A Tempestade Causada Pela Morte do Leão Cecil e Seu Possível Legado

By: Michaell Lange,

London, 29/07/15.

O assassinato do Leão Cecil, um dos animais mais famosos da Africa e uma das principais atrações do Hwange National Park no Zimbabwe, pelo caçador Norte Americano Walter Palmer, reacendeu o debate sobre a crueldade da caça esportiva praticada legalmente e ilegalmente ao redor do mundo por pessoas dispostas a pagar qualquer preço pelo prazer de matar um animal selvagem. Cecil não foi o único leão morto por Walter Palmer. O dentista do estado Americano de Minnesota, tem uma vasta lista de animais assassinados em safaris que incluem, Rinocerontes, Leões, Alces e Ursos além de outros animais silvestres. Palmer também responde processo por suspeita de matar um Urso negro dentro de uma reserva florestal no Norte do estado Americano de Wisconsin em 2006.

Segundo matéria do jornal Britânico, The Guardian, que conversou com Jonny Rodrigues, testemunha presente no dia que Cecil foi morto, o Americano teria pago $50 mil Dólares pelo safari que teria ocorrido no ultimo 6 Julho. O grupo teria saído a noite com lanternas quando encontraram Cecil. Segundo a testemunha, um animal morto foi amarrado numa corda e rebocado pelo carro do grupo para atrair Cecil para fora da area do park. O primeiro tiro teria sido feito com um arco-e-flecha, meio quilometro fora do park, mas a lança não matou o Leão que foi perseguido por 40 horas antes de ser finalmente morto com um tiro de arma de fogo. O corpo do animal foi encontrado sem pele e sem cabeça, fora dos limites do Hwange National Park. Ainda segundo a testemunha, Cecil tinha 13 anos de idade e portava um colar cientifico com GPS instalado pela Universidade de Oxford que estudava o Leão desde 1999. Rodrigues disse ao The Guardian que Palmer tentou destruir o colar mas não conseguiu. Funcionários do park disseram que Cecil foi o vigésimo quarto Leão com o colar a ser morto. Grupos ambientalistas acreditam que a cabeça e a pele de Cecil pode ter sido enviado para fora do país para ser vendido como troféu.

Cecil esta entre os milhares de animais selvagens assassinados todos os anos ao redor do mundo por caçadores esportivos ou por grupos criminosos em busca de peles, ossos, e outras partes de animais usadas como medicina, roupas e comida, vendidos por milhões de Dólares no mercado negro. A Africa é provavelmente o continente que mais sofre com o problema da caça predatória. Enquanto pessoas como Walter Palmer estiverem dispostos a pagar $50 mil Dólares, sempre haverá pessoas disponíveis a burlar a Lei para garantir o lucro fácil. É um ciclo vicioso. Em países pobres e dominados por governos corruptos, com fraco sistema de justiça, essa atividade é um prato cheio para quem quer fazer muito dinheiro. Ha fazendas na Africa especializadas em criar animais em cativeiro, incluindo Leões, para depois serem usados em caçadas organizadas por empresas do mundo inteiro. A reportagem do The Guardian citou duas empresas Americanas especializadas em levar caçadores em safaris ao redor do mundo, a Trophy Hunt América e a Porcupine Creek Outfitters são apenas duas delas. É um mercado que movimenta milhões de dólares e na maioria dos casos não ha legislação ou controle da atividade.

Em vários países do mundo a caça é parte da cultura e levada muito a sério pelo povo local que promove a continuidade das  tradições e costumes dos seus ancestrais. Nos EUA, Canada, Russia e nos países Escandinavos, a caça é legal e devidamente regulamentada e fiscalizada, apesar de que para muitas organizações de proteção animal, nada disso justifica a continuidade da caça. Nos EUA a pratica é promovida em larga escala e vista como algo normal. Sarah Palin, ex-Governadora do estado do Alaska e ex-candidata a vice-presidente em 2008 ao lado de John McCain, é internacionalmente conhecida como uma excelente caçadora, e possui inúmeras fotos inclusive junto aos filhos, ao lado de grandes animais selvagens que ela costuma matar durante o período do ano em que a caça é liberada. Na Suécia, a caça também é considerado um esporte e é tão reconhecido que o país com pouco mais que 9.5 milhões de habitantes, tem cinco revistas especializadas no assunto. A Suécia tem uma das legislações mais duras do mundo com relação a caça. O numero de animais que pode ser abatido é extremamente limitado e muitos caçadores chegam a passar dois anos sem conseguir caçar um único animal ja que a temporada acaba assim que o numero de animais abatido atinge seu limite legal, algo que pode acontecer em um único dia. Uma outra exigência na Suécia é que o atirador é obrigado a fazer o chamado “tiro limpo” ou seja, o animal tem que ter morte instantânea ou o caçador corre o risco de perder a licença. Toda a carne do animal abatido também tem que ser dividida e consumida pelos caçadores, e nada pode ser vendido. Esse sistema é aceito até mesmo por muitos ambientalistas, como uma forma sustentável de promover a tradição centenária.

