitindo exatamente que  crises humanitárias tão semelhantes ocorram novamente. Somente em 2014, mais de um milhão de refugiados entraram na Europa. Estima-se que 4 mil pessoas tenham perdido a vida somente em naufrágios no Mediterrâneo. Outros 4 milhões de pessoas estão vivendo em situações desumanas em campos de refugiados espalhados por países vizinhos como Líbano, Egito, Turquia e Jordânia. O inverno trouxe temperaturas geladas e muita neve para a região tornando a situação ainda mais desesperadora. As crianças e as mulheres são as que mais sofrem com esta situação.

É difícil imaginar que esse tipo de atrocidade continue acontecendo num mundo tão globalizado e amplamente aceito como civilizado. Mais difícil de compreender é a causa e os responsáveis por toda essa barbárie. EUA, Reino Unido, França e Russia continuam sendo os mesmos suspeitos pela desestabilização de países e regiões causando tragédias humanitárias irreversíveis. Os mesmos velhos causadores de problemas, de guerras, genocídios, êxodos e destruição em massa de cidades, países, comunidades e seres humanos. É extremamente contraditório que estes mesmos países tentem vender a imagem de que países como Coréia do Norte, Cuba, Iran e China são as grandes ameaças para a Paz no mundo. Não é apenas contraditório, é um verdadeiro absurdo! Como isso ainda pode ser possível? Que tipo de interesse diabólico poderia estar por trás destas atrocidades?

O ser humano viveu um longo processo de desenvolvimento para uma consciência humana que nos permitiu viver em sociedade e em comunidade. Não bastaram as barbáries das cruzadas, da inquisição, os horrores de duas grandes guerras mundiais, e os genocídios durante a guerra fria. Parece-me que o ser humano, continua com uma incrível dificuldade de aprender com a história, seja ela antiga ou mais recente. O século 20 deixou um vasto histórico de devastação e sofrimento para humanidade que não pode ser esquecido. Esquecer o passado é abrir as portas para repetição dos mesmos erros no futuro. A virada do milênio chegou com grande esperança de mudanças nas questões humanitárias e promessas de Paz e desenvolvimento. Porém, os primeiros 15 anos do novo milênio ja demonstraram terem sido tão ou mais trágicos do que os primeiros 15 anos do século 20. De 2000 a 2015, assistimos aos atentados terroristas de 9 de Setembro de 2001, a invasão do Afeganistão em 2002, a invasão do Iraque em 2003, os atentados em Madrid em 2004, os atentados terroristas em Londres em 2005 além de duas guerras (Iraque e Afeganistão) que duraram mais de uma década, resultando em mais de 1 milhão de civis mortos, milhões de desalojados, dois países em ruínas e um vácuo no sistema governamental que tornou possível o surgimento de grupos terroristas como o Estado Islâmico. Isso tudo sem citar o conflito na Ucrânia e os conflitos em países da Africa como no Sudão e na Nigéria.

Como é possível um grupo, sem treinamento de guerra, sem logística e estratégia de ação, armados com um punhado de armas velhas, atirando para todos os lados, como é o estado islâmico, pode ser capaz de causar tanto caos e desgraça e ainda bater de frente contra uma coalisão militar formada por ninguém menos que EUA, França e Reino Unido? Ou será que não existe interesse destas super potências em acabar com a confusão que existe hoje no Oriente médio? Como é possível condenarem as atrocidades cometidas contra civis em Paris e praticarem atrocidades ainda maiores contra civis em outros países que diferentemente de Paris, envolvem a morte de centenas de crianças? Quem realmente são estes líderes Ocidentais e quais são seus verdadeiros planos? Não é possível e muito menos aceitável, que a comunidade internacional esteja assistindo a estas atrocidades sem fazer absolutamente nada a respeito. Bombas produzidas com tecnologia de ponta e financiadas com verbas públicas, estão explodindo crianças indefesas no Oriente Médio e no Norte da África e isso parece ser aceitável dentro da comunidade internacional. Qual a legitimidade destes atos? Quem irá julgar estes crimes contra a humanidade? Quem será responsabilizado pelas vidas de tantos inocentes assassinados de forma tão cruel?

Quando se pensava-se que novas tecnologias e a globalização trariam desenvolvimento e estabilidade ao mundo, percebemos de forma dramática, que o resultado foi exatamente o contrário. Descobrimos que os recursos do planeta são limitados e que a globalização iniciou uma corrida desesperada pelo controle de recursos naturais. Esse processo colocou países sub-desenvolvidos sob extrema pressão internacional. Países populosos estão sendo explorados por uma busca descontrolada e infinita de produzir produtos e serviços cada vez mais baratos, levando populações inteiras a trabalharem mais por menos. Um estudo publicado pela ONU em 2014 denunciou uma explosão no número de trabalhadores escravos no mundo. Estima-se que existam mais de 35 milhões de escravos em todo mundo hoje. Um número muito maior do que quando a escravidão era legalizada. É praticamente impossível que você nunca tenha comprado algo que tenha sido produzido por escravos.

