Sobre a Execução do Brasileiro Condenado a Morte na Indonésia

Por: Michaell Lange

Londres, 17/01/15

O Brasileiro #MarcoArcher condenado a morte por trafico de drogas na Indonésia foi executado hoje pelas autoridades daquele país. Pessoalmente sou totalmente contra a pena de morte por ser uma pratica desumana e principalmente ineficaz. O Brasileiro não foi o primeiro a ser fuzilado por trafico de drogas na Indonésia e nem sera o ultimo ou seja, a pena capital não impede e continua a não impedir que outros traficantes continuem a tentar entrar no país com drogas. O sistema de justiça daquele pais também não é melhor que o nosso e isso me leva a acreditar que muitos condenados são, possivelmente inocentes. Nos EUA onde o sistema de justiça é um pouquinho melhor (eu disse um pouquinho) que o da Indonésia, há relatos de várias condenações a morte cujo o condenado era na verdade inocente, imagine num país de cultura corrupta e militar como a da Indonésia. Não quero aqui defender o Brasileiro ou mesmo condena-lo, o que quero dizer é que não sei se ele era ou não culpado pelo crime em que foi condenado. Não confio em nenhum sistema de justiça, muito menos o de países com histórico de conseguir atestados de confissão por tortura.

Por outro lado, não consigo entender toda essa reação de algumas pessoas e da própria mídia em fazer desse caso algo tão abominável se ao mesmo tempo temos uma corporação militar chamada PM que fuzila milhares de inocentes Brasileiros todos os anos sem que a mídia ou o governo tenha a mesma reação. São eles jovens, adolescentes, adultos e mulheres executados sem direito a defesa, sem direito a julgamento, sem direito a advogados. Não. não estou falando daqueles que recebem a policia a bala na entrada das favelas. Estou falando das chacinas cometidas por PMs, pelos homicídios de crianças de rua que desaparecem nos bancos de trás das viaturas da policia. Sim, ha também bons policiais executados por bandidos de forma brutal, mas é difícil saber quem é quem numa corporação tão corrompida como a PM.

O próprio governo executa milhares de Brasileiros inocentes nas emergências dos hospitais, nas filas para exames de diagnósticos, nas filas para cirurgias, nas filas para o tratamentos de doenças como o cancer, por falta de ambulâncias, por falta de hospitais. Matamos Brasileiros inocentes pela corrupção da saúde, pelo roubo de medicamentos dos hospitais do SUS por médicos Brasileiros que comandam máfia do cartão de ponto, máfia das próteses, máfia de consultas e exames falsos e máfia de todos os tipos promovidas por médicos e enfermeiros formados em Universidades federais, pagas integralmente com verbas públicas (bolsa universidade?) ou seja, com o dinheiro daqueles que os médicos tinham o dever civil e a obrigação moral de tratar bem.

Matamos inocentes Brasileiros todos os dias sem direito a defesa quando dirigimos embriagados, quando ultrapassamos em local proibido, quando não usamos o sinto de segurança e capacete, quando furamos o sinal vermelho, quando dirigimos em alta velocidade.

Condenamos a morte milhares de crianças Brasileiras inocentes quando o governo corta 7 bilhões da educação que serão traduzidos em falta de escolas, pela falta de segurança, falta de oportunidades e acesso a atividades de lazer e esportes, e pela falta de uma família que dê amor e carinho, porque serão estes mesmos jovens que cairão nas mãos de criminosos e por conseqüência cometerão crimes e receberão a policia a bala na entrada das favelas. Onde esta a reação do governo, da mídia e da sociedade nestes holocaustos diários promovidos por nós mesmos contra nós mesmos?

Na questão do Brasileiro executado hoje na Indonésia o governo Brasileiro deu mais uma próva de sua incompetência. Não apenas na sua incapacidade de lidar com assuntos internacionais onde nem o apelo da Presidente da Republica foi capaz de fazer a justiça da Indonésia rever o caso ou ao menos, adiar o processo de execução. Mas incompetente também na forma como passou a dar mais importância depois que a mídia resolveu falar sobre o assunto uma semana antes da execução da pena. Afinal de contas esse caso segue desde 2004 ou seja, 10 anos onde os trabalhos de diplomacia do Brasil poderiam ter acompanhado o caso e entrado com apelos e recursos legais caso o julgamento não tenha ocorrido de forma justa ou correta. É um tanto óbvio e historicamente comprovado que qualquer governo, quando há vontade política, é capaz de interceder de forma positiva em casos como esse, sem interferir no sistema de justiça local. Se Marco Archer era culpado ou não o fato é que o governo Brasileiro teve tempo e instrumentos legais para garantir que a pena de morte fosse transformada em prisão perpétua por exemplo, mas os apelos vieram tarde demais.