Por outro lado, o maior causador de indignação popular parece ser mesmo o método usado pelo Dentista Americano que mata animais em risco de extinção por puro prazer, além de ajudar a promover uma atividade comercial despresível porem, milionário. Mesmo as pessoas totalmente contrarias a qualquer tipo de caça esportiva consegue perceber a diferença entre o que pode ser considerado uma tradição ou costume e o que é considerado extermínio de qualquer espécie de animal sem nenhum controle. Essas praticas não se limitam apenas aos animais terrestres. Grupos ambientalistas como o Greenpeace e os Sea Shepherds, travam verdadeiras batalhas em alto mar para proteger a caça indiscriminada de baleias, focas e golfinhos, promovida por países como o Japão, as Ilhas Faroe e a Groenlândia.

A comoção e a revolta demonstrada pela morte do Leão Cecil, teve repercução mundial e foi falado em todos os meios de comunicação, além de ser compartilhada em toda a internet. A morte do Cecil levanta uma questão que vai muito além da caça predatória e precisa ser debatido e analisado com maior frequência, transparência e atenção das autoridades e meios de comunicação. Precisamos questionar o que há por trás dos alimentos de origem animal que encontramos nas prateleiras dos super-mercados, principalmente no que se refere aos métodos usados para produção e abate em grande escala que é, por si só, um escândalo tão cruel quanto a comercialização da caça de animais selvagens como o Cecil. A internet esta carregada de videos envolvendo tortura e total desrespeito com todos os tipos de animais criados para o abate. A depredação da fauna e da flora do planeta deveriam estar na pauta de todos os meios de comunicação para informar o cidadão e pressionar as autoridades a legislar e combater a crueldade e os abusos contra todos os animais incluindo animais criados para o abate e comércio. É inaceitável que o mundo seja capaz de reagir de forma tão indignada com a morte brutal de um Leão Africano, e ao mesmo tempo aceite de forma tão passiva, tudo que acontece com os animais em poder da industria alimentícia. Se a indignação expressada esta semana em todo o mundo foi capaz de colocar os envolvidos pela morte de um Leão, no banco dos réus e na primeira capa dos principais jornais do planeta, é certo que o mesmo pode ser feito com relação as atrocidades cometidas diariamente contra centenas de milhares de animais, pelas mãos da industria mundial de alimentos. A nossa indignação e o legado deixado por Cecil só terão algum valor se o mesmo movimento visto esta semana em favor do Leão, seja transformado em bandeira contra os maus tratos de todos os animais, incluindo todos os animais abatidos para comercialização e alimento.

A Escravidão Não Foi Abolida, Ela Apenas Mudou de Roupa.

By: Michaell Lange.

London, 27/07/15,

Para a história, a escravidão foi abolida a séculos atras. Segundo o que aprendemos nas escolas em todo o mundo, o Brasil foi o ultimo país a abolir a escravidão em 1888. Mas, evidências de um mundo moderno indicam que a escravidão na verdade, nunca acabou, mas se modificou para se adequar as novas Leis que proibiam principalmente, o transporte de negros oriundos da Africa para trabalhos forçados na America latina e America do Norte. A Lei da abolição basicamente proibiu que humanos, sobretudo negros, fossem transformados em propriedade privada. Antes da Lei britânica da abolição de 1833, assinada pelo parlamento, o comercio de escravos já havia sido proibido em 1807, mas essa Lei apenas tornou a vida dos escravos ainda mais miserável. Por vezes, navios negreiros despejavam toda a sua carga humana no mar, que incluía mulheres e crianças, para evitar multas aplicadas por navios do Império Britânico que patrulhavam o Oceano Atlântico. A Lei da abolição de 1833 tinha como objetivo, acabar com essa atividade brutal de uma vez por todas. Mas não foi bem isso que aconteceu. Novos estudos da UCL – University College London – feito nos arquivos de documentos históricos da National Archive – Arquivos Nacionais – revelaram novos detalhes sobre o período da abolição esquecidos e ignorado pela história e revelam um paralelo no mínimo bizarro com a realidade dos nossos dias atuais.

