Mensagem De Final De Ano Com Espinho

By: Michaell Lange,

London, 23/12/15 –

Mais um final de ano chega com a mesma rapidez com que os meses desaparecem no passado esquecido e sem interesse. O objetivo desse artigo não é trazer uma mensagem de Natal ou promover falso otimismo. Meu objetivo aqui é alertar o leitor a desenvolver uma capacidade mais apurada de reconhecer a atual situação da sociedade em que vivemos e perceber a importância do seu papel social na manutenção da nossa sociedade.

As luzes de Natal, as musicas natalinas e as festas de final de ano, nos garantem a sensação ilusória de que as pessoas estão felizes e de que tudo esta bem em nosso minúsculo planeta. Um exército de pessoas sem dinheiro, invadem as lojas para garantir as dividas para 0 ano novo que se aproxima rapidamente. A musica alta, o toque constante dos sinos, nos tornam uma espécie de zumbis enfurecidos ou vampiros com sede de compras. A felicidade parece precisar de um cartão de credito para ser feliz. Comprar, se tornou nosso refugio contra a doença social. É a droga que alivia a infelicidade do deprimido. Não temos mais tempo para viver e mesmo assim, continuamos sem dinheiro e sem felicidade. A felicidade foi substituída pela prioridade financeira, mas não acredito que somos todos culpados. Muitas pessoas são tão inocentes que vivem a vida inteira sem perceber que sua vida foi usada e abusada por terceiros, para o beneficio único e exclusivo de terceiros. Compulsivamente, compramos tudo que queremos para pagar depois, porque tudo se resolve depois. Essa é a mentalidade que vende nosso futuro sem ao menos termos vivido o presente.

Eu também sinto essa nostalgia altamente contagiante de final de ano. Também sinto vontade de comprar, mesmo sem dinheiro. Sou parte dessa cultura, sou parte do problema da minha sociedade e parte do problema do meu minúsculo planeta. Eu também sinto a injeção de otimismo e vibração positiva, mas a realidade que vejo ao meu redor não me deixa em Paz nem por um minuto. Talvez eu consiga ver através dos olhos das pessoas e de seus sorrisos, mesmo sem querer, que todo o entusiasmo de final de ano é apenas uma fuga ou um refugio onde as pessoas encontram uma oportunidade de se sentir deslocadas da realidade diária de suas vidas e se sentirem felizes ao menos uma vez no ano, mesmo que seja apenas por um momento. Por mais que eu seja feliz de fato, não consigo evitar um certo sentimento de culpa por ter alcançado algo que a maioria das pessoas nem sabem ao certo, o verdadeiro significado . Confundimos felicidade com alegria, satisfação e prazer. Comprar um carro não é felicidade, é satisfação. Encontrar amigos e parentes não é felicidade, é alegria. Um orgasmo não é felicidade, é apenas prazer. Alegria, satisfação e prazer são sentimentos intensos mas duram pouco e logo desaparecem. O carro novo deixa de ser uma satisfação algumas semanas depois. O encontro com amigos e parentes dura apenas algumas horas, depois, cada um segue sua vida. O prazer de um orgasmo não vai além de 10 segundos e isso não pode ser confundido com felicidade. Felicidade é algo menos intenso, mas é duradouro porque faz parte do seu centro de equilíbrio. Essa linha imaginária só pode ser criada por você, mesmo que a maioria das pessoas prefiram deixar esse trabalho nas mãos de outras pessoas que nem sempre tem a sua felicidade como prioridade. Dessa forma, milhões de pessoas vivem a vida em busca de uma felicidade sem nem ao menos saberem o que é isso. Não é possível encontrar algo se você não sabe o que esta procurando. A percepção destes problemas me faz sentir culpa de ser feliz. Como manter minha felicidade com tanta infelicidade a minha volta?

Nesta época do ano fico a me questionar sobre o que fiz durante os últimos 12 meses para melhorar o mundo em que eu vivo, e quase sempre chego a mesma conclusão de que, fiz quase nada ou muito pouco. Certamente, menos do que poderia ter feito. Com exceção do meu comportamento, que acredito ser normal, apesar de que hoje em dia, promover o bem, procurar ser justo, honesto, imparcial, e não cometer crime, seja visto pela sociedade como algo extraordinário, acho que fiz muito pouco para ajudar as pessoas que dividem esse mundo junto comigo. Mais uma vez fui parcialmente carregado pela onda descontrolada do condicionamento social.

