O Papel(ão) Da Mídia Na Cobertura Dos Recentes Eventos Mundiais

By: Michaell Lange,

London, 16/11/15 –

A grande mídia internacional, infelizmente virou um movimento uniforme de propagação de uma visão única, talvez, numa ação combinada pelos principais meios de comunicação e seguido a risca pelo restante da mídia mundial. Com exceção de alguns canais de TV como a RT America e Al Jazeera English, a maioria ignorou totalmente, princípios básicos do jornalismo. A investigação, o questionamento e o debate, foram substituídos pela norma comum da mentalidade Ocidental. Uniram-se todos em solidariedade as vitimas e contra os terroristas, ignorando quase por completo, o importantíssimo fator histórico necessário para o entendimento do quem vem acontecendo no mundo desde o 11 Setembro de 2001. Ja naquela época, a mídia mundial se uniu em torno de uma grande invenção de fatos para justificar a invasão do Iraque sem o menor interesse investigativo. Promoveu-se a propaganda e tomou-se como verdade absoluta, tudo que estava sendo falado pelo Governo Americano e Britânico sobre as evidências apresentadas como provas concretas de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, algo que hoje sabemos se tratar de uma grande mentira. Esse fenômeno da mídia mundial foi tema de vários documentários como o The War You Don’t See, do jornalista Australiano John Pilger. A cobertura feita pela mídia mundial sobre os ataques desta Sexta Feira (13) em Paris, evidenciou que o comportamento da mídia nunca mudou. Os meios de comunicação perderam a vontade de investigar a fundo as causas dos ataques, e questionar os governos envolvidos sobre suas responsabilidades a respeito dos ataques.

Vários meios de comunicação, desde Sexta-Feira incluindo Sky News, Channel 4, Channel 5, BBC, Al Jazeera, RT América, LBC Radio, BBC Radio 4, e Reuters, deram a impressão de que todos, estão recebendo as noticias da mesma fonte e publicando sem modificação. Os termos, as histórias, o senso de nós e eles, a mentalidade de que a Europa é totalmente inocente e ninguém entende porque estão sendo atacados de forma tão brutal. Algumas histórias chegam a beirar o ridículo. As redes sociais tem apresentado debates infinitamente mais interessantes sobre as causas e consequências do que aconteceu. A outra mídia, preferiu a narração. Mesmo no Brasil, durante todo o final de semana nas redes sociais, questionou-se a facilidade do Brasileiro de se comover com tragédias em outros países e nem tanto com tragédias em solo tupiniquim. Tivemos jornalistas chorando ao vivo com os ataques em Paris e que não se comoveram com a tragédia humana e ambiental em Minas Gerais. Ninguém questionou o Presidente Frances sobre os bombardeios diários feito pelo exército do país desde Setembro na Síria, que é um país soberano e membro da ONU. Justificam os ataques por conta da presença do Estado islâmico naquele país. Mas, quando um país bombardeia outro país sem a permissão do governo do país que esta sendo bombardeado, isso é um crime de guerra. Sabemos agora que o Estado Islâmico tem base na Bélgica, e nem por isso a França mandou seus aviões bombardearem o país vizinho. François Hollande classificou os ataques em Paris como “uma ação covarde pois, atirar em pessoas desarmadas e inocentes é um ato covarde”. É claro que foi um ato covarde, mas é difícil entender qual é a diferença entre a covardia de atirar em uma pessoa inocente e desarmada, e a covardia de um ataque feito por um avião de guerra Dassault Rafale, a uma vizinhança desarmada e inocente na Síria. A mídia não faz nenhuma questão de perguntar. O presidente Frances também declarou mais uma vez, que a França esta em guerra. Em guerra contra quem? Contra o Estado Islâmico ou contra o povo Sírio? Qual é o objetivo de usar o poder militar Frances para atacar uma entidade sem endereço? Outros dois fatores que precisam ser apurados são: A questão ideológica e a questão tecnológica destes conflitos. Será que a questão tecnológica das bombas e inteligência são capazes de vencer a questão ideológica? Será que o uso da precisão militar pode destruir a ideologia presente na mente humana? Ou será que a agressão apenas reforça o poder ideológico promovido por grupos como o Estado Islâmico? A mídia falha de forma terrível ao ignorar estas questões.

Semanas antes dos ataques em Paris, dois atentados a bomba do Estado Islâmico a dois países Islâmicos, Turquia e Líbano, matou dezenas de pessoas inocentes, mas a mídia deu muito pouca importância. A mensagem da mídia parece dar diferentes valores a vida dependendo do país de origem das vitimas. A tragédia em Minas Gerais foi falada pela mídia Britânica, mas sem dar muita atenção. A própria mídia Brasileira não esta dando a devida atenção a essa tragédia. A impressão é a de que quando a Europa sofre um ataque, é sempre uma ação promovida por pessoas demoníacas, terroristas, covardes, e são. Mas, quando a Europa bombardeia e mata covardemente, centenas de inocentes, o mundo prefere rotular de, legitima defesa. Quando os EUA atacou um hospital da Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão que deixou trinta mortos, Obama pediu desculpas e o assunto morreu. Ninguém se atreveu a questionar se um pedido de desculpa para um claro crime de guerra, era suficiente ou no mínimo inapropriado, considerando a gravidade do ataque. O assunto foi esquecido e a atenção da audiência foi desviada para algo sem muita importância como, crianças Sírias morrendo afogadas no mediterrâneo. Não é possível que lideres mundiais como Obama, David Cameron, François Hollande e Putin, possam falar livremente em liberdade, democracia, justiça e Liberté, igualité e fraternité, sem serem questionados sobre suas ações militares em países soberanos. Isso simplesmente não faz nenhum sentido. É como assistir ao PCC e o CV falarem em justiça e segurança e as pessoas aceitarem sem questionamentos. O governo Frances não foi vitima dos ataques em Paris. As vitimas foram os Franceses e pessoas de outras nações que perderam a vida por causa das ações governamentais que a mídia prefere ignorar.

A mídia tem um papel fundamental no processo de justiça social, na manutenção da democracia e das liberdades civis. O comportamento apresentado pelos meios de comunicação após os eventos em Paris são inaceitáveis. Devemos nos perguntar se vale a pena compartilhar esse comportamento ou fazermos algo para mudar, para demonstrar que nós não estamos satisfeitos com o trabalho apresentado por eles. Devemos questionar o que é possível aprender com estes eventos ao invés de ouvir dos nossos lideres apenas uma vontade de se vingar com o uso ainda mais indiscriminado de bombas. A quanto tempo as bombas ja provaram que não resolvem nada? Devemos nos perguntar por que apenas os EUA,a França e o Reino Unido são os principais alvos do Estado Islâmico e de outros grupos terroristas? Será que é porque justamente estes países são os principais responsáveis pela destruição da Síria, Líbia, Iraque e Afeganistão, deixando um vácuo de poder agora ocupado pelo Estado Islâmico? Por que a Alemanha, que nunca se envolveu nos conflitos do Oriente Médio e abriu as portas para 1 milhão de refugiados Sírios, nunca foi vitima do terrorismo do estado Islâmico? Será que poderíamos aprender alguma coisa com o exemplo Alemão? Por que a mídia se recusa a promover este debate? Quem sabe, as redes sociais devam ocupar esse vácuo deixado pela outra mídia? Estes são questionamentos que precisamos fazer para que nossos direitos e nossas liberdades continuem sendo respeitadas pelos governos ao redor do mundo porque a Síria de hoje, pode muito bem, ser o Brasil de amanhã.

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