Segundo a UCL, depois da abolição em 1833, o movimento pro-escravista da época, liderou uma ação contra o governo Britânico para pedir o pagamento de reparações pelos prejuízos causados pela abolição. Documentos revelaram que o governo Britânico havia pago até 1834, um total aproximado de R$80 bilhões de Reais (£17 bilhões de Libras), o equivalente a 40% de todo o orçamento do Império Britânico daquele ano, em indenizações para os donos de escravos. Por outro lado, absolutamente nenhuma indenização foi paga para as verdadeiras vitimas de um dos períodos mais sombrios da história humana. Segundo os historiadores da UCL, o valor indenizatório foi o maior da história Britânica e ironicamente pode ser comparado apenas com a ajuda financeira para salvar os bancos Britânicos da falência em 2008. Os estudos também revelaram outras tendências. Após a abolição, muitas famílias Britânicas que eram donas de quase 50% de todos os escravos da época, passaram a re-escrever suas histórias com o objetivo de esconder o envolvimento com o período escravista. Muitas famílias passaram a ser conhecidas como comerciantes, importadores, e agricultores. Também deu-se mais importância a questão da abolição como foco do período escravista. A história passou a focar mais na questão da abolição como uma conquista Britânica ao invés de expor os grandes benefícios que o país exercitou nos 200 anos do seu envolvimento nas atividades escravistas. Estima-se que grande parte de toda a infra-estrutura Britânica atual, incluindo empresas ferroviárias, bancos e instituições como a The British Civil Society, The British Museum, e a National Gallery, foram financiadas com dinheiro das atividades escravistas.

Hoje, quase 200 anos após a abolição da escravidão, a atividade é crime em todo o mundo. Apesar disso, a instituição Britânica, Amnesty International, estima que existam pelo menos 35 milhões de pessoas vivendo em situação escrava no mundo, um numero muito maior do que no período em que atividade era legal. No Brasil, a estimativa é de que 250 mil pessoas continuam vivendo em situação escrava. Empresas multinacionais e famosas como a Nike, Lacoste, Timberland, Zara, Wal-Mart entre outras milhares de grandes e pequenas empresas e instituições, usam ou usaram, de uma forma ou de outra, mão de obra escrava. É praticamente impossível que você não tenha consumido um ou mais produtos nos últimos 12 meses que não tenha passado pelas mãos de um trabalhador escravo.

A utilização da mão de obra escrava continua sendo vital para o desenvolvimento das grandes economias do mudo assim como fora até 1833. As grandes mudanças causadas pelas leis abolicionistas é que hoje em dia por exemplo, não ha mais a necessidade do transporte em massa de escravos de um continente para outro. Hoje, as empresas vão até os escravos. Além disso, as grandes corporações terceirizam a contratação de trabalhadores livrando-se assim das responsabilidades legais como o pagamento de salário mínimo e indenizações. Poderíamos também analisarmos a situação de milhões de outros trabalhadores ao redor do mundo que não são classificados como escravos por não serem forçados ao trabalho, e viverem em suas próprias casas, de também fazerem parte de uma classificação semi-escravista. Afinal de contas, como classificar milhares de trabalhadores com carga horária superior a 60 horas semanais cuja a renda é menor que os custos básicos de sobrevivência? Como classificar os milhares de trabalhadores que precisam usar o cartão de credito e limites das contas bancaria para pagar por necessidades básicas como luz, agua, comida e gas?