Talvez, uma justificativa plausível para essa inércia humana promovida contra si mesma, seja o resultado do nosso atual estilo de vida, ou sera que deveríamos chamar isso de, “nível patológico” em que nos encontramos hoje? Sim, porque vivemos em uma espécie de “survival mode” onde o objetivo principal é sair de casa cedo e conseguir retornar vivo, se possível, com um pouco de dinheiro para pagar as contas que não param de chegar. Vivemos uma corrida impossível de ser vencida, com exceção daqueles 1%.  Essa realidade de sobrevivência é perceptível aqui no Reino Unido e no Brasil e muito provavelmente, reflete a realidade do mundo inteiro. As pessoas não saem de casa para viver e serem felizes, e colaborarem com a sociedade, e serem boas para as pessoas, serem cordiais, serem gentis e ajudarem-se de uma forma a tornar a sociedade em que vivemos um lugar melhor para se viver. O instinto de sobrevivência não permite esse tipo de comportamento. Tudo passa a ser uma ameaça a sua segurança e a sua sobrevivência. Se alguém oferece ajuda na rua, logo pensamos que a outra pessoa quer algo em troca, ou quer roubar, ou fazer algo de mal. A sociedade que vive em estado de alerta máximo, vive com medo e se torna incapaz de ser feliz. Torna-se vitima de si mesma. Mas, é certo afirmar que ainda existam lugares onde ainda ha espaço para cordialidade, gentileza e confiança no próximo. O próprio Reino Unido ainda é um exemplo disso. Até no Brasil ainda é possível encontrar lugares assim. O problema é que estes lugares estão ficando cada dia mais escassos e eu não vejo luz no fim do túnel. Por isso, no final do ano todo mundo procura ser “feliz”. Criamos estas datas para reflexão e renovação mas, a verdade é que não refletimos e não renovamos nada além da própria continuidade do que ja esta estabelecido, mesmo que seja dura e infeliz. O Natal virou sinônimo de consumismo, de festas e férias. O Cristo e seus ensinamentos viraram supérfluos. Você conhece alguém que reflete sobre suas atitudes nos últimos 12 meses e planeja melhorar nos próximos 12 meses que vem pela frente?

Passamos a viver muito menos. Passamos a viver apenas o Domingo, o feriado, o Natal e o 31 de Dezembro. Mas, estas datas poderiam ser usadas para o exercício da nossa participação social e sanidade mental todos os dias. Se você acordou de mal humor, o meio dia é o seu 31 de Dezembro porque o restante do dia sera melhor. Se a semana foi ruim, o Domingo é o seu 31 de Dezembro, porque a semana que vem vai ser melhor. Se o mês foi ruim, o final do mês é o seu 31 de Dezembro porque o mês que vem vai ser melhor. Esse exercício diário de renovação pode nos dar a cura para nossa grave doença social. O mesmo otimismo contagiante de final de ano que invade nossas casas todos os anos, mesmo quando não ha muito a ser comemorado, pode passar a ser um sentimento compartilhado diariamente nas ruas das nossas cidades. Mas sera que estamos pensando no que fizemos de errado ou o que não fizemos corretamente no passado? Como tornaremos possível que o resto do dia seja melhor, que a semana que vem seja melhor, que o mês que vem seja melhor e que por consequência, o ano que vem seja melhor?

O que percebo é que cometemos os mesmo erros todos os anos e assumimos num ato de fé, que esse período de final de ano irá nos trazer renovações e mudanças como um presente de Deus, sem precisarmos fazer nenhum esforço, sem a necessidade de reflexão sobre nossas atitudes passadas, sem o planejamento e o compromisso de sermos pessoas melhores no dia seguinte. Essa ilusão esta matando a sociedade humana. Não é possível ser feliz e viver em Paz em sociedade tendo um comportamento egoísta e individualista. A vida em sociedade necessita de um senso de comunidade onde as pessoas compartilham o bem em favor do coletivo. Não existe sociedade de uma pessoa só. Não existe sociedade onde apenas um sócio assume todas as responsabilidades dos outros sócios. Somos todos sócios da cidade que vivemos, somos sócios do estado e do país em que vivemos e somos todos sócios deste minúsculo planeta em que habitamos.

