Uma Reflexão E Um Alerta

By: Michaell Lange.

London, 19/10/15 –

Muitas pessoas aqui nas redes sociais e na grande mídia, não economizam palavras para criticar a situação dos refugiados nas fronteiras da Europa. O Deputado Federal pelo PP, um dos partidos mais corruptos do Brasil e do mundo,Bolsonaro, se referiu aos refugiados como a “escória do mundo”. O amigos do Bolsonaro, ha milhares pelo mundo, não os querem aqui por vários motivos, a maioria baseados em alguma forma de preconceito racial e ou religioso. O principal motivo ao meu ver é ignorância. Mas a ignorância é um álibi e por isso, não condeno ninguém pela falta de conhecimento ou por ignorância causada pelo medo disseminado por outras pessoas não tão ignorantes, mas certamente mal intencionadas como o deputado federal citado acima. De uma forma ou de outra, quando procura-se por motivos para justificar esse tipo de atitude, normalmente acaba-se por encontra-las. Hitler por exemplo, encontrou justificativas para matar mais de 6 milhões de inocentes. Stalin, também encontrou suas justificativas para assassinar milhões de conterrâneos e Ucranianos. O Imperador do Japão, Hirohito, encontrou justificativas para atacar Pearl Harbor e condenar seu próprio povo aos horrores da guerra. Até mesmo Tony Blair e George W Bush em pleno século 21, encontraram justificativas para invadir e destruir o Iraque em 2003 que deixou 600 mil civis mortos. Os terroristas também encontram uma forma de justificar seus ataques, inclusive usando escritos do Alcorão, livro sagrado dos Muçulmanos cuja a base religiosa é amar o próximo indiferente da sua fé. Mas até mesmo a própria Igreja Católica conseguiu encontrar na Bíblia, justificativas para a inquisição. O medo é quase sempre o motivo central que justifica esse modo de pensar atrasado e perigoso. “eles irão invadir nossas cidades!” “Eles irão implantar a lei Islâmica no mundo” ou “Eles são terroristas e estão chegando para nos matar”…

A justificativa de muitos Europeus vai alem do absurdo. Uma senhora Inglesa dizia a radio LBC; “por que eles querem vir para Europa? e os outros países do mundo?” questionava ela. Eu ouvia aquilo e usava o álibi da ignorância para defender aquela senhora contra os meus pensamentos mais rebeldes e menos pacientes. Claro que ela não sabia que existem atualmente 60 milhões de refugiados no mundo, e que países sub-desenvolvidos acolhem quase 90% do total. Claro que ela não sabia que ha 1.6 milhões de refugiados na Turquia, 1.2 milhões no líbano e outras centenas de milhares nos países ao redor das areas em conflitos na Africa, na Asia e na America Latina, e a mídia Britânica e seus seguidores vão a loucura por causa de 5 mil refugiados no porto francês de Calais, que é a principal rota terrestre/marítima de entrada no Reino Unido. Claro que ela não sabia que a Russia é o numero 1 do mundo em números de pedidos de asilo, seguido por Alemanha e EUA. Mas, estas pessoas sempre encontrarão os meios para justificar seus pensamentos xenofóbicos. Uma Italiana falando inglês com aquele sotaque forte e característico, esbravejava ao telefone na mesma radio, “estas pessoas são todas terroristas, temos que deixa-los se afogarem no mar…”. A principal justificativa dela era a religião. “Os muçulmanos são todos terroristas e estão invadindo a Europa para implantar a lei da Sharia”. Fiquei pensando, que direito (moral) ela tem para criticar aquelas pessoas por estarem fugindo de seus países destruído pela guerra, se ela mesmo reside no estrangeiro?  Sem dizer que os motivos dela, muito provavelmente, sejam menos significantes e menos urgentes do que os motivos dos refugiados.

O medo do Islamismo não é totalmente infundado. Ha razões para preocupações, mas não podemos condenar todos os muçulmanos por conta dos crimes de alguns poucos. Eu conheço, convivo e estudei com muçulmanos e a maioria deles são moderados como os Católicos e alguns mais radicais, como alguns Católicos (sobretudo evangélicos). Se condenarmos os povos muçulmanos por conta de alguns criminosos teríamos que condenar todos os Católicos pelos crimes cometidos por exemplo, pelo Exercito republicano Irlandês, mais conhecido como IRA, porque seus membros são considerados terroristas e Católicos. E pelos crimes cometidos pelo exercito separatista basco da Espanha, mais conhecido como ETA, que também são considerados terroristas e Católicos. E pelos crimes da Ku Klux Klan, mais conhecido como KKK? que também são Católicos supremacistas. Dois destes grupos, o ETA e o IRA, são organizações Cristãs Européias e terroristas. Então o argumento da religião não deveria ser um problema, ja que a mesma não determina o radicalismo. Por tanto, o fator religião só se justificaria caso a critica seja baseada no medo do desconhecido ou seja, ignorância.