Uma das lições nessa história é a constatação de que ainda somos um povo totalmente manipulados pela história contada sem que façamos os devidos questionamentos a seu respeito. Tudo que sabemos continua a ser tudo aquilo que nos contam, e se tudo aquilo que nos contam for mentira então, tudo que sabemos são inverdades. Um Brasileiro foi executado na Indonésia por trafico de drogas. Mas quantos Brasileiros inocentes são executados todos os dias sem que as nossas emoções sejam postas a prova da mesma forma? De uma forma ou de outra o Brasil é como a Indonésia, tem um sistema de justiça não confiavel, uma policia e um governo corrupto e um povo que vê mas não enxerga nada. Somos os míopes do terceiro mundo em pleno século 21 …

Marcha em Paris Reúne Milhões de Pessoas

Por: Michaell Lange.

Londres, 11/01/15

Uma multidão de mais de um milhão de pessoas caminharam hoje pelas ruas de Paris em apoio a liberdade de expressão e em solidariedade as vitimas e familiares das pessoas mortas nos ataques desta semana. Dados oficiais falavam entre 1.2 e 1.6 milhões de pessoas, mas segundo várias agencias de noticia o número pode ter chego a 3 milhões de pessoas. Segundo a mídia local a cidade não via um número tão grande de pessoas numa única manifestação desde a libertação de Paris das mãos dos nazistas em 1944. Neste Sábado (10 ) dezenas de milhares de Alemães foram as ruas de Dresden numa manifestação contra o racismo e a xenofobia. Dresden se transformou no centro dos protestos de grupos anti-imigrantes organizados por um novo movimento chamado PEGIDA. Em Londres, milhares de pessoas incluindo turistas de todo o mundo se reuniram em vários pontos da cidade incluindo Trafalgar Square e Tower Bridge que foram iluminadas com luzes com as cores vermelha, branco e azul em apoio aos Franceses. Em Paris, um momento marcante do dia foi um abraço bastante emocionado entre a Chanceler Alemã, Angela Merkel e o Presidente Frances, Fraçois Hollande. Angela Merkel caminhou o tempo todo ao lado do presidente Frances. Participaram da caminhada 44 lideres mundiais incluindo o secretario geral da ONU Ban Ki-moon.

Lideres Muçulmanos como o presidente da Palestina Mahmoud Abbas também estavam presentes mas não recebeu a mesma atenção que outros lideres como o Primeiro Ministro de Israel Benjamin Netanyahu que foi recebido com aplausos pela multidão.