Por isso, meu feliz Natal deste ano leva consigo um espinho com a intensão de fazer as pessoas acordarem para a importância da sua participação na vida das pessoas que junto com a gente, são sócias da nossa cidade e influenciam na nossa felicidade. Meu feliz Natal leva um alerta importante. Não temos o controle de todas as coisas, mas temos o controle sobre nossas atitudes, sobre aquilo que escrevemos, sobre as palavras que falamos. Temos o controle sobre nosso comportamento e sobre as coisas que promovemos. Se nesse ano que se aproxima, todos nós assumirmos nossas responsabilidades sociais, eu tenho certeza que 2016 sera um ano melhor que 2015. Mas isso não depende do governos nem de políticos. Isso só depende de você. Se você se comprometer em ser uma pessoa melhor em 2016, o Brasil sera sem dúvidas, um lugar melhor para se viver em 2016. Feliz Natal a todos e um excelente 2016 a todos os sócios da nossa sociedade.

 

Ser Um Brasileiro De Verdade

By: Michaell Lange,

London, 18/12/15 –

No ultimo artigo deste blog denominado “Sera que somos realmente Brasileiros com muito orgulho e muito amor?”, meu principal argumento foi questionar se realmente somos o que costumamos dizer que somos, ou seja, Brasileiros de verdade.  Esta semana porem, alguns Brasileiros de verdade parecem ter dado a resposta aos meus questionamentos sobre nossa legitimidade sobre nossa verdadeira nacionalidade.

A 13 anos morando aqui na Europa, confesso estar sempre a procura de justificativas para sentir orgulho de ser Brasileiro e confesso que muitas vezes tive dificuldades para encontrar motivos. Nosso governo, nossa policia, nossa justiça, nossa saúde, educação e até nosso povo, não são, infelizmente, motivos de orgulho para sermos Brasileiros. Tudo bem, eu sei que muita gente vai encontrar razões para criticar minha postura falando aqui de fora, como se isso parecesse fácil. Mas, eu sou Brasileiro e me importo muito com a vida dos Brasileiros e reservo meu direito de criticar, as vezes veemente, minhas próprias raízes, minha própria gente, minha própria terra. Os motivos para não ter orgulho de ser Brasileiro são infinitamente e infelizmente, maiores do que os motivos para termos orgulho de ter nascido nessa terra de gigantes. Digo gigantes porque temos a maior floresta tropical do mundo, a maior reserva de água potável do mundo, um território de belezas naturais sem igual. Mas, por mais orgulho que isso nos traga devo dizer que somos os grandes responsáveis pela destruição de toda essa grandiosidade que o universo nos deu de presente. Mas também temos outros gigantes, que sem dúvidas temos todos os direitos para nos orgulhar. Escritores, romancistas, músicos, pensadores e esportistas que poderíamos passar dias falando sobre suas vidas, trabalhos e conquistas. Foram e são, Brasileiros de verdade, que trazem orgulho e nos dão esperança em meio a tanta turbulência e dificuldades vividas por milhões de Brasileiros todos os dias.

Esta semana alguns destes verdadeiros Brasileiros me fizeram pensar muito sobre como nossa sociedade poderia se beneficiar dos exemplos dados por estas pessoas que diariamente são o Brasil que todos nós sonhamos ser.

O tenista Gustavo Kuerten, que é um grande herói nacional e um Brasileiro de verdade dentro e fora das quadras, fez um apelo emocionado aos políticos Brasileiros esta semana ao receber o prêmio Adhemar Ferreira da Silva. “Eu clamo aos nossos representantes, a quem esta no governo do nosso país e todos do poder público, a quem comanda o nosso país, que olhem para dentro desta sala e vejam as pessoas que estão aqui e se espelhem. Por favor, sejam justos, sejam honestos, sejam Brasileiros de verdade. Esqueçam um pouco o partido, a panelinha, a própria pessoa e lutem pelo Brasil por favor”, disse o nosso Guga, contendo as lágrimas. O recado do tenista, apesar de ter sido direcionado aos políticos, deve ser recebido por cada Brasileiro que deseja um Brasil mais justo e honesto para todos. O Brasil do Guga existe porque ele adotou esse Brasil e faz dele um exercício diário de boas ações e boas atitudes. É importante nos questionarmos por que somos capazes de admirar tanto nossos talentosos Brasileiros e ao mesmo tempo sermos incapazes de seguir seus exemplos?