Radicais e extremistas podem ser encontrados em todos os lugares, indiferentes da religião. Radicais, terroristas, podem ter base religiosa, política ou puramente criminosa.
A questão da ignorância com relação aos críticos sobre a situação dos refugiados esta na dificuldade destas pessoas se colocarem na situação da vitima, e isso é muito preocupante. Uma pessoa incapaz de entender o drama e a dor por trás da tragédia humana vivida por pessoas que estão perdendo a vida tentando fugir da guerra, é exatamente a base de pensamento dos maiores assassinos da história humana como Hitler e Stalin. Ninguém seria capaz de recusar ajuda a alguém tendo consciência de que amanha pode ser a sua vez e a vez da sua família. A grande maioria destes críticos, incluindo as duas mulheres que falaram na radio hoje, certamente ficariam chocadas caso se deparassem com a dura realidade de um campo de refugiados e vissem com seus próprios olhos, a situação desesperadora em que se encontram milhões de pessoas, incluindo mulheres e crianças. Vejo isso acontecer constantemente aqui no Reino Unido quando alunos de escolas inglesas ou voluntários são enviados para países na Africa e se dão conta das diferenças de realidades entre as ruas de Londres e os guetos de Johannesburgo na Africa do Sul. A maioria senta no chão e chora sem parar.  O drama humano não existe para os críticos até o momento que eles passam a ser as vitimas. Os Judeus tiveram essa experiência e até os Alemães tiveram a mesma experiência de serem os imperialistas no inicio da guerra e depois sofrerem as consequências da retaliação na derrota para os aliados. A diferença entre os Alemães e os Israelenses é que os Alemães parecem ter aprendido a lição.
Aqui no Reino Unido, que viveu os horrores da guerra e a destruição causada pelos bombardeios Nazistas, a posição contraria aos refugiados me entristece, mas não me surpreende. O conservadorismo do atual governo nunca foi surpresa, sempre foi algo declarado. Talvez essa rejeição seja porque os Nazistas não tenham conseguido de fato, invadir e dominar o país por terra e assim, assassinar e estuprar mulheres e crianças como o Estado islâmico tem feito no Norte da Africa e Oriente Médio. Talvez por conta disso, o povo Britânico mesmo sofrendo com a destruição, não precisou fugir como refugiados, apesar de milhares de crianças Britânicas terem sido evacuadas de navio para os EUA durante os primeiros anos da década de 40.

O que se percebe é que o mundo esta menos humano, e isso é extremamente preocupante. Quando tragédias como essa deixam de chocar as pessoas, quando a morte de famílias inteiras tentando fugir da destruição é encarada como algo normal ao invés de causar indignação e sentimento humanitário, é sinal de que o mundo esta se encaminhando para outra catástrofe assim como foram as duas grandes guerras. A falta de preocupação pelo próximo, a falta de zelo do ser humano pelo próprio ser humano é quase como uma declaração de consentimento para que os tiranos ao redor do mundo, tenham a justificativa que precisavam para promover seus planos de extermínio. A Falta de sensibilidade com os refugiados é quase um certificado de legitimidade para o estado Islâmico continuar sua barbarie.

É fato, e largamente aceito, de que receber refugiados não é a solução para o problema. Mas, ignorar a causa humanitária é ainda pior. Dar passagem a estas pessoas para um local seguro não é uma opção, é uma obrigação de todos os governos do mundo que assinaram a convenção da ONU de 1951 que definiu a condição de refugiado e as obrigações dos países que fazem parte da convenção. Ninguém planeja abandonar seu país de forma desesperada apenas com a roupa do corpo sem uma razão no mínimo legitima.

