Experiência de Hospital: SUS vs NHS

By: Michaell Lange,

London, 27/11/15 –

Fazem 13 anos que eu moro no Reino Unido e mesmo assim, não me canso de me surpreender com o sistema de saúde desse país.

Depois de pensar muito sobre a cirurgia oferecida por nosso hospital local para a retirada de uma adenoide do nariz do nosso filho de 3 anos, resolvemos aceitar com base nos riscos e benefícios em fazer a operação. Para mim, colocar a vida do meu filho em risco para corrigir um problema que não colocava a vida dele em risco, parecia algo sem sentido. Mas, depois de observar o impacto que a dificuldade de respirar trazia para a vida do nosso anjinho, que incluía apneia de até 15 segundos durante a noite, ronco e cansaço mesmo depois de 12hs de sono, a decisão ficou mais fácil. A carta do médico também teve peso. Segundo os exames feitos previamente, as adenóides eram consideradas “enormes”. Acho que é difícil explicar essa decisão para alguém que não tenha filhos mas, eu posso dizer que o medo de estar tomando a decisão que pode colocar a vida da pessoa mais preciosa da sua vida em risco, é de uma tortura mental imensurável.
Não posso dizer que mesmo precisando ser operado, não somos uma família de sorte. Nosso hospital local, o St George’s Hospital, é referencia mundial em Emergências, Trauma, Pediatria, e maternidade. De fato, moramos e 1km do maior centro de Emergências do mundo com 500 profissionais trabalhando apenas no setor de Emergências.

A cirurgia do nosso filho estava marcada para hoje, 27/11/15, as 7:30 da manhã. Mas o procedimento começou uma semana antes. No Sábado, uma semana antes da cirurgia, fomos convidados a participar do chamado “The Jungle club” ou “O Clube da Floresta”. O departamento onde as crianças de até 16 anos são operadas se chama “The Jungle” ou “A Floresta”. O clube da floresta é uma curta palestra de introdução a cirurgia para minimizar o impacto da experiência para as crianças. Assistimos a um desenho animado junto com a equipe médica e depois visitamos o centro cirúrgico e a sala de recuperação com a simulação da mascara de oxigênio e aplicação de creme anestésico nas mãos para a introdução de agulha. O departamento é decorado com desenhos de animais, elefantes, girafas, Rinocerontes, pássaros, e outros animais, por isso o nome, Floresta. Junto a sala de recuperação ha uma sala de diversão com todos os brinquedos imagináveis, de diferentes tipos de Lego, passando por DVDs e um computador com Xbox. Na segunda Feira, fizemos a avaliação para saber se nosso filho estava apto para o procedimento cirúrgico. Conhecendo a infra-estrutura da saúde brasileira, é difícil pra mim explicar o profissionalismo  e a qualidade do atendimento desse pessoal.

A parte mais difícil foi participar da aplicação da anestesia. Enquanto duas enfermeiras distraiam nosso filho com bolhas de sabão, o médico aplicou a agulha e introduziu o liquido branco que fez nosso filho dormir. Ele nem percebeu o que havia acontecido. Deixa-lo ali, foi a pior sensação que eu ja havia sentido. Uma enfermeira se sentou com a gente no lado de fora e nos deu todas as garantias possíveis de que tudo ficaria bem. Eu e minha esposa estávamos em prantos! Me senti um traidor, um verdadeiro FDP por tamanha crueldade. Depois de algumas horas, ja com o nosso filho de volta e se recuperando bem, pensei no quanto fui ignorante e ingênuo de me sentir como me senti antes. Quando você passa o dia num hospital e vê a realidade dura que outras crianças e famílias estão passando, a minha situação parecia ridícula, e ridículo foi como me senti. Quando passamos por um hospital não imaginamos quantos dramas estão sendo vividos ali dentro. Quantas famílias, quanta bravura, dedicação, superação e também tristezas e batalhas perdidas. Parece que as pessoas que estão dentro de um hospital são mais humanas, mais sensíveis, do que os outros milhares de alienados passando apressadamente pelas ruas do lado de fora.

Na sala de recuperação também ha uma cozinha aberta com café, sucos, bolachinhas, pão fatiado com torradeira, manteiga, agua, chá e até bolo. As crianças certamente adoraram a sala de recuperação mesmo estando um pouco confusos e tontos por causa da anestesia. Ficamos 6hs em observação antes de sermos reavaliados e liberados para irmos para casa. Mesmo assim, nosso filho continuará sendo paciente do hospital por 6 semanas quando uma nova avaliação ira determinar se ele esta bem e pode então, ser devolvido ao posto de saúde em que esta registrado. O custo total do tratamento saiu por ZERO Libras. O único custo foi o estacionamento que custaria £25 Libras, mas com um vale do hospital acabamos pagando apenas £8 Libras.

Existem algumas diferenças cruciais entre o SUS e o NHS. Visivelmente, os profissionais da saúde daqui, são profissionais por vocação, nasceram para isso e não saberiam fazer outra coisa. Por trás dessa vocação, existe uma estrutura de excelência que combinados com a vocação e a seriedade dos profissionais, resultam no melhor sistema de saúde do mundo. No Brasil também temos os profissionais da saúde por vocação mas, não temos a estrutura. O status de doutor, é também um fator que ilude  muita gente a estudar medicina e ser um mal profissional no futuro. Aqui, é normal você encontrar o cirurgião indo pra casa de ônibus, metrô, trem ou bicicleta. No Brasil, médico é autoridade, só anda de carrão. A outra diferença é o orçamento. O orçamento anual do NHS é de quase R$700 Bilhões de Reais para uma população de 60 milhões. Ja o Orçamento do SUS é de R$90 Bilhões de Reais para uma população de 200 milhões. Não é preciso ser mestre em matemática para entender o calculo. Isso sem considerar que uma grande parcela destes 90 Bilhões de Reais, se perdem em corrupção, valores super-faturados, salários de médicos que não trabalham, cirurgias, tratamentos e consultas que nunca foram feitas, roubo de medicamentos etc…

O motivo para publicar estas experiências aqui, não é para me gabar de viver num país com o melhor sistema de saúde publica do mundo, nem para deixar o Brasileiro ainda mais indignado. A razão para publicar estas experiências é divulgar e dividir situações que nos fazem pensar. O SUS poderia ter um orçamento de R$ 1trilhão de reais, por que não? O que seria mais importante que a saúde do nosso povo? Podemos sobreviver sem emprego e sem educação, mas não podemos viver sem saúde. Saúde deveria ser a prioridade numero 1 de qualquer país. Um governo que mantenha seu povo saudável terá sempre uma população mais produtiva e por tanto, uma melhor economia que consequentemente, daria condições para melhores investimentos na educação. É um ciclo lógico que da certo em países como o Reino Unido, Suécia, Dinamarca, Canada e Noruega, e deveria estar na base de qualquer governo que tenha boas intenções para representar seu povo e cumprir com a sua responsabilidade. Não vejo outra razão para a existência de um governo que não seja o de zelar por seu povo. Estamos muito longe dessa realidade, mas a evidencia da existência de sistemas como o NHS, é uma prova de que podemos chegar la. Mas para isso, precisamos dar o primeiro passo e nunca mais parar de caminhar nessa direção.

Um programa do canal 4 chamado, 24 horas na sala de emergência, mostra a realidade diária do St Georges Hospital.

Estado de Emergencia na Síria: Russia, Turquia e OTAN a Um Passo de Uma Catástrofe Mundial (analise)

By: Michaell Lange.