Ainda esta semana, outros dois super heróis do esporte Brasileiro deixaram sua marca e mostraram ao mundo a força e o poder de superação do povo Brasileiro. Adriano de Souza, o Mineirinho, e Gabriel Medina, fizeram história no surf mundial. Gabriel Medina que foi o primeiro campeão mundial de surf do Brasil no ano passado, inspirou o movimento que ficou conhecido no mundo do surf como o “Brazilian Storm” ou, a Tempestade Brasileira. De Souza, seguiu os passos de Medina e consagrou-se campeão mundial de surf além de garantir o titulo inédito do  Pipemaster, a etapa mais tradicional do surf mundial, ao vencer Gabriel Medina numa final 100% Brasileira no Hawaii, uma conquista também inédita. Com o segundo lugar no Pipemasters, Medina garantiu um outro titulo inédito para o surf Brasileiro, a Tríplice Coroa Havaiana de surf. A equipe Brasileira de surf ou, a família, como preferem ser conhecidos por causa da união entre os atletas, ganharam tudo esse ano. Além do campeonato mundial, fomos campeões da Tríplice Coroa Havaiana, campeões do Pipemasters, campeões da segunda divisão mundial de surf e o titulo de melhor novato do ano.  Adriano De Souza dedicou o titulo ao seu grande amigo Ricardo dos Santos, que foi covardemente assassinado a tiros por um Policial Militar embriagado em frente a sua casa na praia da Guarda do Embaú no verão passado. De Souza também dedicou a taça de campeão mundial a seu irmão mais velho, e disse emocionado logo após o titulo, que seu irmão lhe deu a primeira prancha de surf na qual pagou R$30 Reais, dinheiro que na época seu irmão não tinha. De Souza disse que aqueles R$30 Reais mudaram sua vida e graças aquela atitude do irmão, de Souza pode ganhar esse titulo mundial para o Brasil.

O que me impressiona na história destes atletas é sem dúvidas, a capacidade de superação das dificuldades. Esta Tempestade Brasileira no circuito mundial de surf não é o resultado de nenhum programa ou projeto esportivo promovido por alguma instituição do governo Brasileiro. Esta tempestade foi criada pela paixão e pela vontade de vencer destes Brasileiros. De Souza, ja teve um troféu e suas pranchas apreendidas pela alfandega Brasileira mais de uma vez, algo que nunca aconteceu em nenhum outro país estrangeiro por onde o atleta visitou. Mesmo assim, De Souza e os outros Brasileiros nunca deixaram de representar o Brasil no exterior da melhor forma possível. A bandeira Brasileira esta sempre no palanque de premiação junto aos atletas. Muitos deles correm o circuito sem patrocínios ou apoio. Seguem na pura raça de representar o Brasil e vencer por seu país. Mas por que não nos inspiramos mais nestes verdadeiros guerreiros para construirmos um Brasil de Medinas, De Souzas e Kuertens? Nossos atletas competem com atletas estrangeiros que crescem sem preocupação financeira além de receberem apoio físico e psicológico desde cedo. Mesmo assim, nossos atletas conseguem superar todas as dificuldade para levantar a bandeira do Brasil no topo do pódio.

Além dos atletas, o Brasil certamente tem milhares de outros Brasileiros de verdade que anonimamente fazem do Brasil um país mais justo e mais sério para todos. São professores, médicos e outros profissionais que dedicam suas vidas a fazer do Brasil um país melhor para se viver. Pessoalmente, tenho ao menos dois amigos que me inspiram por serem Brasileiros de verdade. Fernando Ziegler, o Tibí, e William Wollinger Brenuvida, são duas pessoas que vivem para fazer o bem da comunidade em que vivem. Além de salvarem vidas, inspiram crianças e adultos pelas atitudes e pelo trabalho que fazem por nossa comunidade. São eles ao meu ver, duas importantes instituições da nossa sociedade que junto a outros tantos anônimos espalhados pelo Brasil afora, multiplicam a grandiosidade do Brasil que todos os Brasileiros sonham em viver um dia.