A única solução para esse problema esta na estabilização da região e na libertação de interesses externos por interesses e influencias estrangeiras. A Europa, os EUA e a Russia e de certa forma a China, são os principais responsáveis pela catástrofe no Oriente Médio e Africa. Sem um acordo entre estes super poderes, a crise humanitária só tende a piorar. A ONU é a única instituição capaz de reunir todos os países do mundo em prol de um bem comum, mas fica o alerta; a total inabilidade da ONU de lidar com esta grave situação é em si, motivo para preocupação. A segunda guerra mundial teve inicio na incapacidade da então Liga das Nações, de promover seu principal objetivo que era manter a paz em todo o mundo. A falência da ONU em resolver os problemas responsáveis pela atual calamidade humana, pode ter consequências graves ao mundo. Se considerarmos o largo domínio dos armamentos nucleares ao redor do planeta e a escalada militar ao redor do oriente médio e a interferência principalmente da Russia, EUA e Europa, o que hoje é apenas uma crise humanitária, pode vir a se transformar num verdadeiro armagedão. A crise humanitária não é um problema apenas da Europa, mas de toda a comunidade internacional. A segurança e a estabilidade do Oriente Médio é de interesse de todas as nações. Um conflito na região envolvendo as principais potências mundiais pode sim, levar o mundo a uma situação impensável. O fim do humanismo e do sentimento de solidariedade pode ser a evidencia mais forte de que estamos caminhando para uma nova era das trevas. O meu desejo é de que minha reflexão esteja totalmente equivocada.

Sera Que Seu Comportamento Reflete Os Valores E As Virtudes Que Você Acredita?

By: Michaell Lange.

London, 17/10/15 –

A idéia de escrever este artigo não é criticar nenhuma religião em particular, nem mesmo se trata de uma critica a religião. A critica desse artigo esta diretamente direcionada ao ser humano e a forma como nos comunicamos e nos comportamos de acordo com nossas crenças ou de forma contraria as nossas crenças e valores. Mesmo não sendo uma critica a religião, a base critica desse artigo tem a religião como foco principal por ser uma instituição compartilhada por quase 100% da população mundial e seus princípios e ensinamentos estão diretamente ligados as contradições que eu pretendo questionar abaixo. Tais questionamentos devem ser compreendidos como uma necessidade constante de exercitar nosso próprio comportamento em relação ao que acreditamos. Sera que meu comportamento e minhas atitudes estão de acordo com as crenças e valores que eu acredito?

É uma situação irônica e trágica ao mesmo tempo. Mas, o reflexo da realidade do mundo em que vivemos conta uma história bem diferente sobre aquilo em que acreditamos. Na base fundamental de todas as religiões estão inseridos princípios e valores muito similares. As três maiores religiões do mundo, Cristianismo, Islamismo e Hinduísmo, somam juntas um total de quase 5 bilhões de seguidores. O Cristianismo apresenta como valores fundamentais a renuncia da violência, o perdão e o amor incondicional a Deus e ao próximo. O islamismo tem a Paz como conceito básico. A tradução Árabe para a palavra “Islam” é comumente aceito como: Submissão aos desejos e as vontades de deus. Segundo o Alcorão, o livro sagrado dos Muçulmanos, Mohammad teria dito: “O ser humano é dependente de Deus e os mais amados por Deus serão aqueles que mais amar seus dependentes”. O Hinduísmo é considerado uma das religiões mais tolerantes do mundo. Uma das virtudes promovidas pelo Hinduísmo é não ferir ninguém no seu processo de crescimento.

Na base de todas as religiões é possível encontrar valores e princípios comuns a todas as religiões como por exemplo, o Amor, a Paz, a tolerância, a integração, o respeito, a compaixão e o perdão ao próximo indiferente a sua fé. “Amem aos seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam. Abençoem aos que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam” (Lucas 6:27-28). Mas, como é possível vivermos num mundo dominado pela intolerância, pelo desrespeito, pelo revanchismo,  pela violência, egoísmo, ambição, inveja, pelo desamor ao próximo, pelo racismo, preconceito e discriminação, se a grande maioria dos 7 bilhões de seres humanos que habitam nosso planeta hoje, vivem sob as doutrinas religiosas que pregam a Paz, o Amor, a tolerância e o perdão como valores fundamentais da sua existência? É claro que todos nós sabemos a resposta exata para esta pergunta. “A verdade é uma ofensa, mas não é um pecado” (Bob Marley). A maioria de nós, Cristãos e Muçulmanos, não oramos por Amor aos ensinamentos de Deus ou Allah. Nós não participamos das missas e cultos religiosos por Amor ou submissão as nossas respectivas religiões e seus e sagrados valores e virtudes. A maioria de nós, segue uma ou outra religião, por medo. Medo de não ser salvo, medo de ir para o inferno, medo de Deus, medo do desconhecido, medo do que os outros irão dizer, medo do julgamento. Mas curiosamente, esse mesmo medo que nos faz declarar fidelidade a uma religião, não é grande o bastante para nos fazer cumprir valores e princípios pelos quais acreditamos fielmente serem o caminho do bem, o caminho do correto. Temos medo de deus, mas não temos medo do pecado. Não temos medo de sentir ódio, de promover a intolerância. Não temos medo de promover a violência, a indiferença, a discórdia e a guerra. Não temos medo de mentir, de corromper e ser corrompido. Não temos medo de negar a mão ao necessitado. Mas aos domingos estamos lá na igreja, ajoelhados, fechando os olhos com força e elevando nossas mãos aos céus. Mesmo aqueles não religiosos ou Ateus, concordarão sobre a importância dos mesmos valores e virtudes promovidas pelas religiões ao redor do mundo mas, sera que as suas atitudes diárias refletem as crenças, os valores e as virtudes em que você acredita? Não é preciso ser religioso. Basta ser fiel aquilo que você acredita, mas a grande verdade é que, somos incapazes de ser aquilo que acreditamos. Todos querem o fim da corrupção, todos querem a paz no mundo, todos querem justiça social, todos querem segurança, todos querem uma cidade limpa. Todos querem mudanças, mas ninguém esta disposto a mudar.

