A Tempestade Causada Pela Morte do Leão Cecil e Seu Possível Legado

By: Michaell Lange,

London, 29/07/15.

O assassinato do Leão Cecil, um dos animais mais famosos da Africa e uma das principais atrações do Hwange National Park no Zimbabwe, pelo caçador Norte Americano Walter Palmer, reacendeu o debate sobre a crueldade da caça esportiva praticada legalmente e ilegalmente ao redor do mundo por pessoas dispostas a pagar qualquer preço pelo prazer de matar um animal selvagem. Cecil não foi o único leão morto por Walter Palmer. O dentista do estado Americano de Minnesota, tem uma vasta lista de animais assassinados em safaris que incluem, Rinocerontes, Leões, Alces e Ursos além de outros animais silvestres. Palmer também responde processo por suspeita de matar um Urso negro dentro de uma reserva florestal no Norte do estado Americano de Wisconsin em 2006.

Segundo matéria do jornal Britânico, The Guardian, que conversou com Jonny Rodrigues, testemunha presente no dia que Cecil foi morto, o Americano teria pago $50 mil Dólares pelo safari que teria ocorrido no ultimo 6 Julho. O grupo teria saído a noite com lanternas quando encontraram Cecil. Segundo a testemunha, um animal morto foi amarrado numa corda e rebocado pelo carro do grupo para atrair Cecil para fora da area do park. O primeiro tiro teria sido feito com um arco-e-flecha, meio quilometro fora do park, mas a lança não matou o Leão que foi perseguido por 40 horas antes de ser finalmente morto com um tiro de arma de fogo. O corpo do animal foi encontrado sem pele e sem cabeça, fora dos limites do Hwange National Park. Ainda segundo a testemunha, Cecil tinha 13 anos de idade e portava um colar cientifico com GPS instalado pela Universidade de Oxford que estudava o Leão desde 1999. Rodrigues disse ao The Guardian que Palmer tentou destruir o colar mas não conseguiu. Funcionários do park disseram que Cecil foi o vigésimo quarto Leão com o colar a ser morto. Grupos ambientalistas acreditam que a cabeça e a pele de Cecil pode ter sido enviado para fora do país para ser vendido como troféu.

Cecil esta entre os milhares de animais selvagens assassinados todos os anos ao redor do mundo por caçadores esportivos ou por grupos criminosos em busca de peles, ossos, e outras partes de animais usadas como medicina, roupas e comida, vendidos por milhões de Dólares no mercado negro. A Africa é provavelmente o continente que mais sofre com o problema da caça predatória. Enquanto pessoas como Walter Palmer estiverem dispostos a pagar $50 mil Dólares, sempre haverá pessoas disponíveis a burlar a Lei para garantir o lucro fácil. É um ciclo vicioso. Em países pobres e dominados por governos corruptos, com fraco sistema de justiça, essa atividade é um prato cheio para quem quer fazer muito dinheiro. Ha fazendas na Africa especializadas em criar animais em cativeiro, incluindo Leões, para depois serem usados em caçadas organizadas por empresas do mundo inteiro. A reportagem do The Guardian citou duas empresas Americanas especializadas em levar caçadores em safaris ao redor do mundo, a Trophy Hunt América e a Porcupine Creek Outfitters são apenas duas delas. É um mercado que movimenta milhões de dólares e na maioria dos casos não ha legislação ou controle da atividade.

Em vários países do mundo a caça é parte da cultura e levada muito a sério pelo povo local que promove a continuidade das  tradições e costumes dos seus ancestrais. Nos EUA, Canada, Russia e nos países Escandinavos, a caça é legal e devidamente regulamentada e fiscalizada, apesar de que para muitas organizações de proteção animal, nada disso justifica a continuidade da caça. Nos EUA a pratica é promovida em larga escala e vista como algo normal. Sarah Palin, ex-Governadora do estado do Alaska e ex-candidata a vice-presidente em 2008 ao lado de John McCain, é internacionalmente conhecida como uma excelente caçadora, e possui inúmeras fotos inclusive junto aos filhos, ao lado de grandes animais selvagens que ela costuma matar durante o período do ano em que a caça é liberada. Na Suécia, a caça também é considerado um esporte e é tão reconhecido que o país com pouco mais que 9.5 milhões de habitantes, tem cinco revistas especializadas no assunto. A Suécia tem uma das legislações mais duras do mundo com relação a caça. O numero de animais que pode ser abatido é extremamente limitado e muitos caçadores chegam a passar dois anos sem conseguir caçar um único animal ja que a temporada acaba assim que o numero de animais abatido atinge seu limite legal, algo que pode acontecer em um único dia. Uma outra exigência na Suécia é que o atirador é obrigado a fazer o chamado “tiro limpo” ou seja, o animal tem que ter morte instantânea ou o caçador corre o risco de perder a licença. Toda a carne do animal abatido também tem que ser dividida e consumida pelos caçadores, e nada pode ser vendido. Esse sistema é aceito até mesmo por muitos ambientalistas, como uma forma sustentável de promover a tradição centenária.

Por outro lado, o maior causador de indignação popular parece ser mesmo o método usado pelo Dentista Americano que mata animais em risco de extinção por puro prazer, além de ajudar a promover uma atividade comercial despresível porem, milionário. Mesmo as pessoas totalmente contrarias a qualquer tipo de caça esportiva consegue perceber a diferença entre o que pode ser considerado uma tradição ou costume e o que é considerado extermínio de qualquer espécie de animal sem nenhum controle. Essas praticas não se limitam apenas aos animais terrestres. Grupos ambientalistas como o Greenpeace e os Sea Shepherds, travam verdadeiras batalhas em alto mar para proteger a caça indiscriminada de baleias, focas e golfinhos, promovida por países como o Japão, as Ilhas Faroe e a Groenlândia.

A comoção e a revolta demonstrada pela morte do Leão Cecil, teve repercução mundial e foi falado em todos os meios de comunicação, além de ser compartilhada em toda a internet. A morte do Cecil levanta uma questão que vai muito além da caça predatória e precisa ser debatido e analisado com maior frequência, transparência e atenção das autoridades e meios de comunicação. Precisamos questionar o que há por trás dos alimentos de origem animal que encontramos nas prateleiras dos super-mercados, principalmente no que se refere aos métodos usados para produção e abate em grande escala que é, por si só, um escândalo tão cruel quanto a comercialização da caça de animais selvagens como o Cecil. A internet esta carregada de videos envolvendo tortura e total desrespeito com todos os tipos de animais criados para o abate. A depredação da fauna e da flora do planeta deveriam estar na pauta de todos os meios de comunicação para informar o cidadão e pressionar as autoridades a legislar e combater a crueldade e os abusos contra todos os animais incluindo animais criados para o abate e comércio. É inaceitável que o mundo seja capaz de reagir de forma tão indignada com a morte brutal de um Leão Africano, e ao mesmo tempo aceite de forma tão passiva, tudo que acontece com os animais em poder da industria alimentícia. Se a indignação expressada esta semana em todo o mundo foi capaz de colocar os envolvidos pela morte de um Leão, no banco dos réus e na primeira capa dos principais jornais do planeta, é certo que o mesmo pode ser feito com relação as atrocidades cometidas diariamente contra centenas de milhares de animais, pelas mãos da industria mundial de alimentos. A nossa indignação e o legado deixado por Cecil só terão algum valor se o mesmo movimento visto esta semana em favor do Leão, seja transformado em bandeira contra os maus tratos de todos os animais, incluindo todos os animais abatidos para comercialização e alimento.

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