London, 25/11/15 –

O incidente desta semana (24) na fronteira entre a Síria e a Turquia que acabou com um avião bombardeiro Russo abatido e dois soldados Russos mortos, levou o mundo a beira de uma nova guerra mundial. O governo Turco afirma que o avião de guerra Russo invadiu seu espaço aéreo e foi abatido depois de inúmeros avisos feito pela força aérea da Turquia. O governo Russo desmente e afirma que seus aviões estavam em operação dentro do território Sírio a um quilometro da fronteira da Turquia. Segundo informações divulgadas hoje pelo governo Turco, haviam dois bombardeiros Russos seguindo um rumo direto para o território Turco. Um dos aviões teria atendido aos avisos da força aérea da Turquia e dado meia volta, o segundo avião teria seguido em frente e foi consequentemente, abatido. Os dois pilotos Russos conseguiram ejetar, mas foram alvejados por rebeldes Turcos terminando com a morte de um dos pilotos. O segundo piloto foi resgatado por soldados Sírios e levado a uma base militar Russa. No mesmo incidente, dois helicópteros Russos que faziam as buscas pelos pilotos do avião derrubado, foram atacados pelos mesmos rebeldes apoiados pelos Turcos. Um soldado Russo morreu no ataque. Os EUA afirmaram que o avião Russo entrou no espaço aéreo Turco, mas foi abatido quando ja sobrevoava a Síria. O avião Russo teria permanecido no espaço aéreo Turco por 17 segundos. A area da fronteira onde os aviões Russos voavam possui um braço territorial que entra dentro do mapa do território Sírio (veja no mapa abaixo) onde não é difícil cometer o erro de atravessar a linha de fronteira entre os dois países. O governo Russo reagiu imediatamente após o incidente e em pronunciamento, o presidente Russo Vladimir Putin, terminou todas as colaborações militares com a Turquia além de cancelar uma visita programada para esta semana ao país. A Russia também cortou o fornecimento de gás para o país que representa 20% do consumo Turco. Putin prometeu mais retaliações nos próximos dias.

Para fazermos uma analise justa sobre o incidente e suas possíveis consequências, é importante considerarmos algumas regras fundamentais que regem as relações internacionais. A primeira regra importante e não declarada é que, nas relações internacionais, as pessoas, os povos, e o bem estar dos civis são totalmente irrelevantes. O que importa nas relações internacionais são os interesses de cada país, que nem sempre representam os interesses do povo. Essa é uma regra informal e que jamais sera declarada ou confirmada por qualquer país. Evidencias dessa realidade são o numero de civis vitimas de guerras ou de acordos econômicos. Se os civis fossem o centro das atenções nas relações internacionais jamais se permitiria que 100 milhões de pessoas morressem na segunda guerra mundial por exemplo. A segunda regra importante é o cumprimento das leis internacionais que mesmo sendo ignoradas, fazem parte do jogo de acusações e pode ser usado como evidencia em tribunais internacionais como a ICC – International Criminal Court – ou a ICJ – International Court of Justice.

A decisão do governo Turco de derrubar um avião de guerra Russo surpreendeu até mesmo seus maiores aliados da OTAN. As circunstancias nas quais o incidente ocorreu e os acontecimentos logo após a queda do avião, deixou perplexos especialistas em relações internacionais do mundo inteiro. Os motivos por trás desse incidente tem  sido alvo de especulações. A Turquia é membro da OTAN, e é difícil imaginar que esta decisão tenha sido tomada apenas pelo presidente e o Ministro da defesa Turco. As regras para esse tipo de ação também parecem ter sido ignoradas. Segundo as Leis internacionais, todo país tem direito a defender seu território, mas isso não justifica a ação em si, ja que a Turquia mantinha boas relações com a Russia até os incidentes desta semana. Além disso, não havia nenhuma evidencia de que a Russia estaria atacando o país mas sim, apenas invadido seu espaço aéreo. A invasão do espaço aéreo de um país é considerado um sério incidente diplomático. A Turquia ja havia avisado o governo Russo de outros incidentes parecidos na mesma região e estes problemas certamente seriam debatidos na visita do presidente Russo a Turquia que estava programada para acontecer apenas um dia após a queda do avião Russo. O encontro foi cancelado imediatamente após o ocorrido. O piloto Russo que sobreviveu ao ataque, disse a mídia que não recebeu nenhum aviso sobre o ataque. O governo turco disse ter avisado o piloto 10 vezes antes do ataque. Segundo as Leis internacionais, um país pode derrubar um avião invasor se o mesmo se sentir ameaçado mas, derrubar um avião deve ser sempre o ultimo recurso. Antes disso, uma serie de procedimento devem ser esgotados antes da decisão de abater um avião invasor. Se o contato pelo radio for ignorado, os aviões da força aérea Turca deveriam ter voado ao lado da cabine do piloto do avião Russo para tentarem contato visual. Se este contato também for ignorado, alguns disparos de aviso cruzando a frente do avião invasor é o alerta final indicando que todos os avisos foram esgotados. Somente então, uma ordem do comando geral da força aérea Turca, juntamente com o presidente do país, devem tomar a decisão e dar a ordem para a derrubar o avião invasor ou apenas escolta-lo. Segundo informações do governo Turco e das autoridades Americanas, apenas o contato via radio foi exercido. O fato de que o avião  Russo teria permanecido em território Turco por apenas 17 segundos, pode ser a explicação para o problema. Mas, sera que a Turquia deveria ter derrubado o avião Russo por permanecer apenas 17 segundos em seu território? As autoridades Americanas também falaram que no momento em que o avião Russo foi abatido, este, ja estava em território Sírio. Se isso for comprovado, a Turquia pode ser acusada de cometer um crime de guerra. De qualquer forma, é difícil encontrar justificativas para a ação Turca.

Outro ponto que vem sendo especulado por especialistas, é a questão de que a Russia estava atacando rebeldes próximo a fronteira da Turquia. Porém, estes rebeldes, também conhecidos como “Tuksmen”, formados por rebeldes Sírios com descendência Turca, estão sendo apoiados, orientados e armados pelo governo Turco e a OTAN para lutarem contra o governo de Assad. O Ocidente classifica estes rebeldes de moderados. Mas esta moderação foi questionada e posta a provas depois que os mesmos rebeldes atacaram os pilotos do avião russo quando ainda estavam no ar em seus para-quedas. Um dos pilotos foi fatalmente ferido. O ataque aos pilotos Russos ainda em seus para-quedas, fere a convenção de Genebra de 1949 que proíbe ataques a pilotos e tripulantes em paraquedas que tenham sido ejetados de seus aviões. Logo após este incidente, os rebeldes ainda atacaram dois helicópteros Russos que tentavam resgatar os pilotos do avião derrubado, destruindo uma das aeronaves e matando mais um soldado Russo. Toda a ação dos rebeldes foi filmada e publicada nas redes sociais. O presidente Turco havia pedido ao governo Russo para não atacar os rebeldes próximo a fronteira com a Turquia dias antes do incidente. Talvez, a queda do avião Russo tenha sido uma retalhação pelos ataques Russos aos rebeldes apoiados pela OTAN. Se esse for o caso, a Russia pode responder com a intensificação de suas ações militares na fronteira com a Turquia pondo ainda mais risco numa possível confrontação entre a Russia e a OTAN.