Segundo a ONU, são 60 milhões de refugiados em todo o mundo. Mulheres, jovens, crianças, famílias inteiras, fugindo da perseguição, da guerra, do preconceito, da intolerância, do revanchismo, da cobiça, da ganância, do racismo. O desastre humanitário que ocorre em pleno século 21, tem revelado grandes verdades sobre as verdadeiras faces da humanidade. A crise humana que levou à cruz e à morte brutal, uma das pessoas mais importantes da nossa história, continua inalterada 2000 mil anos depois. As fotos, os videos e as histórias compartilhadas por nossos irmãos refugiados, nos faz crer que 2000 mil anos após a crucificação de Cristo, a humanidade parece não ter dado um único passo a frente.

A conclusão é a de que temos duas escolhas. A primeira é, continuar promovendo a grande mentira. A mentira de que somos pessoas boas. A mentira de que não somos corruptos. A mentira de que somos fieis aos ensinamentos de Deus. A mentira de somos cidadãos de bem. A mentira de que somos felizes. A mentira de que somos tolerantes e pacifistas. A mentira de que seguimos as leis e a mentira de que somos justos e corretos. Essas são as mentiras que fazem do nosso mundo um mundo de mentiras.

A segunda escolha é, fazer apenas aquilo que gostaríamos que os outros fizessem por nós, e transformar as virtudes, as crenças e os valores em que acreditamos, em atitudes diárias em nossas vidas ou seja, ser verdadeiramente aquilo que acreditamos ser. Dessa forma é possível transformar o mundo de mentiras e sofrimento em que vivemos hoje, em um mundo verdadeiro e mais justo para todos. Quem sabe assim, possamos por um fim ao risco eminente de crucificação de toda a humanidade.

O Menino Que Pode Ter Dado Sua Vida Para Salvar a Humanidade

By: Michaell Lange.

London, 07/09/15 –

De repente, o sentimento em favor dos refugiados tomou conta da Europa. A vontade de ajudar pessoas em necessidade parece ter invadido a sensibilidade dos Europeus e do mundo. Acordou uma sociedade talvez, anestesiada pela crise econômica que tanto oprimiu o simples humano que esqueceu da verdade, o quanto ainda tinha a perder alem de dinheiro. De repente eles viram que havia milhares de pessoas a sua volta. Um sentimento agigantado acordou o ser humano moribundo e cego. Incapaz de ver seu próprio irmão perder as forças e desistir de caminhar ao seu lado. De repente, a Europa acordou diferente, o mundo acordou diferente. O dia amanheceu mais limpo, mais leve, mais justo, mais humano. As crianças acordaram sorrindo, brincando, se divertindo. Pareciam felizes como nunca antes haviam estado. Uma onda de alegria tomava conta das rua, dos becos. Nos cantos escuros onde se escondiam o medo, a vergonha, a tristeza, agora havia luz, conforto, coragem. As pessoas vinham de todos os lados para ajudar. Não queriam nada em troca, apenas ajudar a si mesmo, salvar a si próprio. Homens, mulheres e crianças, trouxeram mais do que comida, agua e brinquedos. Eles trouxeram um sorriso no rosto e um coração caloroso, uma mão amiga. Trouxeram a vida de volta para os outros e para eles próprios.

O Sol nasceu numa manhã diferente naquele dia. De repente, a religião não fez diferença. A cor da pele, não fez diferença. A classe social, não fez diferença. A lingua, não fez diferença. A nacionalidade, não fez diferença. Éramos ali, naquele exato momento, apenas humanos na sua forma mais pura, filhos do mesmo ser que nos deu a mesma herança genética. descobrimos Amigos, irmãos, velhos conhecidos que a muito tempo não se encontravam porque as barreiras nos impedia de ver, de ouvir, de sentir e de ser o que realmente éramos no inicio e que, havíamos esquecido de continuar sendo no futuro.