Talvez o Brasileiro devesse seguir o conselho dado por Guga Kuerten e seguir os exemplos destes Brasileiros de verdade, e passarem a ser também, verdadeiramente Brasileiros com muito orgulho e muito amor. Mas, essa transformação não pode ocorrer em âmbito institucional, não temos tempo para esperar por um milagre no sistema de educação. Esta mudança precisa ocorrer no âmbito individual com a mudança de atitude de cada Brasileiro. Quem sabe assim, um dia poderemos ter um Brasil formado exclusivamente de Medinas, De Souzas e Kuertens e então, poderemos todos ter orgulho verdadeiro de sermos Brasileiros de verdade.

De Souza Campeão Mundial

Mensagem do Guga

 

Sera Que Realmente Somos Brasileiros Com Muito Orgulho e Com Muito Amor?

By: Michaell Lange,

London, 15/12/15 –

Uma analise rápida sobre a atual situação da sociedade Brasileira revela um povo doente, triste, sofrido e perseguido. Mas essa perseguição e estes ataques, ao contrario do que vem sofrendo o Oriente Médio, não são oriundos de países estrangeiros e historicamente imperialistas como o Reino Unido, França e EUA. O Brasil e o povo Brasileiro sofre um ataque de dentro para fora, um ataque contra si próprio. Um ciclo autodestrutivo que parece não ter fim. Alguns analistas políticos falam em risco de guerra civil, e esse risco não é fictício, ele existe, mas vivemos ja a algum tempo uma guerra não declarada porque seria complicado defini-la, pois ao que parece, estamos todos lutando contra todos e todos unidos contra o país que todos se declaram amar, mas não amam. A verdade é que nós, Brasileiros, não amamos ninguém se não a si próprios e por isso, não precisamos de inimigos externos, somos nossos piores inimigos.

A sociedade Brasileira segue a mesma estrutura, deficiente em partes, encontrada na grande maioria das sociedades democráticas existentes hoje ao redor do mundo. Podemos dividir essa estrutura em algumas partes principais que deveriam ter a função única e exclusiva de servir e garantir o desenvolvimento e o bem estar dos habitantes da nossa sociedade. Nela encontram-se as duas instituições principais, o povo e o governo. O governo se subdivide em outras várias instituições que deveriam ser sociais, mas infelizmente são apenas sociais no papel. A policia é uma instituição importante. O sistema de educação e saúde são outras duas instituições fundamentais dentro de uma sociedade democrática. O povo é, ao menos no papel, o verdadeiro dono de tudo, tanto do governo, quanto dos poderes e de tudo que existe no território nacional e se compromete a cumprir suas responsabilidades e obrigações para que todo restante da estrutura social possa servi-lo da melhor forma possível. Mas no Brasil, como sabemos, nada disso funciona.

O Brasileiro esta nas mãos dessa gente que se dizem autoridades, mas não são. Autoridades respeitam as Leis, lideram pelo exemplo, conhecem seu papel social e suas responsabilidades com a sociedade e seus cidadãos. A PM, o Regime Militar, não representa estes valores. De fato, a PM é o inverso, é tudo aquilo que deveria ter acabado em 1985 e não acabou. O povão, aqui representando uma subdivisão da população, composta por pobres e negros, é refém destas instituições, salvo aqueles que conseguem se vestir bem e disfarçar-se de “cidadão de bem”, ou aquilo que é sub-entendido por “cidadão de bem”, porque esse conceito é apenas mais um dos vários conceitos errados que temos como certo em nossa sociedade. Essa camuflagem (da boa vestimenta), confunde a policia, porque se enquadra na definição militar de “cidadãos de bem” ou seja, todas aquelas pessoas que não sejam pobres e de cor, caso contrário estarão vulneráveis aos abusos dos bandidos, incluindo os fardados, engravatados e “togados”. O governo, que deveria ser o grande soldado protetor do povo e da nação, se divide em grupos que merecem mais serem chamados de milícias do que qualquer outro substantivo honroso e nobre. São exatamente o contrário disso. Desonrados e imorais, envergonham a todos internacionalmente. Nos roubam, nos enganam, nos exploram, nos limitam a capacidade do desenvolvimento humano e econômico e nos mantém sob a vigília atenta e inescrupulosa da tropa de choque. Ai de quem reclamar! Nos hospitais, a falta de tudo. Nas escolas, a ausência da sabedoria. Nas ruas, a ameaça e o medo. E a Tropa de choque sempre atenta a qualquer sinal de rebeldia.