Apenas um dia depois do ataque Turco ao avião Russo, o presidente Vladimir Putin enviou um navio de guerra para o local, para proteger suas aeronaves contra qualquer futuro ataque. Equipamentos terrestres com armamento anti-aéreo como o S-400 Defense Missile System, também foram enviados para local. O ataque Turco pode ter aberto as portas para o governo Sírio passar a usar a mesma estratégia de intervenção contra aviões que invadirem seu espaço aéreo. A Russia é o único país autorizado a usar o espaço aéreo Sírio, apesar da França e dos EUA estarem usando o espaço aéreo Sírio constantemente sem permissão, para atacar posições do Estado Islâmico no país. O Parlamento Britânico pode votar ainda esta semana uma resolução que autorizaria o Primeiro Ministro David Cameron, a se juntar as forças da OTAN na região. Qual seria a reação do Ocidente caso a Síria ataque aviões que invadirem seu espaço aéreo usando a mesma premissa da Turquia? A Síria, assim como a Turquia, é membro da ONU e segue as mesmas Leis Internacionais que dão direito de proteção do seu espaço aéreo soberano. Antes do incidente com o avião Russo, a derrubada de um avião Frances ou Americano pelo governo Sírio seria visto pelo mundo como uma grave provocação e que certamente teria retaliações militares . Mas, o ataque Turco pode ter aberto as portas para justificar esse tipo de retaliação, elevando ainda mais, os riscos do confronto entre a Russia e a OTAN.

A invasão de territórios nacionais por aviões militares de outros países não é uma pratica rara. Aviões miitares Russos invadem o espaço aéreo Britânico em média 5 vezes ao ano. Em todos os casos a diplomacia é acionada para lidar com a situação. O embaixador Russo em Londres ja foi chamado várias vezes para dar esclarecimentos, mas em nenhuma ocasião houve risco de ataque, porque o governo Britânico não vê uma ameaça eminente de um ataque Russo em solo Britânico. Os motivos para a Turquia decidir derrubar um avião de guerra Russo sem antes seguir os meios diplomáticos, continua sendo um mistério. Aviões da OTAN também sobrevoam as fronteiras da Russia regularmente. Nos últimos 5 anos uma média de 3 mil vôos da OTAN foram interceptados por caças Russos. Arriscar uma escalada de um conflito com a Russia parece ter sido uma ação na qual a Turquia pode se arrepender num futuro próximo, mas certamente todos riscos foram meticulosamente calculados por se tratar de um membro da OTAN. As consequências de ações como esta, podem sair do controle e se transformar num conflito entre o Ocidente e o Oriente podendo arrastar outras grandes potências como a China. Em Moscou, milhares de nacionalistas Russos protestaram em frente a embaixada da Turquia. Todos os vidros do edifício foram quebrados por pedras lançadas pelos manifestantes. Alguns cartazes traziam frases como: “A Russia não esquece, a Russia não perdoa”.

A gravidade da situação chegou a tal ponto que especialistas afiram que o Estado Islâmico deixou de ser a prioridade ou o motivo central do conflito na Síria. A prioridade pode ter passado a ser uma questão de hegemonia e controle na região entre o Ocidente e a Russia. Isso seria uma escalada monumental e extremamente preocupante, considerando que a poucos dias a Russia estava disposta a unir forças com a OTAN para combater o Estado Islâmico. Uma possível entrada da China nesse conflito seria ainda mais desastroso para o mundo inteiro. Os jornais Britânicos refletiram a tensão do momento com chamadas de capa dizendo: “O Mundo segura a respiração” e, “O Mundo A Beira da calamidade”. Tudo irá depender das próximas ações do governo Russo que ja deu algumas pistas do que esta por vir, com o envio de equipamentos de guerra pesada para o local. Uma agressão Russa contra a Turquia irá obrigar uma resposta da OTAN, e se isso acontecer, ninguém mais terá o controle da situação e o planeta pode voltar a viver uma situação parecida com a crise dos mísseis Cubanos em 1962, onde o mundo esteve a um passo da total destruição nuclear.

De fato, o mundo evoluiu muito de la pra ca. As relações internacionais se aproximaram e a interdependência causada pela globalização diminuiu os possíveis ganhos de uma guerra entre grandes potências. Mas, os riscos ainda existem porque os armamentos nucleares continuam ativos ao redor do mundo. A possibilidade de um conflito armado evoluir para uma guerra nuclear é mínimo, mas o risco existe. A comunidade internacional não pode aceitar que países como a Turquia sejam capazes de provocar a escalada de um conflito local em um conflito mundial. Os Russo são famosos provocadores assim como os Americanos, mas ambos os países conhecem bem seus limites e raramente permitem que provocações saiam do controle diplomático. A Turquia, com uma ação desnecessária e potencialmente desastrosa, pode ter forçado o Urso Siberiano a retaliar com força militar exemplar para garantir o apoio dos nacionalistas em Moscou.  O ideal nesse momento é fazer os dois países se sentarem na mesa diplomática e procurar uma solução que restaure o orgulho ferido dos Russos sem a necessidade de ações militares. Mas o ego ferido dos Russos é uma situação difícil de lidar além de ser imprevisível. Os diplomatas terão uma semana importante pela frente. Para a Russia, a Turquia se transformou em uma grande pedra nos sapatos. O urso siberiano foi humilhado perante o mundo. Aconteça o que acontecer, os dois países não podem entrar em confronto aberto. Um conflito entre a Russia e a Turquia certamente iniciaria uma nova guerra mundial que inevitavelmente, traria consequências desastrosas para todo o mundo. O jeito é esperar pelo melhor.12274211_1078181602215894_2874177884885509496_n

O Indivíduo E O Poder Das Redes Sociais (reflexão)

By: Michaell Lange.

London, 20/11/15 –

O Brasil vive mais um período difícil na sua história, mas dessa vez é diferente. O Brasileiro nunca participou tanto da política nacional. Mesmo durante a ditadura militar, as ações estudantis se limitavam em sua grande maioria, às grandes cidades e aos grandes centros. Agora é diferente. O Brasileiro esta participando da política interna do país de qualquer lugar do território nacional e até do exterior, seja de dentro de um barco de pesca em alto mar, de dentro do ônibus a caminho do trabalho ou da escola, em casa, no carro, na academia, no gramado do Congresso, dentro do congresso e qualquer outro local com rede disponível. Definitivamente, o Brasileiro esta se politizando mais. Mas, ainda não aprendemos a lidar com o poder disponível em nossas mãos com o clicar de um botão. Ainda temos muito o que aprender sobre a importância de se comunicar e se comunicar de forma correta. Ainda somos influenciados pela grande mídia. Ainda defendemos partidos e políticos corruptos. Ainda não aprendemos a debater com mente aberta, com respeito e tolerância frente a opiniões alheias e contrarias. Mas tudo isso esta mudando. Estamos aprendendo, mas, ainda num ritmo muito lento. É preciso entender melhor o poder de comunicação que as redes sociais estão nos proporcionando, e usar esse poder em benefício de todos. Pense por exemplo, na quantidade de coisas que não saberíamos caso não existisse o facebook, o youtube, o twitter e outras redes disponíveis na internet. Quantos videos de protestos, de conflitos, de resgates, e outros eventos, são compartilhados nas redes? quantas opiniões são publicadas? Quantos assuntos são debatidos online? Fotos, momentos com amigos e família que podem ser divididos entre todos?