De repente, naquele dia alguém gritou por socorro, mas como na maioria das vezes, quase ninguém deu ouvidos. Afinal de contas não tinhamos tempo para mais nada. A voz que pedia socorro não era alta o suficiente para nos acordar do sono profundo. Tudo estava abafado pela agua salgada. O mar estava calmo e o céu estrelado, uma visão linda e pacifica mas, ao seu lado, só havia desespero, solidão e tristeza. Depois só restou o silêncio. Aquele silencio era tão ensurdecedor que foi ouvido em todos os cantos da terra e até do universo infinito e escuro. Como se fosse um susto no meio do sono profundo, as pessoas acordaram assustadas. Todos respiraram profundamente enquanto o coração batia acelerado. Não houve uma única pessoa capaz de escapar do silencio daquela imagem. Foi o silencio mais alto jamais ouvido antes por aquelas pessoas. Ali estava aquele menino, sozinho na areia da praia. Todo mundo virou para ver quem era. Ao olharem mais de perto, perceberam que aquele menino era alguém conhecido, mas quem? Alguém respondeu baixinho, aquele menino ali na areia, era você! A dor era tão forte que era possível sentir a contração oprimida e involuntária de um coração que havia parado de bater. As pessoas queriam, de alguma forma, entrar naquela imagem e resgatar a si próprio, mas era tarde demais. Havíamos, todos, perdido a vida ali naquela praia. Demorou para percebermos que não era apenas um pesadelo vivido por alguém desconhecido, num lugar desconhecido, bem distante da nossa casa. Não. Ali naquela imagem na areia da praia, estava a imagem de nossas próprias vidas, abandonada em troca da futilidade de uma vida que escolhemos viver sozinhos. O que tivemos que aprender na marra, foi que num planeta flutuante num universo infinito, é impossível viver sozinho. Você pode fechar os olhos com força, mas no momento em que você abri-los novamente, estaremos todos la, representados naquela imagem na areia da praia.

A foto do menino sem vida na praia, é uma representação verdadeira e sincera das nossas vidas. O sono profundo do menino, acordou a humanidade, mas muitos continuam dormindo, indiferentes ao que acontece a sua volta. Aos que acordaram e viram suas próprias vidas no corpo sem vida daquele menino, tem o compromisso e a responsabilidade de não deixar que o sono profundo da inconsciência humana, volte a vitimar aqueles que ainda nem sabem direito o que é a vida, e ja estão tendo que lidar com a morte. Talvez, a verdadeira salvação esteja na capacidade do ser, de se desprender do mundo material e conseguir ver o mundo despido de suas impurezas materiais e inúteis. Ajudar outra pessoa em necessidade pode ser o primeiro passo para acordarmos do sono profundo da inconsciência onde muitos caminham de olhos abertos mas, continuam incapazes de enxergar além do valor material do objeto que esta a sua frente. O amor e a vida são os maiores bens do ser humano e nenhum destes dois pode ser comercializado ou guardado como se fosse um produto. Mesmo assim, muitos de nós preferem ignorar estas evidencias irrefutáveis da nossa existência, para fazer parte de um mundo que tenta fazer da vida e do amor, moeda de troca. O menino Aylan Kurdi pode ter sido a ultima chance do ser humano acordar e ver o que precisa ser visto. Assim como um outro menino que viveu a mais de dois mil anos atras, o menino Aylan, pode ter dado a sua vida por nós, e a impressão que eu tenho é a de que, não estamos aqui para sermos salvos, mas sim para salvarmos uns aos outros…

Aylan Kurdi: O Símbolo de Uma Tragédia humanitaria

By: Michaell Lange.