Numa analise critica dos acontecimentos de hoje pode-se dizer que ficou claro que, apesar das intenções da manifestação, a impressão deixada foi a de que o ocidente se uniu contra a ameaça Islâmica. Tanto o Presidente Frances quanto o Primeiros Ministro de Israel, assim como Angela Merkel e David Cameron mantiveram a devida distancia dos lideres Muçulmanos presentes. Talvez tenha-se perdido, provavelmente por motivos políticos, a oportunidade de demonstrar realmente uma vontade de unidade entre lideres Judeus, Cristãos e Muçulmanos contra o radicalismo religioso e não apenas contra o radicalismo Islâmico. Obviamente que não deveríamos esperar um abraço entre os lideres de Israel e Palestina, mas talvez um aperto de mão tivesse dado um sinal importante na busca de um caminho menos violento nas questões entre os dois países e entre as religiões envolvidas. O próprio presidente Frances deveria ter demonstrado mais proximidade com Mahmoud Abbas para também demonstrar a importância da união contra o radicalismo religioso. Durante todo o dia a mídia falou apenas sobre o radicalismo Islâmico sem dar ênfase também ao radicalismo de uma forma geral não menos importante. A comissão de frente da marcha de hoje destacava apenas lideres de países Cristãos com exceção do presidente de Mali, pais Africano onde 55% da população é de Muçulmanos moderados e o presidente palestino. Talvez o ideal teria sido ter ao seu lado o Primeiro Ministro de Israel e o Presidente da Palestina numa demonstração clara de união contra o radicalismo e a favor da liberdade de expressão em todos os níveis. Obviamente que o custo político de tal ação não valeria o risco. A França reconheceu recentemente a Palestina como estado legitimo o que não agradou Israel. De qualquer forma perdeu-se uma oportunidade de demonstrar vontade política de união entre os lideres. In 1978 por exemplo durante a guerra civil na Jamaica, o cantor Bob Marley promoveu o One Love Concert, que reuniu os dois lideres opositores e peças chave da guerra civil no país. Depois de cantar a musica “Jammin” (juntar-se), Bob chamou os dois lideres políticos ao palco e juntou as mãos dos dois lideres sobre sua cabeça fazendo uma rápida oração. O impacto da demonstração dos lideres foi imediato. Os combates nas ruas acabaram e o povo se reconciliou. Hoje em Paris algumas oportunidades que poderiam ter tido um impacto maior foram desperdiçadas. Também nas rádios e na TV oficiais de segurança nacional como o MI5 do Reino Unido afirmaram que o mundo esta em guerra contra o radicalismo Islâmico, afirmação que certamente não colabora com a intenção de unir o planeta contra todo tipo de radicalismo social.

Ainda durante a marcha de hoje segundo a agencia de noticias Reuters, várias mensagens nas redes sociais da França demonstravam insatisfação com o slogan “Je suis Charlie” (eu sou Charlie) numa interpretação de liberdade de expressão a todo custo. Algumas mensagens falavam de hipocrisia dos lideres mundiais cujo os países tem uma mídia repressiva mas estavam em Paris cobrindo as manifestações. Uma outra critica que rondou as redes sociais foi a baixa cobertura dos ataques terroristas na Nigéria que deixaram mais de 2 mil mortos em apenas um dia. Fica a impressão de que 17 Franceses tem muito mais valor do que 2 mil Nigerianos. A mídia parece ter maximizado o ataque em Paris por se tratar de uma cidade Européia. Mas, será que teríamos visto a mesma repercussão se o mesmo ataque tivesse ocorrido em algum país da Africa? Muita gente acredita que não.

Sem duvidas que as manifestações de hoje terão impacto na forma como a pessoas e as instituições promovem a liberdade de expressão assim como também os debates sobre os possíveis limites dessa liberdade continuarão ainda por muito tempo. Além disso, o governo e a sociedade Francesa precisarão fazer uma profunda reflexão na forma como grupos minoritários são tratados na frança. O processo de integração de grupos étnicos e religiosos parece não ter dado muito certo no país enquanto em outros países como o Reino Unido esse processo tem sido muito mais positivo. A França proibiu o uso da burca (burqa) no pais em 2010 e foi duramente critica por instituições dos direitos humanos. A população de Islâmicos vive  em sua maioria nos guetos ao redor de Paris e mesmo aqueles que nasceram na frança não são visto pela sociedade como legítimos franceses. Muitos franceses de segunda e terceira geração de imigrantes reclamam das dificuldades em sair e entrar no país por conta da desconfiança dos oficiais de imigração nos aeroportos e estações de trem. Muitos reclamam de ter que responder a perguntas sobre como adquiriram passaporte francês todas as vezes que entram ou saem do país.

Durante todo o dia apresentadores de TV, entrevistadores e entrevistados fizeram questão de frisar que o terrorismo não venceu. Mas a verdade é que 17 pessoas foram brutalmente assassinadas, a população esta com medo e principalmente a comunidade Judaica esta abalada e aflita. No Reino Unido e EUA o nível de risco para ataques terroristas foram elevados e os governos sofrem pressão para investir mais em segurança. Apesar da principal impressão dos protestos de hoje terem sido sobre a importância da liberdade de expressão, os problemas por trás dos ataques em Paris são bem mais profundos e complexos. Os investimentos em segurança não serão os únicos desafios da França. A questão social precisa ser resolvida. Enquanto as minorias continuarem a serem tratadas como estrangeiros, os problemas continuarão e os riscos de jovens caírem nas maos de grupos extremistas continuara alto. Hoje foi um dia de reflexão em quase todo o mundo, mas se amanhã não acordarmos diferentes, o mundo continuara sendo o mesmo.