Sem duvida alguma, as redes sociais passaram a ser um grande aliado dos Brasileiros e um pesadelo para políticos, corporações e a grande mídia. O telefone passou a ser nossa grande arma contra abusos do estado. Com o telefone na mão, passamos a ser uma agencia de noticias 24 horas no ar. A possibilidade de filmar abusos do estado e outras negligencias sociais, nos deram o poder que antes não tinhamos, o poder de divulgar nossos pensamentos, nossas angustias, nossas idéias, nossos sucessos, nossas campanhas e denuncias. Dependíamos sempre, da boa vontade dos outros meios de comunicação para denunciar e promover movimentos sociais. Antes disso, nem com o total apoio da mídia seria possível publicar tanto quanto publicamos com nosso telefone nas mãos. Nunca fomos tão independentes, nunca publicamos tanto. Nunca na história do Brasil, o povo se comunicou tanto entre si, de forma direta e independente. Grandes talentos passaram a ser conhecidos e reconhecidos em todo o país. De moradores de rua a grandes filósofos, o Brasileiro passou a se conhecer melhor, e a se entender melhor. Isso tudo porque não precisamos mais do intermédio dos canais de TV. As redes sociais também mudaram o comportamento da grande mídia que passou a ser alvo de criticas nas redes sociais. Antes, um reporter fazendo a cobertura de um evento costumava ter a sua volta apenas uma camera. Hoje, o reporter tem uma camera e mais 10 telefones filmando o que a reportagem esta fazendo antes, durante e depois das gravações. Qualquer vacilo vira noticia e alvo de criticas nas redes sociais. A brutalidade da policia de São paulo contra alunos das escolas publicas, ou o resgate de uma família inteira de banhistas em uma praia Brasileira, pode ser assistido em Londres ou em Nova York, apenas minutos depois da ocorrência, sem edição, sem cortes, sem influencia de interesses de terceiros. Vai tudo para as redes sociais da forma original. É difícil imaginar quantos crimes foram denunciados, desvendados e desmentidos por conta de denuncias nas redes sociais. Estamos pressionando nossas autoridades a se comportar melhor, a fazer seu trabalho de forma correta. Antes das redes sociais, um abuso policial nem era divulgado. Hoje, é compartilhado por milhões. Mas ainda falta muito para ficar bom.

O Brasileiro precisa perguntar mais. Questionar mais. Cobrar mais transparência dos veículos de comunicação, seja governamental ou privado. O Brasileiro precisa entender melhor os eventos que acontecem no Brasil e a forma como são divulgados por diferentes meios de comunicação. A revista Veja e a revista Carta capital por exemplo, defendem interesses diferentes, quase opostos. Sera que devemos confiar em tudo que eles publicam? É normal sentirmos mais, ou menos simpatia por um ou outro meio de comunicação. Esse sentimento de confiança é muitas vezes movido pelos nossos interesses pessoais, mas devemos ter em mente que nada disso significa que um ou outro meio de comunicação estão certos ou errados. Por isso a importância do auto-questionamento. Uma pessoa que defenda um governo de esquerda, pode sentir mais confiança numa revista como a Carta Capital e ver a revista Veja com muita desconfiança. Ja o contrário pode acontecer com alguém que defenda os ideais de um governo de direita. Nesse caso, a revista Veja pode parecer mais confiável do que a revista Carta Capital. Esse fenômeno tem a ver com o sentimento de representatividade que cada indivíduo tem. O mais importante nesse caso é nos questionar sobre os motivos de sentirmos mais representados por um ou por outro ideal. De um ponto de vista pessoal, o fato da revista Veja e a revista Carta Capital defenderem publicamente diferentes interesses é em si, motivo suficiente para não confiarmos em ambas. A compreensão sobre nossos próprios sentimentos e como chegamos as conclusões que chegamos, é fundamental na hora de usar nosso poder de comunicação nas redes sociais. Se eu me declaro um Petista, como posso esperar que alguém que se declara PSDBista confie ou acredite no que eu escrevo? A imparcialidade, sobretudo política, nos da portanto, o poder de escolher em apoiar idéias indiferente de onde venham. Dessa forma, posso apoiar o Bolsa Família promovida pelo PT sem necessariamente apoiar outras políticas desse partido. Posso apoiar a quebra da patente dos medicamentos para o tratamento da AIDS promovida pelo governo do PSDB sem necessariamente apoiar outras políticas desse partido. O problema é que, ao me declarar apoiador do partido A ou B, ou defender a revista A ou a revista B, torna-se praticamente um pecado mortal concordar com qualquer coisa que o partido ou a revista adversária apoie. Os Petistas são por tanto, proibidos de apoiarem qualquer idéia promovida pelo PSDB e vice-versa. Dessa forma, perdemos nossa independência de apoiar aquilo que achamos ser correto para o bem comum. Esse comportamento é inevitavelmente transferido para os nossos debates nas redes sociais. Para quem esta no poder, essa divisão é importante e  necessária para que eles permaneçam no poder. Para os principais meios de comunicação, assim como para os partidos políticos, a divisão do publico em diferentes grupos é a garantia de que ganhando ou perdendo, eles continuarão exercendo grande influencia nos meios de comunicação e na forma como o Brasil é governado ou seja, como nós somos governados. A perda da parcialidade dos indivíduos, seja pelos meios de comunicação através da sua audiência, ou para um partido político na forma do numero de membros, ou para uma igreja, na forma do numero de fiéis, significa a perda do poder, a perda do poder sobre nossas vidas. A pergunta aqui seria: Por que entregamos nosso apoio (nossa independência de opinião) a uma entidade, tão facilmente, principalmente quando estas entidades não nos representam da forma como deveriam nos representar?

Entender nossos sentimentos e como escolhemos nossos representantes, é fundamental para o futuro da nossa liberdade de expressão e para o futuro da sociedade Brasileira. Devemos estar sempre alerta para reações impulsivas e desnecessárias. Devemos entender que numa democracia, é vital respeitar as opiniões diferentes, por mais absurdas que elas possam parecer. A consciência de saber porque pensamos como pensamos e como essa forma de pensar é transferida para as redes sociais, é extremamente importante para o futuro da nossa sociedade. No quesito participação e comunicação, o Brasileiro esta de parabéns. A maneira como estamos usando esse poder para o beneficio de toda a sociedade Brasileira, continua sendo uma incógnita a ser definida. Por enquanto é certo afirmar que, enquanto o Brasileiro não fazer as reformas necessárias na sua forma de pensar e agir, as reformas políticas e sociais tão importantes para o nosso desenvolvimento, continuarão sendo um sonho perdido em algum lugar do futuro.

O Papel(ão) Da Mídia Na Cobertura Dos Recentes Eventos Mundiais

By: Michaell Lange,

London, 16/11/15 –

A grande mídia internacional, infelizmente virou um movimento uniforme de propagação de uma visão única, talvez, numa ação combinada pelos principais meios de comunicação e seguido a risca pelo restante da mídia mundial. Com exceção de alguns canais de TV como a RT America e Al Jazeera English, a maioria ignorou totalmente, princípios básicos do jornalismo. A investigação, o questionamento e o debate, foram substituídos pela norma comum da mentalidade Ocidental. Uniram-se todos em solidariedade as vitimas e contra os terroristas, ignorando quase por completo, o importantíssimo fator histórico necessário para o entendimento do quem vem acontecendo no mundo desde o 11 Setembro de 2001. Ja naquela época, a mídia mundial se uniu em torno de uma grande invenção de fatos para justificar a invasão do Iraque sem o menor interesse investigativo. Promoveu-se a propaganda e tomou-se como verdade absoluta, tudo que estava sendo falado pelo Governo Americano e Britânico sobre as evidências apresentadas como provas concretas de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, algo que hoje sabemos se tratar de uma grande mentira. Esse fenômeno da mídia mundial foi tema de vários documentários como o The War You Don’t See, do jornalista Australiano John Pilger. A cobertura feita pela mídia mundial sobre os ataques desta Sexta Feira (13) em Paris, evidenciou que o comportamento da mídia nunca mudou. Os meios de comunicação perderam a vontade de investigar a fundo as causas dos ataques, e questionar os governos envolvidos sobre suas responsabilidades a respeito dos ataques.