Podemos, com certa facilidade, concluir que além das estimativas da Amnesty International sobre a quantidade de escravos no século 21, há também um numero inestimável de trabalhadores vivendo em condições de semi-escravidão além de outros milhões sobrevivendo na total dependência de instituições financeiras . Se somarmos a esse grupo os mais de 1 bilhão de pessoas que passam fome no mundo hoje, não fica difícil perceber porque 1% da população mundial tem o controle dos outros 99% das riquezas do planeta. As similaridades com o antigo regime escravista pode não se equivaler completamente, na brutalidade física mas, certamente se assemelha na dependência e no aprisionamento de pessoas que não consegue se livrar das dividas cumulatívas por consequência dos baixos salários, juros altos e o alto custo de vida. Os governos em quase todo o mundo preferem não ver essa realidade e demonstram aceitar a necessidade destas praticas abomináveis e da existência de uma sub-classe social, pelo bem econômico do país. Assim como foi no passado, nossas democracias não representam as pessoas das ruas, mas os interesses corporativos de um pequeno grupo. Os governos e suas instituições foram criadas para atender as demandas do povo. Se os governos e suas instituições não estão cumprindo nem os seu papel mais básico, não ha razão então para continuarmos aceitando a sua existência. A escravidão parece não ter sido abolida como nos ensinaram na escola, parece apenas ter mudado de roupa.

Mick Fanning Sobrevive a Ataque de Tubarão: Milagre De Deus? Proteção Divina ou Sorte?

By: Michaell Lange,

London, 20/07/15

O ataque de tubarão sofrido pelo tricampeão mundial, o Australiano Mick Fanning, que milagrosamente escapou ileso do incidente deste Domingo (19) na Africa do Sul, levantou inúmeras questões sobre a segurança dos atletas e os locais onde os campeonatos do circuito mundial são disputados. Mas, pouco se falou sobre uma outra questão polêmica envolvendo o episódio. Mick Funning sobreviveu por milagre, proteção divina ou foi apenas um caso de muita sorte?

O assunto desse artigo é totalmente especulativo e por isso, não deve ser visto como uma defesa ou ataque aos costumes religiosos. É importante frisar que minha posição religiosa não interfere na forma como escrevo sobre o assunto, mas como acredito em possibilidades, me sinto na obrigação moral de reconhecer as crenças religiosas e todas as suas possibilidades, principalmente nas questões pelas quais nem a ciência ainda foi capaz de explicar de forma concreta. Diante desta posição, pergunto se os atletas Brasileiros que fazem parte da WSL – World Surf League – foram protegidos do perigo eminente por sua conhecida e explicita devoção a Deus e a religiosidade? Até que ponto a devoção e a crença aos milagres de Deus pode ter ajudado nossos atletas a ficarem longe do perigo?

Quem acredita em Deus e é seguidor da Bíblia ou de outros livros sagrados, tem total convicção de que Deus pode interferir diretamente em acontecimentos na vida dos humanos. Quem duvida, costuma usar como argumento por exemplo, todo o sofrimento vivido por crianças ao redor do mundo, a questão da fome, das guerras, além de outras tragédias que atingem pessoas e povos religiosos e não religiosos.

A questão e a verdade que envolve o ataque de tubarão na Africa do Sul é que três Brasileiros considerados alguns dos melhores surfista do mundo incluindo o atual campeão mundial Gabriel Medina, o atual líder da Liga Mundial de Surf, Adriano de Souza, e Alejo Muniz que era cotado para ser um dos finalistas desta etapa, perderam nas quartas de final em circunstancias no mínimo estranhas. Os três surfistas Brasileiros vinham fazendo uma campanha arrasadora durante todo o evento até chegarem nas quartas de final onde sem explicação aparente, os três surfistas não apresentaram um surf nem parecido com o que estamos acostumados a ver. Teria sido um aviso da presença de um grande perigo?

Adriano de Souza foi o primeiro a perder depois de deixar o Australiano Julian Wilson pegar uma das melhores ondas da sua bateria mesmo tendo a prioridade, que lhe da o direito de escolher a próxima onda. Julian Wilson agradeceu o presente deixado por Adriano e fez uma nota 8.03, que eventualmente tirou Adriano de Souza da disputa pelo titulo da etapa. Adriano ainda cometeu outros erros que quem segue o esporte, sabe que ele não cometeria facilmente, principalmente num dia de ondas perfeitas. No final da bateria Adriano aparece falando sozinho como se estivesse buscando uma explicação sobre o que acabara de acontecer. Julian Wilson foi para a Final e estava ao lado de Mick Fanning no momento do ataque. Gabriel Medina, que vinha surfando muito bem durante todo o evento e disputava a bateria de numero 3 das quartas de final contra o Americano Kelly Slater, também não se encontrou no mar. Mesmo surfando duas ondas excelentes, cometeu erros na escolha das ondas e em manobras que o atual campeão mundial não esta acostumado a cometer. Medina havia vencido Kelly Slater e Mick Fanning na quarta fase do evento e vinha mantendo o excelente nivel de surf até perder nas quartas de final para Kelly. Já Alejo Muniz simplesmente não era o mesmo surfista que vinha arrasando seus adversários desde o inicio do campeonato incluindo o segundo colocado da Liga Mundial, Filipe Toledo, com uma combinação de duas ondas excelentes que valeram 8,03 e 9,80. Contra Mick Fanning que seria a vitima do ataque do tubarão na final, Alejo surfou apenas quatro ondas, sendo que as duas melhores valeram medíocres 3,33 e um 5,67. Algo estava muito errado com os surfistas que até aquele momento estavam derrotando todos os seus adversários com um verdadeiro show de surf. O que teria acontecido para que eles não conseguissem mais desempenhar o mesmo nível de surf que haviam mostrado até aquele momento? Sera que houve a intervenção de uma força maior que manteve os Brasileiros longe do perigo?