Esporte: O Elo Perdido do Desenvolvimento Social Brasileiro

Por: Michaell Lange

Londres, 10/01/15

A recente e inédita vitória do surfista Brasileiro Gabriel Medina no Hawaii, nos deu o tão sonhado primeiro titulo mundial de surf. Um titulo vencido pelo talento e pela vontade de vencer de um guerreiro que como outros milhares de talentos de Norte a Sul do Brasil não teve o devido suporte encontrado por outros atletas estrangeiros em seus respetivos países. As desvantagens entre nossos atletas e os atletas estrangeiros é um universo aparte. Mesmo assim conseguimos em muitos casos, ser campeões mundiais. Mas seriam estas vitórias um resultado dos programas de incentivos e formação de atletas do Brasil? ou seria o resultado da luta pessoal destes verdadeiros heróis Brasileiros?

A trilha dos talentos do esporte Brasileiro é dura, sem apoio e cheia de preconceitos. A maioria dos grandes campeões que deram orgulho ao Brasil não tiveram base de incentivo com origem em algum projeto governamental com o intuito de criar os campeões do futuro. Os melhores jogadores de futebol do mundo, Pelé, Rivelino, Sócrates, Romário, Ronaldo e Ronaldinho entre tantos outros, são talentos naturais e que somente tiveram apoio quando se tornaram produtos lucrativos aos grandes clubes. O mesmo ocorre no atletismo, e na maioria dos outros esportes. Apesar de algumas associações esportivas receberem verbas do governo, estes valores nunca são suficientes e não seguem um guia nacional como ocorre em outros países. Falta incentivos onde não falta talento. Com poucas exceções, nenhum dos grandes heróis do esporte Brasileiro nasceu do incentivo promovido por escolas e universidades publicas. Vejamos por exemplo, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna, ou ainda Robert Scheidt, Torben Grael, Gustavo Borges, César Cielo, Aurélio Miguel, Robson da Silva ( o melhor corredor da história Brasileira), Gustavo Kuerten, entre outros tantos. Joaquin Cruz que também nos deu tantas alegrias foi na verdade formado nos EUA. Joaquin Cruz recebeu uma bolsa da Universidade do Oregon onde obteve o suporte que não tivera em seu próprio pais. Mesmo assim representou a verde e amarela com toda a sua força. Alias, nos EUA a formação atlética  acontece durante os anos escolares onde cada escola tem seu time de atletas onde muitos seguirão a carreira esportiva, na maioria das vezes com sucesso.

Ao contrario do que muitos acreditam, a idéia de que investimentos em segurança como construção de prisões, diminuição da maioridade penal e aplicação de penas mais severas, estao na contra-mão dos países que obtiveram sucesso nesse assunto. Países como a Suécia e a Noruega, investem pesado na formação de seus jovens, afinal de contas os jovens são o futuro da nação, certo? Nestes países o crime é combatido com a promoção do acesso a educação de qualidade, saúde, segurança, esporte e oportunidades aos jovens. Ao contrario do Brasil, eles estão fechando prisões por falta de presos. Não seria o exemplo a ser seguido pelo Brasil? Por outro lado, no Afeganistão o ladrão perde a mão, na China a pena de morte pode ser aplicada até por causa de cheque sem fundos. Perguntamos, seriam estes os exemplos a serem seguidos pelo Brasil? Acredito que não.