Vários meios de comunicação, desde Sexta-Feira incluindo Sky News, Channel 4, Channel 5, BBC, Al Jazeera, RT América, LBC Radio, BBC Radio 4, e Reuters, deram a impressão de que todos, estão recebendo as noticias da mesma fonte e publicando sem modificação. Os termos, as histórias, o senso de nós e eles, a mentalidade de que a Europa é totalmente inocente e ninguém entende porque estão sendo atacados de forma tão brutal. Algumas histórias chegam a beirar o ridículo. As redes sociais tem apresentado debates infinitamente mais interessantes sobre as causas e consequências do que aconteceu. A outra mídia, preferiu a narração. Mesmo no Brasil, durante todo o final de semana nas redes sociais, questionou-se a facilidade do Brasileiro de se comover com tragédias em outros países e nem tanto com tragédias em solo tupiniquim. Tivemos jornalistas chorando ao vivo com os ataques em Paris e que não se comoveram com a tragédia humana e ambiental em Minas Gerais. Ninguém questionou o Presidente Frances sobre os bombardeios diários feito pelo exército do país desde Setembro na Síria, que é um país soberano e membro da ONU. Justificam os ataques por conta da presença do Estado islâmico naquele país. Mas, quando um país bombardeia outro país sem a permissão do governo do país que esta sendo bombardeado, isso é um crime de guerra. Sabemos agora que o Estado Islâmico tem base na Bélgica, e nem por isso a França mandou seus aviões bombardearem o país vizinho. François Hollande classificou os ataques em Paris como “uma ação covarde pois, atirar em pessoas desarmadas e inocentes é um ato covarde”. É claro que foi um ato covarde, mas é difícil entender qual é a diferença entre a covardia de atirar em uma pessoa inocente e desarmada, e a covardia de um ataque feito por um avião de guerra Dassault Rafale, a uma vizinhança desarmada e inocente na Síria. A mídia não faz nenhuma questão de perguntar. O presidente Frances também declarou mais uma vez, que a França esta em guerra. Em guerra contra quem? Contra o Estado Islâmico ou contra o povo Sírio? Qual é o objetivo de usar o poder militar Frances para atacar uma entidade sem endereço? Outros dois fatores que precisam ser apurados são: A questão ideológica e a questão tecnológica destes conflitos. Será que a questão tecnológica das bombas e inteligência são capazes de vencer a questão ideológica? Será que o uso da precisão militar pode destruir a ideologia presente na mente humana? Ou será que a agressão apenas reforça o poder ideológico promovido por grupos como o Estado Islâmico? A mídia falha de forma terrível ao ignorar estas questões.

Semanas antes dos ataques em Paris, dois atentados a bomba do Estado Islâmico a dois países Islâmicos, Turquia e Líbano, matou dezenas de pessoas inocentes, mas a mídia deu muito pouca importância. A mensagem da mídia parece dar diferentes valores a vida dependendo do país de origem das vitimas. A tragédia em Minas Gerais foi falada pela mídia Britânica, mas sem dar muita atenção. A própria mídia Brasileira não esta dando a devida atenção a essa tragédia. A impressão é a de que quando a Europa sofre um ataque, é sempre uma ação promovida por pessoas demoníacas, terroristas, covardes, e são. Mas, quando a Europa bombardeia e mata covardemente, centenas de inocentes, o mundo prefere rotular de, legitima defesa. Quando os EUA atacou um hospital da Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão que deixou trinta mortos, Obama pediu desculpas e o assunto morreu. Ninguém se atreveu a questionar se um pedido de desculpa para um claro crime de guerra, era suficiente ou no mínimo inapropriado, considerando a gravidade do ataque. O assunto foi esquecido e a atenção da audiência foi desviada para algo sem muita importância como, crianças Sírias morrendo afogadas no mediterrâneo. Não é possível que lideres mundiais como Obama, David Cameron, François Hollande e Putin, possam falar livremente em liberdade, democracia, justiça e Liberté, igualité e fraternité, sem serem questionados sobre suas ações militares em países soberanos. Isso simplesmente não faz nenhum sentido. É como assistir ao PCC e o CV falarem em justiça e segurança e as pessoas aceitarem sem questionamentos. O governo Frances não foi vitima dos ataques em Paris. As vitimas foram os Franceses e pessoas de outras nações que perderam a vida por causa das ações governamentais que a mídia prefere ignorar.

A mídia tem um papel fundamental no processo de justiça social, na manutenção da democracia e das liberdades civis. O comportamento apresentado pelos meios de comunicação após os eventos em Paris são inaceitáveis. Devemos nos perguntar se vale a pena compartilhar esse comportamento ou fazermos algo para mudar, para demonstrar que nós não estamos satisfeitos com o trabalho apresentado por eles. Devemos questionar o que é possível aprender com estes eventos ao invés de ouvir dos nossos lideres apenas uma vontade de se vingar com o uso ainda mais indiscriminado de bombas. A quanto tempo as bombas ja provaram que não resolvem nada? Devemos nos perguntar por que apenas os EUA,a França e o Reino Unido são os principais alvos do Estado Islâmico e de outros grupos terroristas? Será que é porque justamente estes países são os principais responsáveis pela destruição da Síria, Líbia, Iraque e Afeganistão, deixando um vácuo de poder agora ocupado pelo Estado Islâmico? Por que a Alemanha, que nunca se envolveu nos conflitos do Oriente Médio e abriu as portas para 1 milhão de refugiados Sírios, nunca foi vitima do terrorismo do estado Islâmico? Será que poderíamos aprender alguma coisa com o exemplo Alemão? Por que a mídia se recusa a promover este debate? Quem sabe, as redes sociais devam ocupar esse vácuo deixado pela outra mídia? Estes são questionamentos que precisamos fazer para que nossos direitos e nossas liberdades continuem sendo respeitadas pelos governos ao redor do mundo porque a Síria de hoje, pode muito bem, ser o Brasil de amanhã.

Paris: Ataque Terrorista ou Apenas Guerra?

By: Michaell Lange,

London, 14/11/15 –

Não existe justificativas para o assassinato de pessoas inocentes. Os ataques em Paris voltam a ser noticia no mundo, mas mais uma vez, somos induzidos a acreditar numa causa simples, um “ataque terrorista”. O rotulo “terrorismo” livra quase de imediato, qualquer responsabilidade do governo nesse tipo de atrocidade. São terroristas! Logo, somos todos vitimas inocentes, incluindo o governo, incluindo o presidente. Não existe questionamentos com relação a guerra contra o terrorismo que segundo seu criador, George W Bush, faria do mundo, um lugar mais seguro para se viver. Devemos nos perguntar se o mundo realmente esta mais seguro depois da guerra contra o terrorismo ter sido declarada após os ataques de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. Devemos nos perguntar se as estratégias de guerra usadas pelos governos do Ocidente através da OTAN, tem sido eficazes, ou se estão exacerbando o problema. Os governos do Ocidente, envolvidos em ações militares no Oriente Médio e no Norte da Africa, precisam ser questionados sobre as consequências dos seus atos. França, EUA e o Reino Unido, declaram guerra contra o Estado Islâmico. Se estamos em guerra, de acordo com as leis internacionais, as atrocidades de ontem em Paris, não são ações terroristas, mas um contra ataque de uma entidade na qual a França esta em guerra. Nesse caso, os ataques do Estado Islâmico em Paris, não são diferentes dos ataques do Japão a Pearl Harbour ou os Ataques Nazistas em Londres durante a segunda guerra mundial. Claro que os governos da França, EUA e Reino Unido, preferem a idéia do terrorismo porque o terrorismo é injustificável, mas um ataque entres duas entidades em guerra faz parte da guerra. Os mortos em Paris na noite de ontem não seriam vitimas de terrorismo mas sim, vitimas de uma guerra declarada pelo governo Frances. Nesse caso isso teria dimensões inimagináveis no que se refere as responsabilidades do governo Frances com a segurança de seus cidadãos. Se a situação atual fosse vista como uma guerra, François Hollande estaria em sérios apuros.