Os três Brasileiros fazem parte da melhor geração de surfistas profissionais da história do surf Brasileiro e são também explícitos na sua fé por Deus. Sempre são vistos orando antes e depois das baterias que disputam, além de sempre citarem Deus nos seus comentários nos pódios, quando vencem os campeonatos, como sendo o grande líder que comanda suas vidas. A fé em Deus e a religiosidade expressa por eles sempre me chamaram atenção e por vezes achei exagerada. Algumas vezes considerei chata, tamanha atenção que eles dão as questões que envolve sua crença por Deus. Mas hoje, depois de ver e rever o video do ataque quase uma centena de vezes, me questionei se a fé em Deus não foi um fator importante na hora de mante-los fora do perigo eminente. Era quase certo para mim e para muitas pessoas que vinham acompanhando o evento desde o inicio, que pelo menos um Brasileiro estaria na final. Outras pessoas, incluindo eu e alguns amigos, acreditávamos que pelo nível de surf que nossos atletas vinham apresentando, era possível que tivéssemos uma final 100% Brasileira. Porém, assistimos todos eles serem derrotados de forma no mínimo estranha ainda nas quartas de final. Sera que a derrota deles pode ter sido causado por uma força superior como forma de mante-los fora do perigo?

O Australiano Mick Fanning por outro lado, não demonstra ser uma pessoa de muita fé mas, ele mesmo confessou que havia alguém olhando por ele naquele momento. O Mick pode ser classificado como uma pessoa espiritualista, simples, familiar além de ser visto por toda comunidade do surf como uma pessoa muito boa, e que ajuda muita gente. Kelly Slater escreveu em sua pagina na internet após o ataque que; “pessoas boas atraem coisas boas, e mesmo que não possamos dizer que um ataque de tubarão seja algo bom, a forma ilesa como Mick saiu daquela situação foi algo incrivelmente maravilhoso”.

Sempre que falamos sobre religião e milagres de Deus é comum que a conversa termine com mais perguntas do que respostas. Nesse caso especifico não poderia ser diferente. Mas minha crença pessoal nas possibilidades da vida que vão muito além da capacidade limitada de um simples mortal, me levam a questionar se lá no fundo de nossas almas não ha mesmo um ser capaz de nos proteger do perigo, desde que saibamos como, e onde pedir seu socorro. Algo como o número de emergência que se não ligarmos, eles nunca saberão que precisamos de ajuda. Ao que me parece, se Deus realmente existe, ele certamente estava presente na agua no momento daquele ataque.

video do ataque que quase tirou a vida de Mick Fanning:

Experiência de Hospital: Quem Nunca Teve?

By: Michaell Lange.

London, 16/07/15

Em visita ao hospital recentemente para fazer uma endoscopia de rotina, tive mais uma daquelas experiências que me fazem pensar nas diferenças na vida de quem vive em países desenvolvidos e quem sobrevive em países em desenvolvimento como o Brasil. Como o drama humano pode ser vivido de formas diferentes dependendo do lugar em que vivemos mesmo que em termos humanos, os dramas sejam os mesmos. Cheguei a conclusão já a caminho de casa que, o hospital é uma excelente referência para se medir o grau e o nível de desenvolvimento de uma cidade, um estado ou país. No hospital, encontra-se todos os sentimentos vivenciados pelo ser-humano concentrados em um único local. Ali esta a contradição entre a vida e a morte. A gentileza, o  amor, o carinho entre estranhos e conhecidos, o medo, a alegria, a perda, a vitória, o nascimento ou, renascimento, estão presentes e dividem o mesmo espaço. A estrutura e as pessoas responsáveis em administrar estes locais, podem intensificar ou aliviar todas as tensões do dia-a-dia de um lugar que quase ninguém gosta de visitar, mas todo mundo deseja chegar o mais rápido possível quando precisamos de socorro e amparo.