O esporte deveria ser parte fundamental do ensino escolar. Não apenas porque é saudável e ajuda no desenvolvimento individual e físico dos alunos, mas também porque o esporte como profissão é uma das melhores opções para qualquer jovem estudante. O esporte como profissão proporciona uma vida saudável, sem o stress encontrado nas outras profissões. O profissional do esporte viaja para os lugares mais bonitos do mundo tendo a oportunidade de conhecer outros países, outras culturas e se relacionar com pessoas do mundo inteiro, sem falar que na maioria das vezes tudo isso é pago por patrocinadores. O esporte também ajuda a formar uma sociedade mais saudável, segura, livre, disciplinada e desenvolvida. No quesito esporte o Brasil perde feio até mesmo para países em desenvolvimento como a China e a Russia onde os atletas tem programas de desenvolvimento e oportunidades muito melhores que no Brasil. Os resultados estão no histórico das Olimpíadas onde estes países estão sempre dividindo as primeiras posições com países mais desenvolvidos como EUA e Reino Unido. O resultado social só não é maior nestes países por conta do histórico politico e cultural que no Brasil, apesar não estarmos muito afrente, ainda temos um histórico cultural e democratico melhor que o deles.

O Brasileiro, de modo geral é um apaixonado por esportes. Praticamente todos os esportes são praticados no Brasil, e afinal, quem não conhece um ou mais talentos que com o apoio correto teriam o potencial de um campeão mundial? Hoje, se nossos talentos esportivos não tem uma família que possa dar o devido apoio, nossos candidatos a campeões ficam a mercê da sorte e da frustração de ter o potencial e a vontade mas não terem a oportunidade que poderia mudar o destino de suas vidas e o futuro do próprio Brasil. Assim como Ayrton Senna, Gustavo Kuerten e mais recentemente, Gabriel Medina inspiraram e inspiram milhões de jovens Brasileiros, mas a frustração é quase sempre o destino da grande maioria dos que buscam no esporte a profissão para suas vidas que quase sempre acaba esbarrando na realidade Brasileira.

O corte de 7 bilhões no orçamento da educação anunciado pelo atual governo Dilma é uma declaração de guerra contra o futuro do Brasil e certamente não ajudara a mudar essa realidade. Quem perde com isso é a própria sociedade que assiste ao crescente número de jovens envolvidos em atividades criminosas, ano após ano. A musica “Submarino da Nação” da banda John Bala Jones, resume bem essa realidade. ” …Temos um submarino e muitos aviões e além de tudo isso, somos tetra campeões, campeões em assaltos e roubos, campeões em subornos e outros, somos tetra campeões… Esse pais pra chegar aqui teve que subir, sub, submundo, submisso, subvida, subnutrição…”

O que podemos esperar de bom para a colheita se não estamos plantando nada de bom?

Os Ataques em Paris e os Limites da Nossa Liberdade de Expressão

Por: Michaell Lange.

Londres, 08/01/15

O atentado de ontem na sede da revista cartunista semanal Charlie Hebdo em Paris trouxe atona o debate sobre a liberdade de expressão num mundo cada vez mais multicultural e globalizado. Obviamente que nada justifica o crime bárbaro cometido por extremistas que de forma alguma representam o Islamismo, muito pelo contrario, difama e calunia o Islamismo e dificulta a vida de quase dois bilhões de Muçulmanos pelos quais a maioria absoluta comunga pela Paz e são muitas vezes vitimas destes mesmos extremistas como qualquer outro povo ou religião. O policial visto num dos videos postado na internet sendo sumariamente executado enquanto agonizava no chão era Muçulmano o que contraria os próprios radicais que cometeram aquela barbárie.

Dois dias atras a Alemanha viveu um dia de protestos contra os Muçulmanos o que levou muita gente a se questionar qual a diferença dos jovens Alemães de hoje protestando contra o Islamismo e seus avós nos anos 30 protestando contra os Judeus? De fato, os protestos contra o islamismo não representava a maioria Alemã que respondeu com vigílias nas ruas de Colônia onde as luzes da catedral foram apagadas em sinal de desaprovação ao sentimento de extrema direita expressado por outros jovens nas ruas de Dresden.