O povo, se torna vítima de si mesmo. O cidadão comum, não consegue passar pela Polícia Militar. Os autoentitulados cidadãos de bem, com maior poder aquisitivo, protestam de forma inteligente em favor da democracia, batendo panelas nas janelas de seus apartamentos de luxo pedindo a saída de um governo democraticamente eleito. No topo desse movimento democrático anti-democracia, esta um militar democraticamente eleito que faz parte de uma instituição responsável por duas décadas de ditadura. Tem um lema populista, “bandido bom é bandido morto”, mas é afiliado a um dos partidos políticos mais corruptos do Brasil e apoia cegamente um bandido que esconde dinheiro público roubado em contas secretas na Suíça. Dizem querer seu país de volta, que ironicamente é aquele criado pelo mesmo partido que esta no governo e cuja o desenvolvimento record do país deixou ricos e pobres satisfeitos por mais de 10 anos. Mas, nem tudo esta errado nos protestos dos “cidadãos de Bem”. A presidente entrou para a história como a mais incompetente de todos os presidentes da história Brasileira. Demonstrou e continua demonstrando total incapacidade de controlar a fúria e a ganância de poder da oposição. Foi e continua sendo incapaz de negociar acordos com o Congresso Nacional, (que por sinal é presidido por um bandido, que segundo o deputado militar deveria estar morto), para fazer o país voltar a caminhar. É incapaz de liderar as instituições do governo para cumprirem suas responsabilidades com a sociedade, e para piorar sua situação ainda faz parte de um partido político dominado por corruptos e bandidos tão perigosos quanto os partidos que tentam lhe tomar o poder.

O grande fator em comum entre todos os envolvidos nesta sociedade, seja o cidadão, as instituições, e o governo, é um só. Todos, sem exceção, são Brasileiros, nascidos e criados no território nacional. Todos, eu, você e eles, declaram amor incondicional a patria, a nação, ao país ou seja la como queiram chamar esse pedaço gigantesco de terra chamado Brasil. É impossível amar algo sem desejar o bem. Observando aqui de fora o que menos se vê é amor. O que mais se vê é interesse próprio numa terra sem dono e sem Lei. A grande verdade é que o Brasileiro não ama o Brasil. O Brasileiro ama a si próprio e ninguém mais. Adotamos um nacionalismo tolo que arruma a casa para receber a visita de fora, mas não se importa em viver no lixeiro. Quem ama cuida, respeita, se importa, colabora, faz parte, melhora, quer ver bem, quer ver feliz, não explora, não suja, não rouba, não engana, é justo, não é violento, é serio, é honesto. Será que nós Brasileiros realmente amamos o Brasil? Será que o policial pensa no bem do país quando agride o estudante, o professor, o trabalhador? Será que o político ama o Brasil quando negocia propina, desvio de dinheiro público, facilitações para amigos e parentes? Será que o cidadão ama o Brasil quando joga lixo nas ruas, quando agride física e verbalmente outro Brasileiro? Será que amamos o Brasil quando vendemos o voto, quando promovemos o racismo, a intolerância e a discriminação contra nossos próprios conterrâneos? Será que amamos o Brasil quando furamos a fila, quando damos o troco errado, quando não cedemos nosso lugar para alguém que precise mais do a gente? Afinal de contas, o que é o Brasil que você diz amar? Somente os verdadeiros Brasileiros saberão responder estas perguntas, mas será que você é um deles? Será que realmente somos Brasileiros, com muito orgulho e muito amor???