Sentado na sala de espera aguardando a minha vez de fazer o procedimento, fiquei observando discretamente todos que estavam ali aguardando ser chamado. Enquanto alguns assistiam o campeonato de tênis de Wimbledon ao vivo na TV, outros não conseguiam disfarçar a ansiedade. Uma mulher segurava firmemente a mão do homem ao seu lado e acariciava seu ombro com a outra mão, enquanto o homem balançava os pés inquietamente. Uma outra pessoa folheava uma revista de trás para frente e de frente para trás sem ler nada. Fiquei ali pensando nos problemas que estas pessoas podem estar enfrentando ou irão enfrentar, incluindo eu mesmo. Realidades tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas. O drama da vida me fascina. Sinto vontade de ajudar, de conversar, de confortar de alguma forma, mas muitas vezes me impeço de faze-lo, talvez por medo.

Ali e aqui, mesmo que temporariamente, todos os sonhos, os planos e os desejos são suspensos. O milagre da vida parece recuar e dividir o mesmo espaço do coração de forma a ficar apertado. Os sonhos não realizados parecem ter o dobro do peso. As palavras que gostaríamos de dizer e nunca foram ditas parecem arder na garganta. Os problemas com as pessoas que amamos e que nos recusamos a resolver por orgulho, agora parecem urgentes. O medo de não estar aqui para sempre, parece o pior dos pesadelos mesmo com a certeza de que, de uma forma ou de outra, ninguém estará aqui para sempre.

Estas situações podem ser observados em qualquer hospital do mundo. A diferença é que aqui, tudo parece acontecer sob-controle. A ausência do caos torna as dificuldades em algo mais maleável, mais suportável e menos injusto, tanto para os pacientes quanto para os profissionais da saúde. A experiência de hospitais Brasileiros e Britânicos me deram uma certa base para falar dos dois casos. Aqui (no Reino Unido), todo mundo parece caminhar mais devagar, com mais calma. Os médicos sorriem, e as enfermeiras fazem seu papel com a excelência de quem tem todo o suporte necessário para cumprirem suas obrigações de forma correta e humana. Observo tudo e concluo com facilidade que o caos não esta aqui e que diferença isso faz no resultado final de qualquer tratamento, incrível!

Duas enfermeiras me levaram até uma sala 10 minutos antes da minha endoscopia e me explicaram com riqueza de detalhes tudo sobre o procedimento, quem estaria na sala, o tempo que levaria, o que eu sentiria, o que eu deveria fazer, o que elas estariam fazendo e o que aconteceria após o termino do procedimento. Logo a seguir o médico responsável passou mais 5 minutos explicando o que ele faria, além de me dar a opção do uso de anestésico que depois dos esclarecimentos preferi recusar. Tudo feito de forma ordeira e sem pressa, como se eu fosse o único a estar fazendo o exame naquele dia.

Mesmo já tendo feito este exame antes, me sentia inseguro, mas a atuação da equipe médica junto com o a estrutura a minha volta me deram toda a confiança que eu precisava. Depois que tudo terminou, fui levado para uma sala de recuperação onde eu ficaria por 15 minutos até que o médico terminasse o relatório no qual enviaria uma cópia para o meu posto de saúde e outra cópia ficaria comigo. Alguns minutos se passaram até que a enfermeira veio me oferecer um café e uns biscoitos aos quais me propus a me servir eu mesmo já que não estava sob efeito de anestésico, mas ela fez questão de me servir. Fiquei pensando em que outro lugar do mundo uma enfermeira teria tempo pra fazer um café para um paciente que não esta internado nem impossibilitado de fazer seu próprio café? Agradeci e fiquei rindo sozinho. Em nenhum momento se falou em dinheiro ou pagamento porque aqui no Reino Unido a saúde é gratuita, paga apenas pela arrecadação de impostos, claro. Na saída, o porteiro apertou minha mão me desejando boa sorte e fui embora pensando como tudo isso poderia ser no Brasil. Os dramas que vivemos podem até ser os mesmos, mas é incrível como alguns detalhes podem fazer toda a diferença.