Por tanto, a idéia do terrorismo é muito mais conveniente para os governos do Ocidente, mesmo que isso não diminua suas responsabilidades com a segurança dos seus cidadãos. Mas, por ser considerada uma ação terrorista, a mídia promove uma imagem de indignação e solidariedade com as vitimas ao invés de questionar o presidente da França sobre sua responsabilidade pelas mortes de cidadãos Franceses nas ruas de Paris. É evidente que o Ocidente esta em guerra. A França, os EUA e o Reino Unido, estão bombardeando o Iraque, o Afeganistão e a Síria todos os dias. Mais recentemente a Russia entrou na guerra para defender o governo Sírio a convite do presidente da Síria, que é um aliado Russo de longa data. A queda do avião Russo no Sinai a poucas semanas, pode ter sido também, mais um ataque de guerra que esta sendo considerado um ataque terrorista. Apenas nos últimos 16 meses, 15 mil civis Iraquianos foram mortos por bombardeios de aviões e Drones na guerra contra o Estado Islâmico, segundo levantamento de agencias humanitárias internacionais. Outras três milhões de pessoas foram desalojadas. A guerra na Síria ja matou 230 mil pessoas. Ao menos 4 milhões de refugiados Sírios ja deixaram o país.

O Presidente Frances declarou os ataques em Paris, um ato de guerra. Exatamente por ser um ato de guerra que isso faz dele, parte-responsável pelas mortes de inocentes nas ruas de Paris. A morte de milhares de inocentes em países do Oriente Médio tem repercução direta nos ataques e na insegurança de alguns países da Europa e EUA. Estes mesmos países, são acusados de crimes de guerra por instituições Ocidentais e pela própria ONU. As evidencias são numerosas. Ataques com drones em países soberanos é em si um ato de guerra. Vale lembrar que a guerra foi declarada contra uma entidade sem base fixa ou território ou seja, o inimigo é o Estado Islâmico e não o Iraque e a Síria. Por tanto, a morte de cidadãos Sírios, Iraquianos e Afegãos pelo exercito dos EUA, França e reino Unido são considerados um crime de guerra. Mais que isso, os ataques de drones estão matando civis inocentes em países membros da ONU. O ataque a um hospital da organização internacional Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão em Outubro desse ano, deixou mais de 30 mortos. Segundo as leis internacionais, ataques a hospitais são considerados crime de guerra. Segundo a diretoria do MSF, as coordenadas exatas de todos os hospitais operados pela instituição são passadas para todas as forças militares com ações na região. Os EUA sabia exatamente onde estava o hospital e mesmo assim decidiu prosseguir o ataque.

Um grande numero de pilotos de Drones estão deixando o serviço militar por conta do crescente numero de inocentes mortos pelos bombardeios. Brandon Bryant, ex-operador de drones do exercito Americano, conta que viu homens, mulheres e crianças morrerem. O Americano relembra um ataque que ele não consegue esquecer que aconteceu quando operava um drone que investigava uma pequena cabana feita de barro, que servia como abrigo para cabras. Quando recebeu a ordem de atirar, Bryant disse que colocou a mira a laser no meio da cabana e seu colega apertou o botão do controle que fez o drone disparar um míssel no Afeganistão, 6.250 milhas de distância da sua base militar nos EUA. Bryant conta que o míssel levaria 16 segundos para o impacto. Faltando 7 segundos ele observava qualquer possibilidade de civis próximo do local e desviar o míssel, mas com 3 segundos do impacto, Bryant disse que uma criança apareceu ao lado da cabana. Era tarde demais, a cabana foi destruída e a criança desapareceu. Ações como essa são normais e ocorrem todos os dias, disse o ex-militar em entrevista ao site Truth Alliance Network.

As barbáries do Estado Islâmico são inegáveis. Não ha duvidas de que o Estado Islâmico precisa ser parado. Mas como destruir um inimigo que não tem base fixa? O Estado Islâmico esta infiltrado em quase todo o Oriente Médio e em quase toda a Europa. A França ja identificou alguns dos envolvidos nos ataques de ontem como sendo cidadãos Franceses orientados por militantes fora do país. É possível que os ataques desta Sexta Feira tenham sido em retaliação a morte do chamado Jihadi John, um cidadão Britânico que aparece em vários videos decapitando cidadãos Americanos e Europeus, apenas um dia antes dos ataques em Paris.

Por mais chocantes que tenham sido as mortes nas ruas de Paris, é importante lembrarmos que as ações do Ocidente em países do Norte da Africa e Oriente Médio, são de uma magnitude muito superior ao que se viu ontem em Paris, seja em números de inocentes mortos ou força militar. Os Estado Islâmico depende de pessoas dispostas a morrer em ataques suicidas. As forças militares Ocidentais possuem os mais avançados sistemas de guerra do mundo. Mesmo assim, foram incapazes de impedir ataques como o de ontem na França. É notório que a mentalidade Ocidental de resolver problemas com bombas, é uma estratégia falha. É importante ser considerado também que, a situação chegou a um ponto em que a diplomacia ja deixou de ser uma opção possível. “É muito mais difícil tentar ser meu amigo depois que você exterminou minha família”. A solução possível no momento, seria talvez, encontrar uma forma de bloquear o fornecimento de armas, munição, alimento e veículos usado pelo Estado Islâmico. Estimativas acreditam que o Estado Islâmico tenham 40 mil soldados. Alguém esta financiando esse exército. Fotos divulgadas nas redes sociais, mostram soldados do Estado islâmico em dezenas de pickups modelo Toyota Hilux, adaptadas com metralhadoras anti-aéreas. Estes veículos não são fabricados no Iraque, Síria ou Afeganistão. Por tanto, qual a origem destes veículos? Quem fez a importação? Quem vendeu? Quem pagou? como pagou? São perguntas importantes que precisam de respostas. Alguns veículos de comunicação do próprio Oriente Médio, acusam a Arabia Saudita de ser o principal financiador do Estado Islâmico. A Arabia Saudita é considerado um importante aliado pelos Britânicos, e seu líder costuma ser hóspede da Rainha no Buckingham Palace em Londres. Para acabar com as mortes de inocentes nas ruas da Europa e EUA, é extremamente importante que o Ocidente ponha um fim nos bombardeios e mortes de inocentes no Oriente Médio e adote uma estratégia que inclua o desenvolvimento dos países da região juntamente com o fim dos financiamentos de grupos rebeldes como o Estado Islâmico. Essa guerra é impossível de ser vencida com bombas. Se os governos do Ocidente continuarem sua campanha militar sem um plano claro para o futuro da região, o mundo continuara sendo um lugar menos seguro do que costumava ser antes do 11/09. A Europa esta pagando um preço alto pela incompetência de seus governantes e enquanto a estratégia continuar sendo a de bombardear tudo e todos, os cidadãos Europeus continuarão a morrer em episódios lamentáveis como o desta semana em Paris. O mundo é um lugar menos seguro para se viver.