London, 03/09/15 –

A foto do menino encontrado morto numa praia da Turquia chocou o mundo. O menino Sírio, chamado Aylan Kurdi, vivia com a família na cidade de Kobane, dominada por Jihadistas do Estado Islâmico. O irmão dele de 5 anos e a mãe também morreram, o pai foi o único sobrevivente e esta internado. Segundo informações divulgadas pela mídia hoje, a família resolveu fazer a travessia para a Grécia via Turquia, depois que seu pedido de asilo havia sido negado pelo Governo Canadense em Junho, onde parte da família vive hoje. A foto que mudou a opinião publica mundial reacendeu a urgência de uma solução para uma crise que ja passou de qualquer limite do absurdo. A morte do menino não é nem de longe um caso isolado. De fato, esse tipo de ocorrência se tornou um fato diário ao longo do Mediterrâneo. Segundo a ONU, somente nos primeiros 6 meses deste ano, 2432 pessoas morreram tentando cruzar o Mediterrâneo. Apenas na Síria, estima-se que o numero de pessoas deslocadas por conta da guerra civil, chegue a 8 milhões. Ao menos a metade ja deixaram o país. Praticamente toda a extensão da fronteira Leste da União Europeia esta vivendo uma situação caótica por conta do fluxo de refugiados tentando chegar a Europa. Na semana passada um caminhão frigorifico foi encontrado abandonado numa estrada na Austria. Dentro, os policiais encontraram mais de 70 corpos de refugiados, incluindo crianças. Ainda na semana passada, mergulhadores que investigavam uma embarcação que havia naufragado no mediterrâneo com mais de 400 pessoas abordo, encontraram centenas de corpos de refugiados, incluindo muitas crianças, dentro dos porões da embarcação. As pessoas que estavam dentro do porão não puderam sair porque o acesso estava fechado com cadeados. Nenhuma destas noticias chocou o mundo como a foto divulgada ontem. Realmente uma foto fala mais que mil palavras. A situação é tão grave que  segundo especialistas e historiadores, a gravidade da situação dos refugiados de 2015 lembram a situação dos refugiados da segunda guerra mundial, onde famílias, principalmente de Judeus, fugiam da perseguição implacável dos Nazistas. Anne Frank, a menina de 15 anos que escreveu um diário durante a fuga da sua família para Amsterdam ficou conhecida como um dos maiores símbolos do holocausto. A Europa vive uma grave crise humanitária cada dia mais similar com a crise dos anos 40.

O que mais impressiona na foto do menino Aylan, é que ele estava vestido como se estivesse indo passear com seus pais. Talvez, este tenha sido mesmo o argumentos dos pais para explicar a viagem de barco. “Vamos fazer uma aventura de barco”. Quando saio com meu filho, que também tem 3 anos de idade, esse tipo de argumento é comum para deixa-lo empolgado com a idéia. Imagino que o menino deve ter escolhido a roupinha que ele gostava, e o tênis novo, porque é assim que acontece com meu filho. Ontem, confesso que ao ver a foto pela primeira vez, mesmo sabendo de todas as mortes anteriores e ter compartilhado os horrores que estas pessoas tem enfrentado, fui até o quarto onde meu filho dormia, sentei ao seu lado e chorei. Chorei porque vi meu filho nos braços daquele homem do resgate na Turquia, e acredito que muita gente teve a mesma impressão que eu tive. Olhando para o meu filho ali dormindo numa paz total, em total silêncio numa cama confortável, fiquei imaginando os horrores que milhares de crianças pudessem estar passando naquele momento em que meu filho dormia confortavelmente. Garoto de sorte pensei comigo. Sabe muito pouco da vida esse inocente. Chora e reclama porque tem cebola na comida dele. Infelizmente, ele tera vantagens e chances muito maiores na vida pelo simples fato de ter nascido no Reino Unido e ser branco. Digo infelizmente porque essa desigualdade de tratamento são causadores de guerras e divisões sociais. Digo infelizmente porque para o governo Britânico, meu filho vale mais que uma criança Síria, e essa é uma realidade infeliz e injusta.

O impacto da fotografia demonstrou ao mundo mais uma vez, que qualquer matéria bem escrita e com riquezas de detalhes sobre a crueldade e o horror enfrentado pelos refugiados em qualquer lugar do mundo, nunca substituirá a capacidade impactante de uma foto. Quando se da um rosto e uma história ao holocausto que ocorre hoje com os refugiados na Europa, o choque é muito maior. Em 1972, durante a guerra do Vietnam, os EUA lançaram mais bombas do que em toda a sua campanha na segunda guerra mundial, 4.5 milhões de pessoas morreram, mas foi a foto da menina Kim Phuc de 9 anos de idade com o corpo severamente queimado pelas bombas incendiarias lançadas pelo exercito Americano, que comoveu o mundo e mudou a opinião publica Americana que passou a protestar pelo fim da guerra. Na tragédia dos refugiados na Europa que estamos vivendo neste momento, a foto do menino Aylan Kurdi esta fadada a se tornar o símbolo desta tragédia. A foto de Aylan representa outros milhares de Aylans que perderam a vida de forma trágica, entre outros milhares que nesse momento seguem suas fugas para um destino incerto.