Rosa Parks: O Poder Da Atitude

By: Michaell Lange,

London, 01/12/15 –

A exatos 60 anos, Rosa Parks, uma Americana negra, da cidade de Montgomery no estado do Alabama nos EUA, tomou uma atitude que mudou a história do seu país. No dia 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar para um homem branco que havia acabado de entrar no ônibus em que ela estava. Em 1955 uma Lei obrigava que todos os negros dessem seu assento caso uma pessoa branca entrasse no ônibus. Naquele dia, Rosa Parks resolveu lutar por seus direitos e disse não. Rosa foi presa imediatamente e dias depois foi levada para a corte onde foi condenada a pagar uma multa. Mas, Rosa Parks ja lutava a muito tempo pelos direitos dos negros. Era membro de longa data da NAACP – National Association For The Advancement Of Colored People. Depois do incidente, vários protestos foram organizados na cidade incluindo boicotes aos ônibus segregados. Uma nova organização foi fundada e recebeu o nome de Montgomery Improvement Association ou MIA. Os organizadores precisavam de um líder que fosse um bom orador para conseguir passar a mensagem para o publico com o máximo de impacto possível. O escolhido foi um pastor pouco conhecido que havia chegado na cidade a pouco tempo. Seu nome era Dr Matin Luther King Jr., Rosa teria dito que ele teria sido escolhido por ser novo e ainda não ter nenhum inimigo na cidade.

Os boicotes promovidos pela MIA e NAACP deram certo ja que 75% dos usuários dos ônibus em Montgomery eram negros. Por 381 dias os boicotes arruinaram os lucros das empresas de ônibus da cidade. Rosa perdeu seu emprego e Martin Luther King teve sua casa atacada por vândalos. Em 1956, uma corte do Alabama declarou que a segregação nos ônibus era ilegal pois, feria a constituição federal em seu artigo 14.

O racismo nos EUA sempre foi, desde sua formação, um problema com raízes profundas na sociedade Americana. Afinal, o país havia sido criado por um grupo de proprietários de escravos que afirmavam que todos homens nasciam com direitos iguais, nada poderia ser mais contraditório. A segregação era aceita como algo natural na sociedade Americana, pelo menos na mente dos brancos daquele país. A segregação também era Lei dentro dos ônibus escolares onde os negros só podiam sentar-se nos fundos dos ônibus. Apesar de um mandato judicial da suprema corte Americana ter banido a segregação nas escolas em 1952, muitas escolas do país não aceitavam crianças negras até o final da década de 50. A supremacia Branca era regularizada nos EUA. Mesmo tendo o direito a voto garantido pela constituição federal desde 1870, os negros só puderam votar sem restrições no país, a partir da  segunda metade dos anos 60, depois que a suprema corte Americana derrubou as restrições impostas para que negros tivessem o direito ao voto.

O Brasil pode aprender muitas lições com a atitude desta corajosa Americana. Eu costumo dizer, e ja citei em vários artigos anteriores, que a mudança do Brasil depende fundamentalmente da mudança de atitude dos Brasileiros. É vital que os Brasileiros, dentro da sua individualidade, dentro do seu modo de pensar, comece a modificar o conjunto das suas atitudes diárias para que estas atitudes possam iniciar uma transformação que viabilize o Brasil que todos os Brasileiros desejam. Rosa Parks provou o quanto isso foi importante para a história das lutas por direitos nos EUA. Uma atitude dentro de um ônibus de uma pequena cidade no interior dos EUA, teve o poder de transformar e influenciar o modo de pensar e de agir não apenas do seu país, mas de todo o mundo. Sua atitude continua a ser lembrada e comemorada 60 anos depois. Certamente, esse exemplo não pode ser ignorado por um país como o Brasil que tanto precisa de exemplos e referencias na sua longa busca por uma sociedade mais justa e igual para todos. A lei determinava que ela, por ser negra deveria ceder seu assento para uma pessoa branca. Mas, ela sabia que aquela Lei era injusta, que aquela Lei não garantia igualdade de direitos para todos e por isso, deveria ser combatida. Quantos negros obedeceram aquela Lei antes daquela atitude? E quantos desobedeceram aquela lei depois da atitude dela? Nós somos condicionados a respeitar as leis, mas nem todas as Leis são justas. Rosa parks provou isso, e sua atitude mudou aquela realidade até que a corte suprema reconheceu e baniu a lei da segregação. O racismo legalizado e sofrido pelos negros Americanos até os anos 60, são evidencias de que a Lei nem sempre é justa e deve ser questionada e combatida sempre que não corresponder as liberdade e os direitos das pessoas.