O Que Foi Bom Para a Alemanha Em 1953 Sera Bom Para a Grécia Em 2015

By: Larry Elliot (The Guardian, 06/07/15).

Tradução: Michaell Lange.

A assistência econômica do plano Marshall foi importante para os dois países, mas foi o perdão da dívida que fez a grande diferença para a Alemanha.

O argumento usado pelo governo Grego para assegurar o perdão da atual divida do país tem base histórica, especialmente na interessante relação incomum com o discurso feito pelo então secretario de estado Americano, George Marshall para os estudantes da universidade de Harvard em 5 de Junho de 1947. Naquele discurso, Marshall salientou a importância de um programa de reconstrução econômico Europeu para evitar o total colapso econômico do Continente, onde a capacidade de produção da industria encontrava-se em frangalhos. O comércio havia cessado e as pessoas estavam passando fome. Para Marshall, havia um grande risco de toda região acabar nas mãos do Comunismo Soviético.

Importantes lições foram aprendidas depois do fim da Primeira Guerra Mundial quando os Aliados impuseram ações punitivas e indenizatória sobre a Alemanha, criando grande ressentimento entre os países envolvidos. Marshall aplicou um método diferente. Durante 4 anos, os EUA injetaram o equivalente a $150 bilhões de Dólares no continente Europeu na esperança de que a capacidade econômica fosse restaurada dando a possibilidade aos países voltarem a comercializar entre si minimizando assim, os riscos impostos pela União Soviética. Mas isso não foi um ato de total solidariedade dos EUA para com a Europa. Na época, a produção dos EUA equivalia a 50% da produção mundial e havia uma grande necessidade de encontrar mercados para exportar tal produção. A falta de demanda de países como a França, Italia e Alemanha, inviabilizava o crescimento econômico Americano. O Reino Unido foi maior beneficiado do plano Marshall recebendo um quarto do total. A Alemanha recebeu $1.4 Bilhões, o equivalente a 11% do total e quatro vezes mais do que a Grécia recebeu.

Hans Werner-Sinn, presidente da IFO Thinktank de Munique, escreveu três anos atras, que a ajuda do Plano Marshall para a Alemanha foi o equivalente a 4% do seu PIB enquanto que para a Grécia a ajuda foi equivalente a 200% do seu PIB. A justificativa para isso pode ser entendida de duas formas: A primeira se refere ao ressentimento Grego com a ocupação Alemã durante a segunda guerra mundial. Segundo Alan Bullock, que escreveu a Biografia do Ministro Britânico para assuntos internacionais da época, Ernest Bevin, “A Grécia era um país pobre na melhor das hipóteses e sua economia havia sido destruída inúmeras vezes por invasões, ocupação, resistência, represálias e guerras civis além de ter tido 8% de sua população de 7 milhões, morta durante a segunda guerra mundial ou seja, um número oito vezes maior que as baixas sofridas pelos Britânicos. O Alemães saquearam o país de tudo aquilo que podia ser carregado além de todo o rebanho animal. Toda a linha ferroviária, rodoviária, pontes e portos foram destruídos”. O segundo ponto foi que a Alemanha recebeu ajuda muito além dos $1.4 Bilhões de Dólares transferidos pelo plano Marshall. Na conferência de Londres em 1953 a Alemanha foi presenteada com o perdão das dividas.

Na Revista Britânica, The Economist, o professor de história Econômica da Universidade de Economia de Londres (LSE), Albrecht Rirschl escreveu em 2012 que: “O plano Marshall tinha como meta, o programa de recuperação Europeu e o núcleo desse programa tinha como principal objetivo, a reconstrução do poder econômico Europeu com base no perdão das dividas e a integração comercial com a Alemanha. Os efeitos da sua implantação foram gigantescos. Enquanto a Europa Ocidental sofria com uma relação entre divida/PIB próximo a 200% nos anos 50, a nova Alemanha Ocidental usufruía de uma relação entre divida/PIB de menos de 20%. Isso, junto com a reintegração da Alemanha ao mercado Europeu foram os grandes triunfos da Alemanha com o plano Marshall”.

Nos próximos dias, o Primeiro Ministro Grego, Alexis Tsipras, irá argumentar que aquilo que foi bom para a Alemanha em 1953 sera bom para a Grécia em 2015.