As autoridades Européias estão divididas sobre qual a melhor solução para a crise. Muitos países da Europa se recusam a receber refugiados. No Reino Unido, o primeiro ministro, mesmo depois da divulgação da foto de Aylan, afirma que não recebera mais refugiados. A Alemanha deve receber 800 mil apenas este ano. Ao menos 200 mil estão na Grécia. Na Italia o numero se aproxima dos 100 mil. Mais de 1.5 milhões estão em campos para refugiados na Turquia e ao menos 1.4 milhões estão no Líbano. O canada, que negou o pedido de asilo para a familia de Aylan, recebeu pouco mais de 2 mil refugiados nos últimos 2 anos, numero parecido com o do Reino Unido. Mas, a Síria, com uma população de mais de 20 milhões de pessoa que tentam desesperadamente fugir da guerra civil, demonstra que a situação dos refugiados tende a piorar ainda mais nos próximos meses, sobretudo com a chegada do inverno que traz o frio intenso e tempestades que certamente causarão ainda mais naufrágios e mortes no mediterrâneo.

Ontem, nasceu um símbolo da tragédia humanitária na Europa, um símbolo que marcara mais um episódio vergonhoso na história da Europa. Assim como no Vietnam, os números dessa guerra ainda irão aumentar muito. Sem nenhum sinal de trégua na Síria e o descaso das autoridades na Europa, os refugiados continuarão a se multiplicar e a Europa sera forçada a resolver o problema. A solução dependerá de quem tiver mais influencia na União Europeia. Se a solução vier do Reino Unido, ao que parece, a solução sera a construção de um grande muro que ira separar os humanos que valem muito e os que não valem nada. Pelo jeito, a Europa desenvolvida e rica ainda tem dificuldades para lidar com o fantasma do nacionalismo.

Até Quando Seremos Vitimas Dessa Mídia Tendenciosa?

By: Michaell Lange,

London, 01/09/15 –

Mais uma vez William Waack do Jornal da Globo e Arnaldo Jabor, promovem o jornalismo predatório, parcial, sem escrúpulos e irresponsável. É lamentável assistir estas pessoas com tanto apelo ao publico Brasileiro se prestar a esse papel que beneficia apenas os interesses de alguns poucos protegidos e condena tantos outros a mediocridade. É importante que o Brasileiro reflita ao assistir este tipo de jornalismo e observe que o objetivo de matérias como essa, é influenciar a opinião publica a condenar uma realidade promovida pelos próprios meios de comunicação pelos quais estes jornalistas fazem parte. Esta semana, uma reportagem do Jornal da Globo (ver video abaixo), apresentado pelo jornalista William Waack e compartilhado por Arnaldo Jabor, nas redes sociais, denuncia os bailes funk com a participação de adolescentes que segundo o JG, usam drogas, fazem sexo explicito e portam armas de fogo na presença de traficantes de droga. Segundo o JG, a maioria dos bailes funk não tem autorização para serem realizados, mas quais são os requerimentos para uma festa ser “autorizada”? Seriam os mesmos requerimentos que a Boat Kiss no Rio Grande do Sul nunca teve e mesmo assim tinha o alvará de funcionamento?

É claro que ninguém discorda dos crimes denunciados pela reportagem do JG. O equivoco esta em achar que esse tipo de crime só acontece em bailes funk. Assistir crianças usando drogas, praticando sexo e sendo vitimas de abusos sexuais madruga a dentro, mostra o quão sério é a situação da sociedade Brasileira. Mas, o JG falha de forma grotesca, ou proposital, em não denunciar e expor as autoridades responsáveis por essa situação caótica e criminosa em que se encontram os jovens Brasileiros. Não basta entrevistar o secretario de segurança publica de São Paulo que tem como objetivo principal nestes casos, impor uma ação consequente e paliativa sobre um problema causado pela total negligencia do estado e por outras diversas instituições como a própria mídia que não assumem suas responsabilidades sociais. A policia esta nas ruas para combater as consequências de um crime muito mais sério e com raízes muito mais profundas do que os crimes denunciados pela reportagem do JG. Tentar acusar a policia de omissão nestes casos é uma forma de proteger e omitir os verdadeiros responsáveis pela situação social que o Brasil se encontra hoje. Tentar culpar os adolescentes é um outro erro grave, eles são, antes de mais nada, vitimas do estado. Estas crianças nasceram dentro dessa cultura, marginalizadas pelo governo que não fornece o mínimo necessário para direcionar nossos jovens para um destino diferente. Eles são condenados no momento do nascimento. Na opinião de muita gente, eles não tinham nem o direito de nascer. Que cultura as autoridades Brasileiras esperam destes jovens se eles não conhecem nada diferente da repressão policial, da ausência do estado e da discriminação da sociedade?