Esse processo de mudança na forma do pensar e na forma de agir, é extremamente difícil considerando a condição social oprimida vivida pelos Brasileiros. É fácil julgar o Brasileiro, mas não podemos condena-los considerando a condição social que o Brasileiro vive. É difícil condenar alguém quando a prioridade é sair de casa e conseguir voltar vivo. Somos atacados pelo estado, pela polícia, pelos bandidos, pela violencia. Vivemos no “modo sobrevivência” 24 horas por dia. É difícil raciocinar com clareza e discernimento diante de tanta tensão e tantos problemas. Mas os Brasileiros são os únicos que podem mudar essa situação, e o jeito de mudar essa situação é conseguirmos, mesmo dentro de toda essa opressão legalizada que a Rosa Parks também vivia em 1955, e dentro de toda a tensão dividida pelos Brasileiros, mudar nossa atitude perante o restante da sociedade. É sermos de fato, a sociedade que desejamos ser. Vale lembrar que a nossa realidade não é muito diferente da realidade que Rosa Parks vivia em 1955. Os negros não eram considerados humanos. Tinham status de inferioridade reconhecido por Lei. Eram perseguidos, atacados. Eram privados dos seus direitos, eram privados de oportunidades, privados de educação e saúde. Mesmo assim, Rosa Parks disse chega! Disse, não mais! O Brasileiro precisa fazer o mesmo e livrar-se das correntes mentais que nos mantém reféns de conceitos ilusórios e falsas instituições que não beneficiam o povo Brasileiro. Precisamos lutar por direitos reais assim como fez Rosa Parks dentro daquele ônibus no dia primeiro de Dezembro de 1955.

Mas, a segregação não é apenas uma aberração usada contra os negros. Essa é mais uma lição que podemos aprender com a atitude de Rosa Parks. Sem percebermos, promovemos a segregação todos os dias, uns contra os outros. Segregamos quando nos recusamos a ceder nosso assento a uma gestante, a um deficiente, a um idoso. Segregamos as pessoas quando deixamos de ceder nosso lugar apenas pela oportunidade de sermos gentis uns com os outros, porque afinal de contas, não precisamos ceder nosso lugar apenas quando estamos diante de situações especiais. Segregamos pessoas que se vestem diferente da gente. Segregamos pessoas que não pertencem ao nosso grupo ou que se comportam de maneira diferente. Segregamos pessoas mais pobres e mais ricas que a gente. Por isso, o Brasileiro precisa combater estas questões dentro da sua própria individualidade e dentro do seu próprio modo de pensar. A consequência deve ser a mudança de atitudes, os resultados serão um Brasil mais justo para todos. Os assentos reservados para gestantes e portadores de deficiências não deveriam nem existir. Basta as pessoas serem mais gentis e ceder seus lugares sempre que alguém, por qualquer condição, precisar sentar-se. Por isso o exemplo e o legado deixado por Rosa parks não se limita apenas ao problema da segregação racial. Seu legado vai muito além, e os Brasileiros também podem usar o exemplo de Rosa Parks para mudar a história social do Brasileira.

Rosa Parks morreu aos 92 anos em 2005. O Congresso Americano lhe concedeu status de honra. Seu corpo foi velado ao lado da sepultura de Abraham Lincoln no Capitol, junto a sede do Congresso Americano. Apenas 30 pessoas tiveram esta honra aprovada pelo Congresso. Rosa parks foi a primeira mulher. Em 2009, apenas 54 anos após sua atitude no ônibus da cidade de Montgomery, os EUA elegia Barak Obama, o primeiro presidente negro da história Americana.

Fonte:

Constitution Daily – http://blog.constitutioncenter.org/2015/12/it-was-on-this-day-that-rosa-parks-made-history-by-riding-a-bus/