Margaret Thatcher: A Sociedade Não Existe! (reflexão)

By: Michaell Lange,

London, 13/11/15 –

Durante uma entrevista em 1987, Margaret Thatcher fez uma de suas declarações que viraria assunto de livros e discussões em universidades do mundo inteiro. “There is no such thing as society. There are men, there are women and there are families” – “A sociedade não existe. Existem homens, existem mulheres e existem famílias”. O que Margaret Thatcher quis dizer exatamente é alvo de debates. Conservadores afirmam que ela apenas disse que as pessoas não deveriam depender do governo e não esperar que o governo resolva seus problemas. Ja a esquerda acredita que Margaret Thatcher expressou sua verdadeira visão neoliberal onde o governo não tem responsabilidade social e o mundo é feito de indivíduos ao invés de comunidades. De fato, as duas explicações parecem estarem corretas. Thatcher, do ponto de vista conservador, realmente queria construir um país onde cada indivíduo fosse responsável por seus problemas, sucessos e derrotas. Um estado reduzido, sem interferir nas questões básicas da sociedade e da economia. O governo deveria ser responsável apenas em manter um campo de oportunidades, onde cada indivíduo se beneficiaria de acordo com a sua própria vontade. Ao mesmo tempo, as escolas da esquerda política do país, acreditam que Thatcher queria o fim da idéia de comunidades, onde todos colaboram e se ajudam, em troca de uma sociedade formada pelo individualismo, onde a competitividade entre as pessoas criaria riqueza e benefícios econômicos para o país.

É inegável que Margaret thatcher conseguiu grande parte dos seus objetivos. O legado, positivos e negativos, econômicos e sociais, deixado por seus três mandatos consecutivos, estão em todas as partes do país. É impossível caminhar pelas ruas de Londres, Liverpool e Manchester sem perceber a magnitude das transformações causadas por suas políticas revolucionárias. No final dos anos 70, o Reino Unido era um país em grandes dificuldades econômicas, extremamente controlado pelo governo de esquerda e pelos sindicatos, sobretudo dos mineiros. Seguidas greves de vários setores trabalhistas, dominados por militantes comunistas, paravam o país. A educação era precária, a segurança era negligente o sistema de saúde precário, altos níveis de desemprego e inflação alta. Thatcher tirou o país das mãos comunistas e entregou nas mãos da extrema direita. Alguns colegas de partido admitem que o grande erro de Thatcher foi ter ido longe demais em suas políticas econômicas.  Mas, o foco desse artigo é a questão social e seu impacto na sociedade Britânica e em sociedades ao redor do mundo.

O Reino Unido de 2015, sobretudo a Inglaterra e sobretudo Londres, é uma sociedade individualista e extremamente egoísta. Mas, essa afirmação é contraditória quando comparada com a gentileza e o grande senso de caridade do povo Britânico. A base da sociedade Britânica é extremamente forte nas questões referentes aos valores Cristãos, mas estes valores se confundem com um forte senso individualista e egoísta nas questões econômicas e profissionais. A instituição familiar também é praticamente inexistente se comparado com a sua importância em países como o Brasil e EUA. O Natal no Reino Unido é provavelmente um dos mais bonitos do mundo, mas é triste ver que os filhos não fazem muita questão de passar o natal junto dos pais. Preferem a companhia dos amigos nos Pubs da cidade do que celebrar um dia especial em família. A relação entre pais e filhos é muito diferente daquela que o Brasileiro esta acostumado. Os filhos saem cedo de casa para morar com amigos e falam com os pais apenas algumas vezes por ano, as vezes apenas pelo telefone. Visitar os pais ou parentes é visto pelos mais jovens como algo chato. Me parece que estas questões, se não são criações exclusiva das políticas de Thatcher, certamente foram maximizadas pelo senso individualista e egoísta promovida por sua nova visão social apelidada de “Eu, Eu, Eu” em referencia ao egoísmo individual que quer tudo para si. Um ditado popular Brasileiro que representaria bem o ideal de Thatcher seria aquele que diz: “Farinha pouca? meu pirão primeiro”.

Ao meu ver, o que o neoliberalismo trouxe para o mundo nas questões sociais pelas mãos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, foi uma mudança radical no comportamento das pessoas. Felicidade, era o objetivo de vida da maioria das pessoas. Hoje, o objetivo de vida da maioria, é o sucesso econômico. A busca pela felicidade incluía coisas simples como, casamento por amor, ter amigos verdadeiros, preocupar-se com as pessoas a nossa volta, ser pai, ser mãe, ter uma identidade comunitária e familiar e claro, ter sucesso profissional e econômico. A busca pelo sucesso financeiro, sobretudo impulsionado por uma onda de consumismo, ignora as coisas simples que eram importantes na busca da felicidade. O casamento por interesse passou a ser aceito, mesmo com o aumento no numero de divórcios. Os amigos não precisam ser verdadeiros, basta que exista interesses financeiros em comum. A vida dos outros, deixou de ser importante. Ser pai e mãe passou a ser um problema na busca pelo sucesso financeiro principalmente para a mulher. A comunidade passou a ser um lugar com indivíduos com objetivos diferentes. As pessoas competem por seus objetivos e não pelo bem social.

Mas, a problemática da afirmação de Thatcher de que a sociedade não existe, põe em cheque a própria justificativa para a existência do governo. Afinal, para que serve o governo se não, para servir o povo? Numa sociedade, cada indivíduo é sócio. todo indivíduo paga impostos que são administrados pelo governo e retornados para sociedade em benefícios sociais. Imagine que você seja sócio de um clube de recreação. Como todo clube, seus sócios pagam uma mensalidade para que tenham o direito de usar dos seus benefícios. A diretoria (no caso, o governo), é apontado para administrar as mensalidades e gerenciar os bens do clube. Imagine que um dia ao chegar no clube você seja surpreendido por medidas da diretoria, que resolveu vender ou privatizar a piscina, a academia, a sauna e o estacionamento do clube com o argumento de que a diretoria (ou governo), não deveria ter o controle de todos os bens do clube. Os sócios por outro lado, agora terão que pagar alem da mensalidade, o estacionamento, a piscina, a academia e a sauna. Num clube de recreação, qual seria a sua reação perante estas medidas? Possivelmente a de revolta. Como a diretoria poderia vender algo que pertence aos sócios do clube? Certamente a diretoria nesse caso, estaria perdendo a razão da sua existência. O mesmo acontece na sociedade de um país. Mas, por que muitos de nós reagem de forma diferente e até mesmo apoiam o governo na venda de bens que não lhes pertence? Toda sociedade depende de uma economia forte. Mas a principal justificativa para a existência de um governo é, a gerencia dos bens pertencentes aos sócios da sociedade. Não ha justificativas para a existência do governo para uma sociedade se não a defesa dos interesses dos sócios desta sociedade.