A falta de segurança, a falta de um sistema educacional competente, a falta de um sistema de saúde adequado, a falta de acesso a esportes, a falta de acesso a cultura, a falta de oportunidades de desenvolvimento pessoal, social e econômico, condenam nossos jovens a serem vitimas do sub-mundo social. Em nenhum momento a reportagem do JG questionou estes problemas. Em nenhum momento o JG questionou as autoridades publicas sobre a responsabilidade do estado na atual situação dos jovens Brasileiros. É um erro grave tentar culpar os pais e os jovens pelo sub-mundo em eles vivem hoje sem questionar os verdadeiros responsáveis por essa situação. Proibir eventos populares como os bailes funks é mais um exemplo de ações irresponsáveis promovidas pelas autoridades da repressão. O JG não questionou se os motivos da ilegalidade dos bailes funk são em razão dos crimes denunciados pela reportagem, porque se for estes os motivos, o carnaval ja deveria ter sido proibido a tempos. Afinal de contas, o governo proíbe os bailes funks mas, autoriza centenas de outros bailes em locais fechados, sem saídas de emergencia e muitas vezes, sem qualquer alvará de funcionamento onde também ha a presença de adolescentes consumindo drogas, brigando, portando armas, praticando crimes e muitas vezes sob o controle de traficantes.

Além disso, o JG não seria capaz de questionar a responsabilidade da própria Rede Globo e de outros meios de comunicação, na perpetuação desses problemas sociais. A Rede Globo, entre outros canais de comunicação do Brasil, promovem e romantizam a realidade do sub-mundo social Brasileiro. Basta observarmos o conteúdo da programação livre destes meios de comunicação para que fique clara a participação destas instituições na perpetuação do problema social Brasileiro. Todos os Domingos é possível ver mulheres semi-nuas dançando, rebolando, fazendo gestos apelativos ao sexo, sob musicas como o funk. O conteúdo das novelas nos horários nobres da TV, apresentam apenas a realidade social atual, com cenas de violência, sexo e corrupção, sem apresentar uma alternativa ou soluções para os problemas sociais do Brasil. É uma grande hipocrisia mostrar a situação dos jovens Brasileiros como sendo eles, os únicos responsáveis por sua atual situação. Para o JG, o jovem pobre da periferia que usa droga é um criminoso qualquer, as celebridades, atores, e cantores viciados em todo tipo de droga são apenas pessoas com “problemas pessoais”. Oras, estas celebridades compram a droga de traficantes, financiando assim o crime, a violência e a criminalização dos nossos jovens da periferia. Ao deixar de fazer os devidos questionamentos, o jornalismo apresentado pelo JG deixa claro que as farras promovidas por jovens de classe média alta nas coberturas das Copa Cabanas pelo Brasil afora, regado a cocaína, putaria e muito funk, são de alguma forma, diferentes dos eventos ocorridos nas periferias. O JG critica de forma correta os crimes praticados nos bailes funks, mas paga milhões de Reais para transmitir o Carnaval Brasileiros onde os mesmos jovens tiram a roupa, praticam sexo nas ruas, são explorados sexualmente, usam todo tipo de droga, brigam, portam armas sem serem incomodados pelos “intelectuais da moralidade” da Rede Globo. A única diferença entre o Carnaval e os Bailes funks é que um toca Samba e o outro toca Funk. Os crimes e os abusos praticados e sofridos pela juventude Brasileira são os mesmos.

A impressão que fica ao assistir a esse tipo de jornalismo tendencioso do JG, é que o crime praticado pelo pobre, é feio, e o crime praticado por pessoas financeiramente avantajadas é algo aceitável. Mas, afinal de contas, quem tem dinheiro para comprar cocaína Sr William Waack e Arnaldo Jabor? Certamente não são aqueles jovens da periferia que transportam 500kg de cocaína em helicópteros pelo Brasil a fora sem serem importunados ou questionados por jornalistas como vocês. É mais fácil e menos problemático criticar os funkeiros da periferia que não tem como se defender. A marginalização destes jovens é presa fácil para o jornalismo tendencioso. Eles ja nasceram sem direitos, nunca terão a chance de se desenvolverem e aprender algo melhor, algo diferente. Serão sempre vistos pela sociedade do JG, como pessoas sem valor. Serão sempre, um mal social sem cura, e impulsionados por reportagens tendenciosas como essa, fazem pessoas acreditar que isso nunca tera fim e que o Brasil sempre sera um país sub-desenvolvido. E quanto mais o povo Brasileiro pensar assim, maior as chances destes jornalistas e seus protegidos permanecerem no poder.