Aqui no Reino Unido o Deputy Prime Minister (vice-Primeiro Ministro), Nick Clegg, disse a radio LBC – Leading British Conversation – que numa democracia os cidadãos devem ter garantidos o direito de se ofenderem e serem ofendidos. As palavras de Nick Clegg geraram criticas e debates durante todo o dia sobre os limites da liberdade de expressão e até que pondo essa liberdade deixa de ser um direito e passa a ser uma agressão passiva de prisão e processo legal. Aqui no Reino Unido por exemplo, é crime a perseguição de indivíduos, seja por outro indivíduo ou organização, por conta da sua cor, religião, opção sexual, etnia, peso etc. Mas expressar desprezo a um grupo de pessoas como por exemplo, Judeus e Muçulmanos, é considerado pela Lei Britânica como liberdade de expressão. Um dos ouvintes da radio questionou o caso em que uma mulher que no Remembrance Day, dia que os soldados mortos na primeira e segunda guerra mundial são lembrados, colocou fogo num punhado de poppys (flores que simbolizam a vida dos soldados mortos), e foi imediatamente presa, mas quando extremistas muçulmanos queimam a bandeira Britânica em protestos no Reino Unido, ninguém é detido.

A questão da liberdade de expressão é um tema extremamente polêmico já que é difícil dizer onde esta o limite entre a liberdade e o desrespeito, a comédia e o abuso. Sabemos por exemplo que em determinados casos como em programas de TV e radio as pessoas envolvidas nem sempre falam aquilo que pensam. Ha palavras ou palavrões que são inaceitáveis ou seja, os limites da liberdade de expressão (ou censura), estão claramente definidas nestes casos. Já em outros, estes limites são questionáveis. De modo geral, os Cartoons da revista Francesa vitima dos ataques de ontem são considerados por Católicos e Muçulmanos, extremamente ofensivos, o que nos leva a questionar até que ponto os protestos expressados nos cartoons contra os sistemas estabelecidos, sobre tudo na questão religiosa e política, são liberdades legitimas ou abusos irresponsáveis dessa liberdade tao fundamental em qualquer democracia. Ao mesmo tempo, a própria mídia que tanto clama e defende a liberdade de imprensa, usa a mesma liberdade para perseguir e censurar pessoas ou instituições que não seguem seus interesses. O caso da relação entre o cantor Tim Maia e a Rede Globo pela qual o cantor alega ter sido impedido de aparecer por mais de 10 anos é um caso clássico. A apresentadora do SBT Rachel Sheherazade também foi alegada de sofrer algo parecido. Em muitos casos onde a opinião é conveniente para um grupo de pessoas, a ofensa e o protesto de outras pessoas será vista como uma tentativa de censura e vice-versa. A própria questão da ofensa é subjetiva ou seja, o que ofende uma pessoa pode não ofender a outra mesmo quando estas pertencem ao mesmo grupo no qual a ofensa tenha sido direcionada. Dessa forma, ha milhares de Muçulmanos que não se ofendem com os cartoons publicados pela revista Francesa ao mesmo tempo que os mesmo cartoons podem ofender profundamente outros muçulmanos. O mesmo acontece com os católicos, Judeus etc. Aos extremista cujo o único objetivo é promover violência e medo, os motivos para seus atos sempre serão encontrados porque o objetivo não é promover o protesto ou o debate, mas sim a propagação da violência injustificada sobre inocentes desarmados.

A Europa vive um momento tenso onde grupos de extrema direita ganham força por conta da crise financeira na região e grupos extremistas com base religiosa tentam impor valores ilegítimos e injustificáveis sobre sociedades livres e civis. As expressões de solidariedade vistas hoje ao redor do mundo em favor das vitimas dos ataques de ontem em Paris, incluindo vigílias no Brasil e Argentina, demonstram uma vontade coletiva e mundial em favor do respeito as liberdades e dos direitos civis e humanos nos quais sociedades democráticas e não democráticas do mundo inteiro buscam como objetivo. A reflexão e o auto-questionamento sobre nossos sentimentos, incluindo as razões pelas quais nos sentimos ofendidos deve ser alvo da nossa atenção para que a tolerância e o respeito as nossas diferenças continue sendo o principal guia na busca de um mundo menos violento e mais justo. É preciso consciência e auto-controle nesse momento em que nossas emoções são testadas de forma tão brutal e cruel. A reação coletiva nesse momento tão frágil em nossas sociedades põe a prova a virtude mais fundamental de um indivíduo, a grandeza do seu próprio humanismo. Sejamos então mais humanos nesse momento em que a falta de humanidade de alguns indivíduos ameaça de forma tão severa a continuidade pela busca coletiva de toda a humanidade por um mundo de Paz e coexistência, e sobretudo livre.