Para Margaret Thatcher, a ideia de uma comunidade social onde seus sócios tem o poder sobre os bens sociais através da representatividade governamental, vai contra sua visão neoliberal onde os bens sociais pertencem a outras pessoas, pessoas de outros países, de outras sociedades que, necessariamente não precisam ter interesse no bem estar das pessoas desta sociedade. Cria-se dessa forma, um mundo egoísta onde governos, corporações e indivíduos de uma determinada sociedade, podem comprar os bens de outras sociedades e transferir os benefícios ou lucros, para a sociedade de origem. Assim, a sociedade A pode comprar os bens da sociedade B, e os lucros da sociedade B podem ser transferidos para a sociedade A. Esse, é o mundo de uma sociedade neoliberal. O governo vende os bens que pertencem ao povo, e o povo passa a ter que pagar duas vezes para usar algo que ja era seu. Por exemplo: O governo constrói estradas com o dinheiro dos seus sócios (o povo), e depois entrega as estradas para a iniciativa privada que por sua vez, ira cobrar pedágio do povo para poder usar algo que era seu. Mas, é certo afirmar que muitas políticas de Thatcher deram certo. Salvar o país das mãos dos comunistas, foi fundamental para o Reino Unido ser o que é hoje, mas o comunismo totalitário e neoliberalismo são duas ideologias extremistas. O ideal esta em algum ponto entre os dois extremos. Thatcher salvou os Britânicos dos comunistas, mas entregou o país nas mãos dos neoliberais. Seu maior erro foi ter ido longe demais. Um país sem uma sociedade com senso de comunidade, composta de indivíduos egoístas e individualistas, esta condenada a falhar. O governo não tem o direito de vender o que é publico assim como não tem o direito de controlar o que é bem privado. Um país precisa funcionar como um clube de recreação onde os bens do clube não podem ser privatizados porque pertencem aos seus sócios, assim como os carros dos sócios são bens privados nos quais o clube não tem o direito de controlar.

Harry Patch: Aprendendo Com As lições Do Passado. (reflexão)

By: Michaell Lange,

London, 11/11/15 –

Hoje, é o dia em que os Britânicos comemoram o chamado “Armistice Day”, dia de lembrar e demonstrar respeito aos combatentes da Primeira Guerra Mundial e todos os mortos de todas as guerras. Todos os anos, às 11 horas do dia 11, do mês 11, os Britânicos param por 2 minutos para lembrar o momento em que os canhões e os rifles foram silenciados pelo fim da Primeira Guerra Mundial. A guerra que acabaria com todas as guerras, falhou em todos os seus objetivos, sobretudo no que se refere a Paz duradoura. Apenas uma década depois do fim da grande guerra, o mundo voltou a ficar de joelhos com a depressão econômica de 29. Dez anos mais tarde, em 1939 a Segunda Guerra Mundial veio provar que nem a Europa nem os EUA, aprenderam as lições do passado.

Hoje, comemoramos a vida daqueles que morreram por nossa causa, incluindo mais de 3 mil Brasileiros que perderam suas vidas durante a segunda guerra mundial. O Brasil foi o único país da America do Sul a enviar combatentes para a Segunda Guerra Mundial. Eu, como Brasileiro, aprendi a prestar meu respeito aos mortos das duas guerras mundiais, porque em ambos os casos, se os aliados não tivessem vencido a guerra na Europa, o Brasil certamente seria o próximo alvo por conta das nossas reservas naturais de energia e minérios. As estimativas de mortes nos dois conflitos variam, mas estima-se que 100 milhões de pessoas perderam suas vidas nos dois conflitos, incluindo 7 milhões de militares e 11 milhões de civis na primeira guerra mundial, e 55 milhões de civis e 25 milhões de militares na segunda guerra mundial. Meu maior questionamento sobre o maior holocausto de inocentes da história humana é; Sera que todos aqueles inocentes morreram em vão? Sera que apenas lembrar o sacrifício e todos os horrores da guerra, sem termos aprendido nada com as lições do passado, é o suficiente para demonstrar respeito por tantas mortes? Apenas na primeira década do século 21, assistimos a duas guerras envolvendo a Europa e os EUA que resultaram na morte de mais de 1 milhão de civis e milhares de outros desalojados. A crise econômica de 2008 foi a pior desde a depressão de 29. Os conflitos na Síria, financiados pela Europa e EUA, ja deixaram mais de 130 mil mortos e resultaram na maior crise de refugiados desde a segunda guerra mundial. Como não lembrar das vitimas de duas grandes guerras sem sentir ao mesmo tempo, profunda vergonha e desrespeito por não termos aprendido a lição da devastação e sofrimento causado pelas guerras?

O Britânico Harry Patch, ficou conhecido como o último sobrevivente a lutar na primeira guerra mundial. Harry morreu em 2009 aos 111 anos, mas como muitos outros soldados, Harry não morreu em vão. Em 1917 foi enviado para lutar na linha de frente na França onde foi ferido na explosão de uma bomba que matou 3 de seus amigos. Harry, assim como seus amigos, não teve escolha. Se ele se recusasse a lutar, a punição era o pelotão de fuzilamento. Mas, harry era um pacifista que como eu, nunca quis matar ninguém, nem lutar em guerras estúpidas causadas por lideres incompetentes que nunca mandarão seus próprios filhos para a guerra. Ao chegar na linha de frente, Harry e mais 5 amigos fizeram um pacto secreto de nunca matar um único homem. Por grande parte dos seus 111 anos de idade, Harry precisou esconder seu pacto pacifista, porque se fosse descoberto, mesmo depois de tanto tempo após o fim da guerra, ele ainda poderia ser condenado por traição a patria. Pouco antes de morrer, Harry resolveu falar o que pensava sobre a guerra. Para ele, as guerras são “massacres calculados” e os mortos são vitimas de governo incompetentes. Para Harry, uma guerra não poderia valer mais do que uma vida. Durante um encontro com o então Primeiro Ministro Britânico, Tony Blair, Harry teria dito: “Os políticos que nos levaram a guerra deveriam ter escolhido as armas e resolvido o problema entre eles, ao invés de legalizar massacres em massa”. Harry também teria dito a Tony Blair que: “nenhum soldado deveria ter sido condenado a morte por covardia pois, as guerras não passam de assassinatos organizados”. Tony Blair teria dado uma desculpa qualquer antes de sair caminhando da conversa. Quantos soldados como Harry, foram forçados a lutar uma guerra por conta do orgulho, da teimosia e da incompetência de um líder? Quantos jovens ainda serão iludidos e seduzidos pela propaganda militar antes de serem obrigados a lutarem em guerras estúpidas para defenderem os interesses privados de pessoas que jamais terão coragem de colocar suas próprias vidas em risco? Quantos jovens ainda serão condenados por lideres inescrupulosos, a conhecerem a verdadeira tragédia de um conflito e a total incapacidade de uma luta armada proporcionar qualquer possibilidade de paz duradoura?

Enquanto escrevo estas linhas, o relógio marca 10:25. Em pouco mais de meia hora, irei parar juntamente com outros milhares de Britânicos para prestar minhas homenagens aos mortos da primeira e segunda guerra mundial, mas não vou esconder minha profunda frustração, vergonha e revolta, por viver num mundo que se recusa a aprender as lições do passado, e que por isso, estará condenado a repetir os mesmos erros responsáveis pela morte de 100 milhões de inocentes, vitimas da própria indiferença humana. Daqui a pouco, os carros irão parar e seus motores serão desligados. Trens, ônibus e o sistema de metro, também irão parar por 2 minutos. A TV e o rádio irão transmitir a imagem e o som do sino do Big Ben batendo onze vezes. Políticos e trabalhadores, nas construções e nos escritórios irão se juntar a outras milhares de pessoas nas ruas de Londres para fazerem 2 minutos de silêncio. Mas, o legado de soldados como Harry Patch, de que bombas jamais levarão a humanidade a paz duradoura, continuara a ser ignorada. Muito ouve-se falar sobre as ameaças que as mudanças climáticas podem trazer para o futuro da humanidade, mas pessoalmente, acredito que os lideres mundiais continuam sendo a maior ameaça a vida na terra. Cabe a nossa geração de pais, passar a nossos filhos uma mensagem diferente para que as futuras gerações possam desfrutar de paz e a guerra seja apenas um assunto para os livros de história.

Harry Patch

Armistice day London