Proposta de Financiamento de Empresas Privadas nas Campanhas Eleitorais e o Golpe Contra a Democracia

Por: Michaell Lange.

London, 30/05/15

Os Brasileiros sofreram esta semana um golpe que a grande maioria dos Brasileiros não faz idéia das consequências. Na Terça feira (26) uma proposta que pretendia tornar constitucional o financiamento de empresas privadas a campanhas políticas eleitorais, colocada para votação na Camara dos Deputados foi rejeitada por não ter alcançado o numero mínimo de 308 votos a favor para que seja possível mudar a constituição. Porém, numa manobra política que vai muito além da compreensão dos eleitores Brasileiros, o presidente da Camara Eduardo Cunha do PMDB do RJ, conseguiu fazer dois milagres em menos de 24hs. Além de conseguir colocar a mesma proposta em votação menos de um dia depois da mesma ter sido rejeitada, Eduardo Cunha conseguiu aprova-la com 330 votos a favor e 141 contra. O que fez 66 deputados mudarem de idéia (no dia anterior apenas 264 haviam votado a favor) da noite para o dia é um grande mistério. Na proposta rejeitada no dia 26, empresas privadas poderiam financiar a campanha política dos candidatos, e na proposta aprovada no dia seguinte, empresas privadas podem financiar apenas partidos politicos ao invés de financiar candidatos, o que de fato não faz diferença nenhuma já que o dinheiro dos partidos sera inevitavelmente, usado no financiamento das campanhas eleitorais dos seus candidatos.

A falta de ética e seriedade em colocar uma proposta em votação um dia depois da mesma ter sido rejeitada não é em si algo surpreendente, muito menos a subta mudança de posição dos deputados, afinal de contas todos nós sabemos do que eles são capazes. Mas esta manobra política que aprovou um projeto que havia sido rejeitado no dia anterior, tem algo de novo e diabólico na já conhecida capacidade de destruição dos políticos Brasileiros. Usar a tão esperada e vital proposta da reforma política Brasileira, que deveria entre outras coisas, melhorar os meios pelos quais os candidatos são eleitos, além da forma como o Brasil é governado, para passar um projeto que literalmente privatiza as eleições governamentais do Brasil, foi um golpe tão destruidor da democracia Brasileira quanto foi o golpe militar de 64. A partir de agora as eleições governamentais estão constitucionalmente a venda para quem pagar mais. A partir de agora, empresas multinacionais irão se reunir numa sala de reuniões em Nova York, Moscou, Londres ou Pequim, para decidir quem deve vencer as eleições no Brasil. Já os partidos politicos Brasileiros irão priorizar uma proposta de campanha sedutora que agrade os interesses das multinacionais ao invés de agradar o eleitor. A partir de agora, o governo Brasileiro sera o representante oficial de empresas multinacionais no Brasil e não mais o representante do povo Brasileiro, e isso esta sendo aprovado como Lei na Constituição Federal.

O povo continuara votando como sempre votou ou seja, em quem fizer a campanha mais sedutora. Para isso, não faltara financiamentos de empresas estrangeiras e até mesmo governos estrangeiros com interesses no Brasil com financiamentos indiretos feitos através de grandes empresas que visarão os partidos politicos com os maiores potenciais para defender seus interesses no mercado Brasileiro. O povo ficara em segundo plano. E mesmo que hoje o povo já esteja em segundo plano, agora eles estão transformando isso em Lei. Os partidos politicos Brasileiros estarão livres para receber milhões de Dólares de empresas multinacionais em troca de favores futuros, indiferentes se estes favores irão ou não beneficiar o povo Brasileiro. Uma vez que um partido politico seja financiado pela Coca Cola, Nike, Shell, ou Texaco, o partido eleito tera que ouvir as vontades de seus financiadores, afinal de contas o que levaria uma empresa a financiar um partido politico se não os interesses da empresa em ter no poder um partido politico que facilite seus interesses no Brasil? O maior problema é que o Brasileiro infelizmente, não tem noção do que esta acontecendo em Brasilia e não sabe o que fazer. tanto os movimentos pelo impeachment da presidente Dilma quanto os movimentos contra a corrupção entre outros tantos como as greves dos professores, estão totalmente fora da maior prioridade do momento. O Brasil deveria estar unido nesse momento pela busca da reforma política brasileira. Sem ela, todo o restante esta comprometido e condenado a continuar como sempre foi. Mesmo assim, cabe a pergunta: Sera que o Brasileiro sabe quais as mudanças que precisam ser realizadas no sistema político do Brasil?

O Brasileiro precisa entender de forma urgente que as pessoas que estão fazendo a tal reforma política são as mesmas que não tem nenhum interesse em reformar o sistema político Brasileiro. Nenhum político de Brasilia ira votar a favor de uma reforma que coloque em risco a sua própria reeleição. isso só ira acontecer se o povo se unir como se uniu em 2013 durante a copa das confederações e exija, com os pés no telhado do congresso, que as propostas como o voto distrital e o fim das legendas eleitorais sejam votadas e aprovadas com urgência. Sem a pressão do povo nas ruas, os políticos de Brasilia continuarão vendendo o Brasil a quem pagar mais, e o povo vai junto como se fosse um brinde. O Brasileiro precisa acordar para o que esta acontecendo em Brasilia. Os Deputados, Senadores e a presidente só irão trabalhar quando o povo passar o dia com os pés no telhado do congresso nacional. Enquanto isso não acontecer corremos um sério risco de sermos vendidos como num pacote promocional do tipo pague 1 leve 2.

Poder, Corrupção e a Impunidade no Sistema Financeiro Mundial

by: Michaell Lange.