Enquanto isso na Europa, a mídia Britânica, denuncia o ataque Russo na Síria, que matou 10 crianças em uma escola na Síria. A Russia responde dizendo que esta atacando apenas bases rebeldes do Estado Islâmico. A mídia Russa, denuncia ataques Britânico na cidade Síria de Raqqa, teria matado mulheres e crianças. Os Britânico respondem dizendo que não ha evidencias de civis mortos em seus ataques. A mesma mídia, denuncia ataques da Arabia Saudita a um hospital da Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Yemen. Mas a Arábia Saudita responde dizendo que esta combatendo apenas os rebeldes terroristas do Yemen. A Al Jazeera, denuncia os civis mortos por aviões de guerra da França, mas a França afirma que apenas os terroristas são alvos dos seus ataques. Agora, populações inteiras de civis estão morrendo de fome por conta dos bloqueios militares na região. É interessante que todos os envolvidos no conflito afirmam que estão combatendo apenas alvos “terroristas”. Ninguém assume a responsabilidade sobre a morte de milhões de civis inocentes e a destruição sistemática da infra-estrutura de países como a Síria, Líbia, Iraque, Afeganistão e Ucrânia. A Europa do final da segunda guerra mundial levou três décadas para recuperar sua infra-estrutura destruída durante a guerra, isso, com apoio financeiro Americano. Quais são as chances destes países do Norte da Africa e do Oriente Médio voltarem a ter a estabilidade que tinham antes da invasão do Iraque em 2003?

Muita coisa mudou nas estratégias de guerra desde as trincheiras da primeira guerra mundial até os atuais drones (aviões de guerra não tripulados), usados em combates, principalmente pelos EUA e Reino Unido. Mas,  as vitimas continuam sendo as mesmas, mulheres e crianças continuam sendo as maiores vitimas das guerras. De fato, a evolução nas tecnologias e estratégias de guerra, que deveriam contribuir com a segurança da população civil, tornou os conflitos armados ainda mais nocivos aos inocentes em áreas de conflitos. Nem mesmo mísseis com quase 100% de precisão, são capazes de evitar o numero crescente de vitimas civis, principalmente quando os alvos envolvem áreas densamente populosas como vem ocorrendo no Iraque e na Síria e quando a morte de civis não envolvam Europeus ou Norte Americanos.

A convenção de Genebra, retificada em 1949 determinou entre outras leis internacionais, a proibição de ataques deliberados ou indiscriminado a populações civis. Infelizmente, EUA, Israel, Iran, Paquistão, India e Turquia, se recusaram a assinar o documento, ação esta, que isenta tais países de respeitar as Leis retificadas pela convenção a partir de 1949 . Apesar destes países não serem obrigados a seguir Leis internacionais, a responsabilidade moral junto a comunidade internacional é inevitável e irrecusável. A única justificativa plausível de países como EUA e Israel, de se recusarem a assinarem um protocolo que proíbe ataques indiscriminados a civis, é a aceitação declarada de que as políticas internacionais de ambos os países inclui de forma explicita, a possibilidade do uso de força letal contra alvos civis. Isso por si só é algo extraordinariamente absurda, especialmente por se tratar de EUA e Israel. Seria compreensível se a recusa viesse de países como a China e a Coreia do Norte, mas não foram eles, foram exatamente países que costumam adotar posturas de bom samaritano. Estes mesmos países, incluindo a China, votaram contra a criação da “International Criminal Court” (ICC), durante a convenção da ONU em Roma em 1988  para processar e julgar crimes de genocídios, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. O que levou um país como Israel, vitima do holocausto nazista, a votar contra a criação de um tribunal internacional para julgar crimes como o holocausto cometidos contra os Judeus na segunda guerra mundial, é um grande mistério e algo difícil de compreender.

O que esta claro nestes primeiros 15 anos do terceiro milênio é que, a humanidade caminha a passos largos na direção de um abismo sem volta. Não é pessimismo afirmar que a humanidade falhou de forma desastrosa em reconhecer e reverter seu instinto auto destrutivo. Talvez tenha sido esta, a razão de terem nos colocado num planeta não pequeno em relação ao resto do universo. Nossos valores “humanos” nunca foram tão contraditórios com relação as nossas atitudes e nossa realidade. Nossa responsabilidade com o próximo, o respeito com nosso planeta e com os outros seres vivos que aqui habitam, não fazem parte do nosso dia-a-dia. São apenas teorias que os outros devem seguir, nunca a gente. Somos nossos próprios inimigos, e quem precisa de inimigo pior? Pode parecer uma idéia maluca, mas se a humanidade é incapaz de conviver em harmonia num planeta tão generoso como o nosso, é certo que não merecemos mais espaço do que ja temos. A próxima teoria humana a ser desmentida será aquela que afirma que somos seres racionais e os animais são seres irracionais. Vivendo o caos que a humanidade vive hoje em quase todos os aspectos, quem se arriscaria a defender o argumento de que somos seres racionais e inteligentes?

 

1 milhão de crianças Sírias vivem hoje em campos de refugiados. Muitas delas são órfãos de pai e mãe, vitimas da violência, vitimas da falência da humanidade…https://www.youtube.com/watch?v=OjuHRkF2cmA

 

One thought on “A Humanidade a Caminho da Falência Total

  1. E, meu amigo…gostaria de me sentir seguro de ter uma velhice tranquila, mas parece q nao vai rolar. E preciso enriquecer cada vez mais os mais ricos e achatar cada vez mais as massas manobráveis. Conflitos e destruição sao bons apenas para aqueles encastelados. E lamentável que alguns poucos, em troca de alguns privilégios, sejam responsáveis pelo sofrimento de todo um planeta.

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