Os Ataques em Paris e os Limites da Nossa Liberdade de Expressão

Por: Michaell Lange.

Londres, 08/01/15

O atentado de ontem na sede da revista cartunista semanal Charlie Hebdo em Paris trouxe atona o debate sobre a liberdade de expressão num mundo cada vez mais multicultural e globalizado. Obviamente que nada justifica o crime bárbaro cometido por extremistas que de forma alguma representam o Islamismo, muito pelo contrario, difama e calunia o Islamismo e dificulta a vida de quase dois bilhões de Muçulmanos pelos quais a maioria absoluta comunga pela Paz e são muitas vezes vitimas destes mesmos extremistas como qualquer outro povo ou religião. O policial visto num dos videos postado na internet sendo sumariamente executado enquanto agonizava no chão era Muçulmano o que contraria os próprios radicais que cometeram aquela barbárie.

Dois dias atras a Alemanha viveu um dia de protestos contra os Muçulmanos o que levou muita gente a se questionar qual a diferença dos jovens Alemães de hoje protestando contra o Islamismo e seus avós nos anos 30 protestando contra os Judeus? De fato, os protestos contra o islamismo não representava a maioria Alemã que respondeu com vigílias nas ruas de Colônia onde as luzes da catedral foram apagadas em sinal de desaprovação ao sentimento de extrema direita expressado por outros jovens nas ruas de Dresden.

Aqui no Reino Unido o Deputy Prime Minister (vice-Primeiro Ministro), Nick Clegg, disse a radio LBC – Leading British Conversation – que numa democracia os cidadãos devem ter garantidos o direito de se ofenderem e serem ofendidos. As palavras de Nick Clegg geraram criticas e debates durante todo o dia sobre os limites da liberdade de expressão e até que pondo essa liberdade deixa de ser um direito e passa a ser uma agressão passiva de prisão e processo legal. Aqui no Reino Unido por exemplo, é crime a perseguição de indivíduos, seja por outro indivíduo ou organização, por conta da sua cor, religião, opção sexual, etnia, peso etc. Mas expressar desprezo a um grupo de pessoas como por exemplo, Judeus e Muçulmanos, é considerado pela Lei Britânica como liberdade de expressão. Um dos ouvintes da radio questionou o caso em que uma mulher que no Remembrance Day, dia que os soldados mortos na primeira e segunda guerra mundial são lembrados, colocou fogo num punhado de poppys (flores que simbolizam a vida dos soldados mortos), e foi imediatamente presa, mas quando extremistas muçulmanos queimam a bandeira Britânica em protestos no Reino Unido, ninguém é detido.

A questão da liberdade de expressão é um tema extremamente polêmico já que é difícil dizer onde esta o limite entre a liberdade e o desrespeito, a comédia e o abuso. Sabemos por exemplo que em determinados casos como em programas de TV e radio as pessoas envolvidas nem sempre falam aquilo que pensam. Ha palavras ou palavrões que são inaceitáveis ou seja, os limites da liberdade de expressão (ou censura), estão claramente definidas nestes casos. Já em outros, estes limites são questionáveis. De modo geral, os Cartoons da revista Francesa vitima dos ataques de ontem são considerados por Católicos e Muçulmanos, extremamente ofensivos, o que nos leva a questionar até que ponto os protestos expressados nos cartoons contra os sistemas estabelecidos, sobre tudo na questão religiosa e política, são liberdades legitimas ou abusos irresponsáveis dessa liberdade tao fundamental em qualquer democracia. Ao mesmo tempo, a própria mídia que tanto clama e defende a liberdade de imprensa, usa a mesma liberdade para perseguir e censurar pessoas ou instituições que não seguem seus interesses. O caso da relação entre o cantor Tim Maia e a Rede Globo pela qual o cantor alega ter sido impedido de aparecer por mais de 10 anos é um caso clássico. A apresentadora do SBT Rachel Sheherazade também foi alegada de sofrer algo parecido. Em muitos casos onde a opinião é conveniente para um grupo de pessoas, a ofensa e o protesto de outras pessoas será vista como uma tentativa de censura e vice-versa. A própria questão da ofensa é subjetiva ou seja, o que ofende uma pessoa pode não ofender a outra mesmo quando estas pertencem ao mesmo grupo no qual a ofensa tenha sido direcionada. Dessa forma, ha milhares de Muçulmanos que não se ofendem com os cartoons publicados pela revista Francesa ao mesmo tempo que os mesmo cartoons podem ofender profundamente outros muçulmanos. O mesmo acontece com os católicos, Judeus etc. Aos extremista cujo o único objetivo é promover violência e medo, os motivos para seus atos sempre serão encontrados porque o objetivo não é promover o protesto ou o debate, mas sim a propagação da violência injustificada sobre inocentes desarmados.

A Europa vive um momento tenso onde grupos de extrema direita ganham força por conta da crise financeira na região e grupos extremistas com base religiosa tentam impor valores ilegítimos e injustificáveis sobre sociedades livres e civis. As expressões de solidariedade vistas hoje ao redor do mundo em favor das vitimas dos ataques de ontem em Paris, incluindo vigílias no Brasil e Argentina, demonstram uma vontade coletiva e mundial em favor do respeito as liberdades e dos direitos civis e humanos nos quais sociedades democráticas e não democráticas do mundo inteiro buscam como objetivo. A reflexão e o auto-questionamento sobre nossos sentimentos, incluindo as razões pelas quais nos sentimos ofendidos deve ser alvo da nossa atenção para que a tolerância e o respeito as nossas diferenças continue sendo o principal guia na busca de um mundo menos violento e mais justo. É preciso consciência e auto-controle nesse momento em que nossas emoções são testadas de forma tão brutal e cruel. A reação coletiva nesse momento tão frágil em nossas sociedades põe a prova a virtude mais fundamental de um indivíduo, a grandeza do seu próprio humanismo. Sejamos então mais humanos nesse momento em que a falta de humanidade de alguns indivíduos ameaça de forma tão severa a continuidade pela busca coletiva de toda a humanidade por um mundo de Paz e coexistência, e sobretudo livre.

One thought on “Os Ataques em Paris e os Limites da Nossa Liberdade de Expressão

  1. Está virando um caso de preocupação mundial esse tipo de reação intolerante ,principalmente do estado islâmico,que como a al quaeda(claro,com suas diferenças),mas o que preocupa,realmente,não são as religiões,mas sim,a imposição de suas crenças radicalmente e é o segmento que na minha opinião,mais globalizou-se no mundo moderno,que ironicamente não tem nada de moderno no seu contexto
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