London, 25/05/15

Semana passada cinco dos maiores bancos do planeta foram condenados pela justiça Americana a pagar uma multa record que totalizam mais de R$16 bilhões de Reais. Quatro dos bancos, entre eles, Barclays, Citigroup e RBS – Royal Bank of Scotland –  foram condenados por manipulação das taxas de cambio no mercado mundial. O quinto banco, o UBS, foi condenado por manipular juros. Segundo a justiça Americana, a manipulação dos mercados internacionais teria lesado milhões de investidores e consumidores ao redor do mundo além de ter interferido nos preços de produtos e serviços.

Estes crimes teriam ocorrido no auge da crise financeira mundial entre 2008 e 2014 que também teria sido provocada pela má conduta de bancos ao redor do mundo sobretudo nos EUA. A investigação também descobriu que alguns dos bancos envolvidos ameaçavam outros bancos com frases como “se você interferir no Cartel, durma com o olho aberto”. Outro banco teria dito; “se você não trapacear você não esta se esforçando o suficiente”.

Nenhuma dessas praticas surpreende, considerando o histórico e a cultura de corrupção, fraudes e má conduta promovidas por bancos em todos os cantos do planeta. O mais escandaloso é que todas estas praticas são devidamente apoiadas, ou no mínimo acobertadas pela maioria dos governos. Mesmo no caso dos EUA que acaba de condenar estes bancos por manipulação do mercado, a justiça se vê impossibilitada de prender ou multar de forma eficiente os responsáveis por estas políticas financeiras . Muitos especialistas dizem que a multa aplicada aos bancos, mesmo sendo um record, representam um pingo num vasto oceano comparado com valor envolvido nas transações comerciais internacionais. O Banco Barclays por exemplo, que recebeu a maior multa entre todos os condenados terá que pagar $2.4 bilhões de Dólares a justiça Americana. Mesmo parecendo um valor expressivo, se comparado com os $100 trilhões de Dólares em movimentações internacionais todos os anos, a multa aplicada parece mesmo um pingo d’agua no oceano. Além disso, nenhum presidente ou diretor dos bancos condenados deve ir para cadeia o que faz com que a condenação destes bancos se pareça mais com uma “taxinha” cobrada pelos governos, para garantir a perpetuação de suas campanhas fraudulentas e corruptas, ao invés de duras medidas que possam mudar o sistema e realmente punir de forma exemplar todos os envolvidos.

Um paralelo interessante pode ser feito com o recente roubo a uma joalheria no centro de Londres onde um grupo de ladrões roubaram um valor estimado em R$910 milhões de Reais em jóias preciosas. No caso do roubo a joalheria, 7 bandidos foram presos pouco mais de duas semanas após o roubo e parte do valor roubado já foi recuperado. Já no no roubo bilionário promovido pelos bancos, uma multa irrisória, se comparado com o valor envolvido no caso, foi suficiente para livrar a péle dos principais envolvidos que também são re-reincidentes nestas praticas criminosas. As multas aplicadas aos bancos condenados na semana passada são tão irrelevantes que as ações do Banco Barclays, que pagou a maior multa entre todos os condenados, subiram 3.4% logo após a condenação. Já as ações do banco RBS subiram 1.8%, uma clara mensagem de que o mercado se sentiu aliviado com o valor da multa mesmo sendo um valor record.

Um outro paralelo interessante que pode ser traçado aqui é uma relação entre empresas privadas e estatais. No Brasil por exemplo, a Petrobras passa por um dos maiores escândalos de corrupção da sua história, e essa tem sido um dos motivos pelos quais alguns partidos politicos acreditam que a empresa deve ser privatizada. Porém, não se questiona o fato de outras empresas diretamente envolvidas no escândalo da Petrobras, como a Camargo Correia e a Odebrecht são também empresas privadas ou seja, a questão da empresa ser privada ou estatal parece não estar diretamente ligada a praticas de corrupção e má conduta.

A conclusão é de que os maiores prejudicados em todos estes crimes continua sendo o pequeno empreendedor e os consumidores da base econômica ou seja, você e eu, que não tem escolha e somos obrigados a continuar usando os serviços de bancos que claramente abusam de suas condutas com o aval da justiça. É praticamente impossível conseguir um emprego hoje sem que o candidato tenha uma conta bancária, assim como é impossível para qualquer pequeno empresário fazer negócios sem o envolvimento de um banco. Não há alternativas, e não há alternativas por um motivo muito simples. Nenhum banco conseguiria sobreviver com suas praticas corruptas caso o consumidor tivesse qualquer outra alternativa de negócio. Vivemos hoje um totalitarismo comercial e financeiro imposto por bancos que roubam com a certeza da impunidade e a certeza de que suas vitimas não tem para onde correr ou buscar ajuda. E o fato de que os bilhões de Dólares em prejuízos promovido pelos bancos é diluído entre outros milhões de pequenos consumidores e empresários, faz com que a justiça sinta-se a vontade para não coibir de forma eficaz tais praticas. Enquanto não vermos quadros inteiros de diretores receberem duras penas de prisão, e bancos serem extintos por conta de praticas criminosas, o consumidor seguira pagando uma conta que não apenas não lhe pertence, mas que também o condena a continuar sendo refém de um sistema que oferece quase 0% de benefícios e 100% de impunidade a suas praticas criminosas. Diz um ditado conhecido nas ruas de Londres que “se você roubar um banco, você pega 25 anos de prisão, mas se um banco roubar você, o quadro de diretores recebe bonus”. Certamente, pelo grau de impunidade exercida por estes gigantes financeiros, este ditado nunca pareceu ser tão verdadeiro quanto agora.